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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

A emocionante descoberta dos ossos de São Pedro no Vaticano


“Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”

Cristo entrega as chaves a São Pedro e o institui fundamento único da Igreja
Cristo entrega as chaves a São Pedro e o institui fundamento único da Igreja

“Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt XVI,18).
As divinas palavras de Jesus concedendo o primado a São Pedro convidam os católicos de todos os tempos a se interessar, cheios de veneração, por tudo o que se refira ao primeiro Papa.

E, pelo contrário, os anticatólicos tendem a atacar o quanto podem o primado do Príncipe dos Apóstolos.

Os protestantes chegaram a impugnar gratuitamente até a autenticidade daquelas palavras de Nosso Senhor a São Pedro.

Negaram mesmo, junto com racionalistas e comunistas, que ele tenha estado em Roma e, portanto, que tenha exercido lá o papado.

Mas através dos séculos foram surgindo documentos provenientes dos mais diversos pontos da cristandade primitiva, confirmando a tradição católica.

As provas foram tão acachapantes, que os anticatólicos praticamente ficaram reduzidos ao silêncio quanto a esses pontos.

Um dos principais historiadores protestantes, A. Harvach, reconheceu que já não merece o nome de historiador quem puser em dúvida que São Pedro tenha exercido seu ministério em Roma.


Persistia, porém, entre muitos historiadores uma questão:

O túmulo do Vigário de Cristo realmente está sob o magnífico altar-mor da Basílica de São Pedro?

Sobre este assunto há um silêncio quase total nos documentos dos primeiros séculos da História da Igreja.

A tradição católica é bem precisa: São Pedro, já idoso, foi crucificado de cabeça para baixo na colina Vaticana, no ano de 68 (segundo alguns, 64), após ter exercido o papado em Roma por 25 anos.

Seu corpo foi sepultado perto do local do martírio, num cemitério pagão existente na colina Vaticana, em frente ao circo de Nero.


Imagem de bronze de São Pedro, paramentada no dia de sua festa.  No fundo: altar com relíquias do trono do Príncipe dos Apóstolos
Imagem de bronze de São Pedro, paramentada no dia de sua festa.
No fundo: altar com relíquias do trono do Príncipe dos Apóstolos
A tradição aponta ainda o lugar exato da sepultura – a chamada “confissão de São Pedro” –, veneradíssimo desde tempos imemoriais. Tendo em vista a antiguidade e a universalidade dessa tradição, a Igreja a aceitou.
Nos 250 anos que vão desde a morte de São Pedro até a liberdade da Igreja concedida por Constantino mediante o Edito de Milão (ano 313), apenas dois documentos referem-se ao túmulo do Apóstolo.

Um diz que o Papa Santo Anacleto ergueu no local um monumento fúnebre, aproximadamente vinte anos após a morte do Chefe da Igreja.

Outro, mais seguro, é uma carta do sacerdote Gaius de Roma, no ano 200, afirmando que no local havia um τρόπαιον – monumento fúnebre (a palavra portuguesa “troféu” não corresponde exatamente ao sentido da palavra grega τρόπαιον).

Assim que foi concedida liberdade aos cristãos, multidões de fiéis começaram a afluir de todas as partes para venerar as relíquias do Príncipe dos Apóstolos.

Por volta do ano 330, o Imperador Constantino e o Papa São Silvestre ergueram naquele local magnífica e enorme Basílica.

O próprio Imperador trabalhou na obra, carregando doze cestos de terra em homenagem aos Apóstolos.

O local era sumamente inconveniente para a construção, pois o subsolo era mole e cheio de água, e o terreno em declive necessitava aterros colossais.

Além disso, pelas leis romanas, o cemitério era inviolável, não se podendo retirar os ossos de nenhuma sepultura.

Somente a persuasão de estar o lugar ligado a um ponto fixo intransferível – o túmulo de São Pedro, que devia tornar-se o centro da grande Basílica – pôde ter levado Constantino a enfrentar tantas dificuldades técnicas, jurídicas e psicológicas que se opunham à construção em local tão impróprio.

Mais tarde, na Renascença, a atual e ainda maior Basílica de São Pedro foi construída no mesmo sítio, mas sem interferência nas construções anteriores, erguendo-se num plano mais elevado.


 Ossos de São Pedro numa urna no Altar da Confissão no Vaticano
Ossos de São Pedro numa urna no Altar da Confissão no Vaticano
 Assim, sobre o túmulo primitivo ergueram-se as construções constantinianas, e acima delas as da Renascença. Em diversas épocas houve reformas em torno do túmulo, mas – fato notável – não consta que ele tenha sido aberto em 1600 anos de história.
Um interessante livro, The Bones of St. Peter (“Os ossos de São Pedro”), de John E. Walsh (Doubleday, N.Y., 1982) narra, pela primeira vez, as pesquisas científicas realizadas no túmulo nos últimos anos. Os dados que se seguem foram extraídos dessa obra.


As escavações

Em 1939 foi decidido rebaixar o subsolo dos corredores em torno do túmulo, para aumentar o pé direito deles. Aí está sepultada a maioria dos Papas. Uma equipe de competentes arqueólogos orientava os trabalhos.

Entre eles estava o prof. Enrico Josi, considerado o maior especialista em antiguidades cristãs. Dirigia a equipe o administrador da Basílica de São Pedro, Mons. L. Kaas. O [Venerável] Papa Pio XII não os autorizou a tocar nas construções do túmulo petrino.

Logo no início dos trabalhos, foram encontrados vários mausoléus adjacentes. Alguns estão entre os melhores exemplares já descobertos do período áureo romano.

Um ponto da tradição foi portanto confirmado: o cemitério pagão, no qual São Pedro fora sepultado. Numa lápide veio outra confirmação: uma inscrição referia que ao lado estava o circo de Nero.

Verificou-se que o cemitério era anterior à morte de São Pedro. Mas os ricos mausoléus eram pouco posteriores a ela. Tudo havia sido soterrado intacto pelos operários constantinianos, para não violar os túmulos.

Com todos esses indícios favoráveis, Pio XII autorizou então que se abrisse o túmulo e se fizesse um estudo completo de tudo.

Decidiu-se tentar penetrar pela parede de uma pequena capela do século XVI que está embaixo do altar-mor atual. Foi desmontado cuidadosamente um afamado mosaico que há nessa parede, e descobriu-se que ela era da época de São Gregório Magno (590-604).




Urna com os ossos de São Pedro no Altar da Confissão no Vaticano
Urna com os ossos de São Pedro no Altar da Confissão no Vaticano
Nela abriu-se um buraco, tirando tijolo por tijolo. Havia atrás uma grossa placa de magnífico mármore decorado com um precioso pórfiro escuro.
Alargando o buraco, verificou-se que era um altar montado pelo Papa Calixto, no século XII.

Retiradas algumas peças de mármore, chegou-se à outra parede, certamente da Basílica de Constantino, do ano 330.

Atrás havia ainda outra parede bem mais antiga, grossa, de tijolos e pintada de vermelho vivo. Seria parte do túmulo original?

Para não danificá-la, decidiram tentar em outro local bem mais à direita. Após passar pelas mesmas paredes, chegaram a outro altar precioso – este havia sido o altar-mor erigido por São Gregório Magno na Basílica velha de São Pedro, no século VI.

A parede vermelha, nessa local, estava recoberta de excelentes mármores, sinal de importância. Tentou-se, então, do lado oposto. Mas ao invés de chegar à parede vermelha, encontraram uma azul.

E tiveram a surpresa de verificar que era uma grossa parede de pequena extensão, colada à vermelha, em ângulo reto com ela. Ambas são da época romana, mas a vermelha, mais antiga, era maior e descia fundo.

Atrás dela depararam com paredes mais recentes. Assim, era evidente que o túmulo estava bem mais fundo, e que acima do solo da época romana só havia essa grande parede, ornada de nichos em estilo clássico, sem nenhuma decoração cristã.

Estava confirmado o τρόπαιον referido por Gaius, no ano 200. As duras perseguições religiosas durante o Império certamente forçaram esse disfarce e a ausência de símbolos cristãos.
          
"Muro dos grafitti"
     
 Mas as surpresas apenas começavam: o exame da parede azul revelou que ela estava coberta de inscrições cristãs de tipo grafite, feitas com estiletes, na maior desordem.
Concluiu-se que eram pedidos de orações dos primeiros cristãos, que punham seus nomes – Ursianus, Bonifatius, Paulina etc. O símbolo codificado de Cristo (as letras gregas chi-rho superpostas, como se vê no desenho ao lado) aparecia várias vezes.
Mas o nome que se procurava não foi encontrado: Petrus. Nenhuma invocação a ele naquela floresta de nomes. Permanecia o indecifrável silêncio sobre São Pedro.
Num ponto dessa parede foi encontrado um pequeno buraco, formado pela queda da argamassa. Inserindo luz pelo buraco, verificou-se que a parte de baixo da parede azul era oca e revestida internamente de excelentes mármores.
No chão dessa cavidade havia muito pó. Parecia ter sido algum túmulo engenhosamente escondido ali. Seria impossível investigar melhor aquilo sem abrir mais o pequeno buraco, o que destruiria as inscrições.
Corte esquemático permite ver o posicionamento dos túmulos. No nº1 São Pedro
Corte esquemático permite ver o posicionamento dos túmulos. No nº1 São Pedro
Com isso, as atenções se voltaram para o túmulo de São Pedro propriamente dito. Decidiu-se escavar mais, bem junto à parede vermelha, para se chegar à câmara mortuária.
Logo foram encontradas algumas sepulturas cristãs simples, quase amontoadas junto à parede. Eram dos primeiros séculos. Tratava-se de um tocante indício: todos os corpos estavam voltados para a parede. Eram cristãos enterrados bem junto a São Pedro.
Ao retirar uma pedra, depararam com uma cavidade vazia: afinal, o túmulo! Emocionados, os arqueólogos avisaram [o Venerável] Pio XII, que em dez minutos chegou.
Era uma câmara pequena, mas alta, simples, com paredes de tijolos nus e piso de terra. E estava vazia! Havia sinais evidentes de violência: um nicho e uma trave golpeados violentamente, uma coluneta partida.

Conjunto dos ossos de São Pedro achados no túmulo
             Conjunto dos ossos de São Pedro achados no túmulo
No chão encontraram-se muitas moedas romanas e medievais, confirmando uma crônica que se refere a uma pequena abertura no túmulo, onde se podia introduzir a mão. As moedas provinham de todo o Império, atestando a devoção generalizada ao Apóstolo.
O exame minucioso do local revelou na base do nicho uma pequena abertura em forma de Λ, entupida de terra.
Revolvendo o interior dessa abertura, encontrou-se enorme quantidade de fragmentos de ossos antiquíssimos. Eram mais de 250. Seriam os do Apóstolo?
Em caso afirmativo, por que estavam eles em posição tão secundária e escondidos?
O médico de Pio XII, dr. Galeazi-Lizi, examinou-os superficialmente e concluiu que eram de um homem idoso e de físico robusto, o que correspondia à descrição de São Pedro. Daí ter-se propagado, na ocasião, a versão de que os ossos eram dele.
Mas essa localização estranha exigia maiores pesquisas. As escavações continuaram, revelando que a parede vermelha era a peça chave de um complexo de construções.
Tratava-se de uma edícula comemorativa, no centro da qual havia duas colunetas sustentando uma laje de travertino, parecendo um altar. Em frente situava-se um pátio fechado por altos muros.

Restos do primeiro túmulo construido para São Pedro
Restos do primeiro túmulo construido para São Pedro
 Era obviamente uma construção ideal para celebrações clandestinas dos primeiros cristãos.
Como o cemitério era pagão e aberto, ao contrário das catacumbas, as precauções tinham que ser maiores.
Daí a ausência do nome de Pedro e de símbolos cristãos nessa área (é aí que está a parede azul com os grafitos). É esta também a razão do silêncio sobre a localização do túmulo, na literatura cristã da época.

Πέτροσ ένι
 
Após o término das escavações, em 1950, o arqueólogo Ferrua examinava o interior da parte oca da parede azul, e notou no chão, perto da junção desta com a parede vermelha, um pequeno pedaço de argamassa que havia caído.
Conseguiu pegá-lo dentro do buraco, e viu que havia algo gravado ali à estilete. Levado a especialistas, descobriu-se uma inscrição em grego que dizia: “Πέτρ... ἔνι”.
Faltavam letras no primeiro nome, obviamente Πέτροσ (“Pedro”). Ἕνι é a contração do verbo grego antigo ἔνεοτι, que significa “estar dentro”. A inscrição significava “Pedro está aqui”.
A essa altura, um dos maiores especialistas em inscrições antigas, a dra. Margherita Guarducci, passou a estudar os grafitos da parede azul.
Como se sabe, os cristãos tinham toda uma linguagem codificada de símbolos e letras – o peixe, as letras gregas chi-rho (ΧΡ), o Μ para Maria, o Ν para vitória etc.
Após algum estudo, a dra. Guarducci descobriu o código usado para São Pedro: um “Ρ” com um discreto “Ε” em sua perna, ou o mesmo símbolo inserido no chi-rho de Jesus, tocante símbolo para o Vigário de Cristo (cfr. desenho ao lado).
Além disso, a descoberta provava contra os anticatólicos que a doutrina do papado já era clara naqueles primórdios da Igreja.
Muitas inscrições com esse símbolo podiam ser observadas na parede dos grafites. Estudos posteriores revelaram que São Pedro era invocado com grande frequência, mediante tal símbolo, pelos primeiros cristãos, pois ele era muito usado nas catacumbas em cartas, em mosaicos, em pinturas etc. Estava explicado o “silêncio” sobre São Pedro.

Grafitti com o chi-rho (ou XP), símbolo de Cristo
Grafitti com o chi-rho (ou XP), símbolo de Cristo
Essa descoberta fez com que a dra. Guarducci ficasse intrigada com a inexplicável parede oca com os grafites e o “Πέτροσ ἔνι”.
Chamou sua atenção um fato que passou despercebido aos demais arqueólogos. Mons. Kaas, administrador da Basílica, costumava ir à noite verificar os andamentos dos trabalhos. Acompanhava-o G. Segoni, o chefe dos “sampietrini” (operários do Vaticano, cujos ofícios passam de pai para filho).
Mons. Kaas, nessas inspeções, preocupava-se em guardar de modo digno as numerosas ossadas que iam sendo encontradas. Colocava-as numa caixa ajudado por Segoni, identificando com uma etiqueta o local de onde foram tiradas.
Uma noite, pouco depois de descoberta a parede oca dos grafitos, Mons. Kaas pediu que Segoni verificasse bem se não se encontrariam ossos dentro da cavidade.
Por baixo da poeira, Segoni encontrou numerosos ossos, restos de tecido e uns fios metálicos.Tudo foi guardado numa urna e identificado. Outro “sampietrini presenciou a remoção, mas os demais arqueólogos nem souberam disso na época.

Raio de sol bate no Altar da Confissão onde estão os ossos de São Pedro, basílica do Vaticano
Em 1950 foi divulgada a grande notícia: o túmulo de São Pedro fora descoberto. O próprio Papa Pio XII fez o anúncio, associando-o ao Ano Santo.
Mas explicava-se que, segundo o modo como os ossos foram encontrados, não se podia concluir se eles seriam ou não do Apóstolo.
Ao par do grande júbilo, houve muitos protestos dos meios científicos, que solicitavam, um exame rigoroso de todos os ossos, descobertos na pequena abertura em forma de Λ na parede do túmulo de São Pedro, por algum grande especialista.
Afinal em 1956, Pio XII concordou, e foi nomeado o dr. Venerando Correnti, um dos maiores antropólogos da Europa.
O trabalho foi lento e difícil, pois faltavam vários ossos importantes. A conclusão, em 1960, constituiu uma sensacional decepção: tratava-se de ossos de três pessoas – dois homens de meia idade e uma mulher idosa.
E junto, encontravam-se vários ossos de animais. Todos antiquíssimos, talvez do século I.
Para os arqueólogos, a situação se explicava: como as leis romanas proibiam a remoção de ossos de uma sepultura, esses haviam sido encontrados e amontoados no pequeno buraco ao pé do nicho.

Raio de luz natural ilumina a urna com os ossos de São Pedro, Vaticano
Apenas para completar os estudos, o dr. Correnti verificou rapidamente os demais ossos das tumbas próximas.
Ao analisar os ossos encontrados na cavidade revestida de mármore, da parede dos grafitos, chamou-lhe a atenção o estado de conservação, estando a maioria bem branca.
Dada sua grande antiguidade decidiu estudá-los melhor. Eram 135 ossos sendo que poucos estavam inteiros. Constatou que provinham de um só indivíduo, do sexo masculino, de físico robusto e falecido entre os 60 e 70 anos.
Antes de estar na cavidade marmórea eles estiveram enterrados na terra nua, mas depois, durante muito tempo, permaneceram bem protegidos e envoltos por tecidos purpúreos, que mancharam um pouco alguns.
Ao tomar conhecimento dessas conclusões, a dra. Guarducci ficou sobressaltada. Ela revelou que a expressão grega “Πέτροσ ἔνι” ecoava continuamente em sua cabeça.
Seriam essas as relíquias de São Pedro?
Não é a única explicação possível para o “Pedro está aqui”? E para a misteriosa cavidade?
Todos os dados confluíam para essa teoria. A razão do esconderijo seria evitar profanações.
O dr. Correnti logo apoiou a tese da dra. Guarducci, e ambos obtiveram de Paulo VI, que havia sido eleito recentemente, permissão para reabrir as pesquisas.
O teste crucial foi o dos fragmentos de terra existentes nos ossos. Sua composição química revelaria se era a mesma terra que se encontra no piso do túmulo vazio de São Pedro.
Uma circunstância tornava esse teste particularmente importante: a terra do túmulo é de tipo calcária argilosa, bem diferente da que se observa em toda a região vizinha, inclusive dos túmulos próximos.
O nome de São Pedro inscrito numa pedra recuperada nas excavações
Conclusão do exame: a terra é a mesma do túmulo de São Pedro.
O tecido purpúreo foi examinado. Seria púrpura autêntica? E seria romana?
Só os membros da alta nobreza romana podiam usar a púrpura verdadeira, cuja fabricação era um rigoroso segredo de Estado. Os demais ricos usavam, uma imitação.
Hoje a composição química de ambos os tipos é conhecida. Outra particularidade: a púrpura com fios de ouro era de uso exclusivo da família imperial em raras ocasiões.
Resultado do exame: era púrpura romana verdadeira, decorada com finíssimas placas de ouro. E os fios que estavam junto aos ossos eram fios de ouro.
Este foi um argumento essencial a favor da teoria da dra. Guarducci, pois como a cavidade marmórea foi considerada como já existente na época constantiniana, ficava claro que o Imperador autorizara envolver as preciosas relíquias na púrpura imperial.
Antes de publicar novos estudos, cinco renomados especialistas independentes verificaram tudo o que havia sido feito e deram-se por satisfeitos.
Mas, quando foi dada a público a nova teoria, levantou-se um grande vozerio em certos meios científicos.
Este era explicável, pois, para preservar o bom nome dos arqueólogos e de Mons. Kaas, a dra. Guarducci procurou cobrir com um manto o incrível episódio do eclesiástico ao recolher os ossos sem avisar aos membros da equipe.
Também impugnou-se o exame do tecido, exigindo-se algo mais rigoroso. E, sobretudo, argumentava-se que não havia nenhuma prova que demonstrasse não ter sido violado o repositório marmóreo.

Vista da cripta com os ossos de São Pedro numa urna
Assim nova série de pesquisas foi iniciada. O exame mais rigoroso dos tecidos feito na Universidade de Roma, confirmou os resultados anteriores.
E Paulo VI autorizou a se abrir o repositório, para confirmar se ele datava da época de Constantino e se não fora violado. A dúvida surgiu porque fora encontrada uma moeda do início da Idade Média no local.
Uma equipe desmontou a parte de baixo da parede azul dos grafitos, a fim de penetrar no repositório sem tocar nas paredes e no teto.
Tudo foi examinado minuciosamente, e a conclusão foi que ele fora fechado no século IV, e jamais fora aberto.
Várias moedas foram ali encontradas, tendo penetrado através de fissuras da parede causadas por acomodação do terreno.
Para silenciar definitivamente as críticas novo trabalho foi publicado, relatando as circunstâncias exatas do episódio de Mons. Kaas, acompanhado de documento juramentado do “sampietrini” Segoni. 

Vista de conjunto do Altar da Confissão
E a dra. Guarducci rebateu convincentemente a última crítica que ainda pairava: como explicar a remoção dos ossos da sepultura, mesmo por motivos de segurança, uma vez que os costumes romanos não o permitiam?
Na realidade os ossos não foram removidos da sepultura, pois a parede azul é parte integrante dela.
Após algum tempo, certificando-se de que a crítica nada mais de ponderável podia apresentar, e vendo que os novos exames reforçaram singularmente a teoria da dra. Guarducci, Paulo VI, a 26 de junho de 1968, anunciou solenemente ao mundo que, após longos e extensos estudos “as relíquias de São Pedro foram identificadas de um modo que julgamos convincente”.
E, por isso, ele fazia “este feliz anúncio” aos fiéis de todo o mundo.
No dia seguinte, em cerimônia presidida por Paulo VI, as relíquias de São Pedro, guardadas em caixas com tampos transparentes, foram recolocadas no repositório onde haviam sido encontradas.
Confirmando a tradição católica, sobre as relíquias de São Pedro fora edificada a grande Basílica de Constantino, considerada o centro da Cristandade.
E sobre tal Basílica, mil anos depois, ergueu-se a atual Basílica de São Pedro.
Cumpriu-se assim, até de modo físico, a promessa de Nosso Senhor Jesus Cristo a São Pedro: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”.
(autor: Juan Miguel Montes, “Catolicismo”)

Patena eucarística com Cristo em Majestade, uma das mais antigas já achadas



A patena nas mãos de um restaurador.
A patena eucarística com Cristo em Majestade nas mãos de um restaurador.


Na localidade espanhola de Cástulo, província de Jaén, uma equipe de arqueólogos engajados no Projeto de Investigação Forvm MMX desenterraram e os, depois, especialistas em restauração recuperaram uma peça única do século IV que representa a Nosso Senhor Jesus Cristo em uma patena de fino vidro.

Trata-se de uma das mais antigas imagens do Cristianismo representando o Divino Redentor.

Cástulo é um dos mais ricos sítios arqueológicos da Espanha. Foi uma cidade romana hoje reduzida a ruínas, mas que apresenta uma surpreendente preservação. Nela foram feitas descobertas notáveis, como pisos de mosaicos complexos que podem ser admirados no local.

Um dos edifícios descobertos parecia ter servido de igreja católica e testemunha quão cedo o catolicismo penetrou na Península Ibérica.

No local, durante três anos, os arqueólogos foram retirando pacientemente pequenos fragmentos de vidro das ruínas de uma basílica.

Mas foi só no mês de julho que localizaram fragmentos que “por seu tamanho e pelos desenhos que continham” revelaram “um documento arqueológico excepcional”, segundo explicou à agência AFP o chefe do projeto, Marcelo Castro.

 Limpados com extremo cuidado e depois colados, os fragmentos mostraram constituir uma patena, o prato precioso que era colocado sob o queixo do fiel para evitar que algum fragmento do Santíssimo Corpo de Nosso Senhor Eucarístico pudesse cair no chão.





A jazida arqueológica de Cástulo, local do achado
A jazida arqueológica de Cástulo, local do achado.

 As patenas de séculos mais recentes costumavam ser de ouro ou folheadas a ouro. Outras tinham delicadas gravações com simbolismos eucarísticos.

A riqueza desta humilde peça da cerimônia da Comunhão, na Missa ou fora dela, manifestava a fé de que Jesus está verdadeiramente presente, transubstanciado na hóstia consagrada.

 No caso de Cástulo, a patena é de delicado vidro verde, tem 22 cm de diâmetro por 4 cm de profundidade, 2 milímetros de espessura e pesa apenas 175 gramas. Ela pôde ser reconstituída em 81%.

Nela, distingue-se pintada a imagem de três personagens com auréolas. No centro, aparece em majestade um Cristo imberbe, de cabelo curto e encaracolado, segurando uma grande cruz em uma mão e um Livro Sagrado aberto na outra. Ao seu lado, dois apóstolos, que poderiam ser Pedro e Paulo.

Os primeiros cristãos tentaram sempre representar Nosso Senhor Jesus Cristo com os traços mais nobres e elevados que conseguiam imaginar.

E, na patena de Cástulo, Jesus é representado como os mais altos personagens do poderoso Império Romano. 

                         Cástulo: exemplo de piso romano de mosaico.
                      Cástulo: exemplo de piso romano de mosaico.




































A alta aristocracia das famílias patrícias romanas se barbeava regularmente – fato estranho nas classes inferiores –, usava cabelos curtos, tinha por natureza cabeleiras encaracoladas e se vestia com togas senatoriais, distintivas de sua muito alta posição social, como usa o Cristo da patena.

Representações análogas se encontram nas catacumbas de Roma.

Segundo Castro, o modelo artístico usado denomina-se “alexandrino” e é próprio de uma era remota do Cristianismo. Precisamente da época em que estava saindo da clandestinidade, após séculos de perseguições e um número incontável de martírios.

“Este modelo seria abandonado mais adiante na tradição cristã e se daria preferência a outras formas de representar a Cristo. Mas ele está presente nos primeiros momentos do Cristianismo”, explicou o chefe dos trabalhos.
As patenas feitas de vidro de maior qualidade, como a de Cástulo, provinham ao que tudo indica de Ostia, perto do Roma, onde ficavam os melhores ateliês de trabalhos em vidro. De bom valor, o vidro não tinha se generalizado como em séculos recentes.

Há no mundo poucas peças similares, como um cálice exibido no Museu do Louvre e um vidro dourado no Toledo Museum of Art de Ohio, nos EUA.

As gravuras chamam a atenção pelo seu maravilhoso estado de conservação após 1.600 anos em que a patena fragmentada ficou enterrada, observou o jornal “El Mundo” de Madri.

Quando os cientistas começaram a se fazer uma ideia sólida do inigualável tesouro histórico que tinham em mãos, eles tiveram medo, segundo disseram.



Patena eucarística recuperada em Cástulo, Espanha, com Cristo em Majestade e Apóstolos.
Patena eucarística recuperada em Cástulo, Espanha, com Cristo em Majestade e Apóstolos.
 






























Os arqueólogos estavam achando que o prédio estava “a meio caminho entre as catacumbas, as casas clandestinas de culto e as primeiras arquiteturas cristãs de Roma”.

Pois o Cristianismo foi uma religião clandestina, vítima das terríveis perseguições romanas dos séculos II e III.

Entretanto, em meio a tantas dificuldades, os cristãos de Cátulo nada poupavam para proteger a Santíssima Eucaristia de qualquer imprevisto.

Por causa das perseguições, a representação do Filho de Deus era feita com alegorias hoje bem conhecidas: por exemplo, o peixe, cujo acróstico em grego significa “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”.

Somente no século IV – após o glorioso edito de Milão do ano 313, do imperador Constantino, convertido miraculosamente ao Cristianismo – a religião católica foi autorizada e seu culto tornado oficial do Império.

A patena recuperada coincide com esse momento histórico. E então Jesus Cristo é representado em majestade, vencedor das perseguições, triunfante.

Os Santos Apóstolos Pedro e Paulo – ou mais provavelmente eles – são representados juntos com Jesus no mesmo estilo. Eles carregam um pergaminho – “o rotulus legis”, símbolo do Evangelho e da missão de pregar – e também usam togas, não têm barba e outras características que se afirmaram em séculos posteriores.

A cena tem como fundo o orbe celeste emoldurado entre palmeiras, que na iconografia católica representam a imortalidade e o Céu.

Também está representado o Alfa e o Ômega, o principio e o fim, símbolo da imortalidade, da realeza e da divindade majestosa de Cristo Rei. “Eu sou o Alfa e o Ômega – diz o Senhor Deus – Aquele que é e que era e há de vir, o Todo-poderoso” (Apocalipse 1, 8).



Reconstituição da imagem. Cristo em majestade no centro com a Cruz e os Evangelhos. São Pedro e São Paulo aos lados recebendo a missão de pregar.
Reconstituição da imagem. Cristo em majestade no centro com a Cruz e os Evangelhos.
São Pedro e São Paulo aos lados recebendo a missão de pregar.
Tertuliano, Padre da Igreja, falou de cálices e patenas decorados com a figura do Bom Pastor no século III. E no ‘Liber Pontificalis’, obra que compila as biografias dos primeiros Papas, se faz referência a patenas de vidro durante o papado de Ceferino, nos séculos II e III.

No século IV, uma disposição do Papa Urbano I ordenou que cálices e patenas só fossem de metais nobres como ouro e prata, além de pedras preciosas como ornamento.

É assim que na patena de vidro de Cástulo, observa o jornal “ABC”, de Madri, podemos adorar uma das mais antigas representações iconográficas de Nosso Senhor Jesus Cristo de que se tem notícia.

Emociona considerar a fé daqueles primeiros fieis católicos, que iam saindo das catacumbas e consagravam o melhor de seu pecúlio para honrar dignamente o cerimonial que rodeia a Eucaristia.

Quanta diferença com certas coisas que se veem e se ouvem hoje em dia!

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Arqueologia - As Catacumbas Cristãs de Roma

PAPA SÃO SISTO - SÉCULO I

Duas cidades têm o privilégio de exercer, sobretudo sobre um coração católico, um atrativo incomparável e de dar ao espírito grandes esclarecimentos quando suas investigações o levam rumo à teologia e à história: eu quero dizer Jerusalém e Roma. Elas são como os dois olhos brilhantes do mundo nos quais se reflete o céu; elas são dois santuários particularmente escolhidos sobre nossa terra e como os dois pólos do mundo histórico; elas são os pontos de apoio misteriosos onde a misericórdia divina depositou a alavanca que suspende o mundo e o fez sair da velha órbita da servidão para conduzi-lo em uma via nova, a via do céu. São as duas cidades da aliança, os dois palcos das maravilhas de Deus. Uma proclama a história da Redenção; a outra resume a história da Igreja. Elas são como a mãe e a filha, intimamente e inseparavelmente ligadas uma à outra. Sua fisionomia e sua história levam o selo indelével deste parentesco. A colina eternamente memorável de Jerusalém foi testemunha do sacrifício três vezes santo do Homem-Deus; consagrada pelo sangue divino, ela tornou-se o altar da salvação. As colinas de Roma viram o martírio de um milhão de membros ilustres do Cristo, e, pelas torrentes de sangue que as inundaram e consagraram, elas se tornaram como o altar-mor da Igreja universal. O corpo de Jesus Cristo foi, após o sacrifício supremo, sepultado em uma escavação rochosa no pé do Gólgota. Os corpos daqueles que deram a Deus o testemunho de seu sangue foram sepultados sob o solo da cidade das sete colinas, nas rochas cavernosas das Catacumbas. O corpo do Senhor repousou três dias na gruta silenciosa e ressuscitou após este período. A Igreja romana, corpo místico do Cristo, se confiou durante três séculos à discrição da necrópole subterrânea e se levantou em seguida para fazer ondular sobre o universo o estandarte triunfal da cruz. Enfim, após a ressurreição, cada uma dessas duas sepulturas permaneceu gloriosa e abençoada. Os selos miraculosamente quebrados do Santo Sepulcro, em Jerusalém, a caverna privada de seu tesouro e só contendendo o sudário dobrado, tornou-se o testamento eterno e o testemunho sempre invencível do grande mistério da Redenção. As Catacumbas reabertas de Roma, com seus tesouros de despojos santos e de relíquias preciosas, monumentos de todo tipo, são um testemunho irrefutável em favor da Igreja primitiva, um legado precioso para as gerações mais distantes. Elas são de algum modo os arquivos do cristianismo, o berço da história eclesiástica. Nas galerias e nos arcosolia, nas paredes e nas abóbadas, se desenrolam em cores vivas e frescas os símbolos da fé e do amor  tais como os representavam na Igreja apostólica. Após vários anos de estudos especiais, e encorajados pelo concurso benevolente do cavalheiro de Rossi, tão profundamente versado na arqueologia das Catacumbas, tentaremos introduzir e guiar o leitor na Roma subterrânea. Veremos que, se a Igreja tira desta mina tão fecunda o ouro das relíquias preciosas do qual ela decora os altares do mundo inteiro, a erudição católica não é menos exitosa ao extrair dai, felizmente, os diamantes dos quais ela aperfeiçoa e enriquece a ciência da fé.

           As Catacumbas em geral – Sua importância histórica

 batismo Infantil

Consideraremos, em uma primeira parte, certos dogmas cristãos que tem mais especialmente relação com a finalidade das Catacumbas, e, em uma segunda parte, outros pontos particulares da doutrina, que tiram desses monumentos uma confirmação radiante.  O que são as Catacumbas? Qual foi sua finalidade? Essas questões preliminares necessitam de uma resposta curta.  Transportai-vos, pelo pensamento, na cidade eterna, em Roma, nos dias de seu antigo esplendor, no segundo ou no terceiro século da era cristã. Ela é a dominadora orgulhosa do mundo, com seus duzentos milhões de cidadãos, quase todos pagãos. Do meio de seu céu azul, o sol atira sobre ela seus raios flamejantes e parece querer alourar esta multidão de templos, de pórticos, de colunatas, de palácios, de basílicas, de mausoléus, de termas, de teatros e jardins magníficos. Todos os tesouros da terra, todas as maravilhas da arte parecem se encontrarem nessa bacia gigantesca aonde vieram se derramar todos os despojos do mundo.  Contudo, esta superabundância de ouro e de mármore, esse luxo grandioso e arrebatador são apenas um verniz brilhante sobre uma imensa tumba. Ainda que mestra do mundo, a cidade é a escrava decaída, vergonhosa e desonrada da superstição e do vício. O inimigo do gênero humano se encarnou de algum modo nela e aí reina, como em uma cidadela inexpugnável, cercado tanto de vassalos quanto de estátuas dos deuses sobre os templos e os terraços dos palácios. Roma, centro do poder político que governa o universo, tornou-se o centro da depravação moral e de todos os vícios. Ela atraía para si as forças vitais de todos os territórios, os transformava em venenos e os reenviava assim transformados até as extremidades da terra. Se a humanidade tivesse sido condenada a perecer, o príncipe do mundo não poderia ter escolhido um quartel general mais favorável para sua obra de destruição. Se, ao contrário, ela tivesse de ser salva, seria aí também que a divina misericórdia deveria engajar a luta contra o mal. Ora, é precisamente aí que ela se abre. No território de Roma, sob as verdes pradarias do campo silencioso, trabalhavam misteriosamente, no fundo das alamedas subterrâneas, algumas centenas de braços cheios de atividade e de energia, cujo alvião formava, em um solo avermelhado, um imenso e inextricável labirinto de galerias. Eram os soldados do Cristo que, empreendendo o cerco da metrópole do paganismo, lhe faziam um cinto de catacumbas, como para apertá-la por um vasto sistema de fortalezas. É nesses campos trinchados que eles se exercitavam e se preparavam ao combate; é daí que eles partiam, animados por um santo entusiasmo, para as lutas do martírio. Uma vez a vitória obtida e a palma colhida, eles reconduziam como troféus, às Catacumbas, os corpos dos heróis cristãos. Depositavam com eles, na mesma sepultura, as insignes e os instrumentos do martírio, como eles tinham sepultado outrora os guerreiros com suas armas. Contudo, cada gota de seu sangue era a semente de um novo exército de soldados cristãos, até no dia em que o estandarte da cruz, plantado pelo imperador Constantino, ondulou sobre o Capitólio e que Roma tornou-se o centro vivo de um mundo renovado, o coração que derramou torrentes da fé e do amor de Deus em todas as veias da humanidade.
Plano das Catacumbas

Eucaristia - SÉCULO I

Oferecemos uma idéia da importância histórica das Catacumbas; tentamos descrevê-las. Os cemitérios subterrâneos de Roma, que receberam o nome de Catacumbas apenas a partir do século dezesseis, são exclusivamente de origem cristã. Sua extensão compreende uma zona de duas milhas em torno da cidade, e forma assim uma imensa, silenciosa e santa necrópole. Cavadas nas propriedades de algumas famílias patrícias que tinham abraçado a fé, elas gozavam, sobretudo durante os dois primeiros séculos, da proteção da lei romana, que declarava invioláveis os lugares religiosos. Para melhor designá-las, lhes davam os nomes de seus proprietários cristãos ou dos mártires ilustres que aí eram enterrados.

Loculus, Catacumba de São Calixto

Elas são no total de vinte e seis (26), correspondendo aos vinte e seis títulos ou paróquias de Roma; e, se acrescentarmos aí algumas catacumbas pequenas, posteriores a Constantino, chegaremos a um total de quarenta, que formam uma rede subterrânea de ruas sepulcrais. Constituídas regularmente e perpendicularmente em um terreno de formação plutônica, resistente, (…), essas ruas se cruzam infinitamente e formam, geralmente, séries de andares sobrepostos, que chegam algumas vezes até cinco. Nessas alamedas, conhecidas ordinariamente sob o nome de galerias, aplicaram, ao longo das paredes, desde o chão até o alto, cortes horizontais. São os nichos sepulcrais, os loculi, nos quais, semelhantes aos passageiros que se entregam ao sono embalados por balanços do navio, repousam os mortos cristãos, frequentemente até quatorze colocados uns sobre os outros, sem distinção de posição, idade nem de sexo. Cada polegar do nicho, cada metro quadrado da parede é usado com economia; mas cada um, criança ou adulto, tem sua tumba cavada na rocha, e onde ninguém tinha sido enterrado. As galerias, entre uma altura de sete a quinze pés, são tão estreitas, que freqüentemente uma pessoa basta para ocupar a largura. Mas seu comprimento é tamanho que, se pudéssemos reuni-las todas juntas, extremo a extremo, teríamos perto de trezentas léguas de caminho a percorrer, e passaríamos ao lado de quatro a seis milhões tumbas.

Esse trabalho de escavação e de corte das galerias sepulcrais e das loculi, assim como dos cortes mais espaçosos das capelas, era confiado à uma corporação ou confraria de verdadeiros imitadores de Tobias, aos fossores, coveiros, que eram preparados para sua vocação por um tipo de ordenação ou de bênção eclesiástica.

As Catacumbas de Roma – Destinação e finalidade das Catacumbas

Cinco Santos - Igreja Primitiva
Esforcemo-nos, depois desta curta descrição, em descobrir para qual fim estas Catacumbas foram cavadas. Sua destinação original e primeira sai claramente do nome que elas levavam na antiguidade cristã. Elas eram chamadas cemitérios, coemeterium, ou seja, lugar de descanso, dormitório. Elas tinham então servido primitivamente de lugar de sepultura aos cristãos de Roma. Tão logo eles consideraram seus corpos como os membros do Cristo, como os templos do Espírito Santo e vasos de eleição, eles não quiseram nem queimá-los sobre uma fogueira, segundo o costume pagão então em vigor, nem expô-los para serem desonrados pelos infiéis. Ademais, como eles estavam destinados para resplandecer um dia cheios de magnificência e de luz na glória divina, eles os deitavam como uma semente no campo abençoado; ou ainda, segundo a palavra mais expressiva dos primeiros cristãos, eles os depositavam aí, como se deposita, para conservá-lo, um tesouro em lugar seguro. Estes não eram mortos, eram homens adormecidos: ademais, o lugar de sua sepultura se chamava um dormitório, onde eles descansam dos trabalhos da jornada, até que venha a aurora e que o som do trompete os desperte.



Maria e o Menino Jesus no Colo

Transportemo-nos um instante em um destes subterrâneos. Uma carroça atrelada a dois cavalos acaba de entrar sob a abóbada escura de uma pedreira de areia, de uma arenária abandonada. É a carroça dos mortos, auxiliar indispensável durante os dias tão difíceis da perseguição. Os fossores, revestidos com os hábitos de sua ordem, esperam o recém chegado com impaciência, e com uma mão trémula, descarregam o corpo. Este corpo não foi mergulhado no cal, para escondê-lo dos pagãos, como acontecia algumas vezes. Os fiéis, vigias dos mortos, o pegaram, completamente sangrento, no próprio lugar da execução, e se apressaram em levar seu espólio precioso ao tesouro da Igreja. Um coveiro, já branqueado pela idade, precede e ilumina os carregadores. Ele os conduz em um canto da arenária onde uma escada secreta abre-lhes o caminho da necrópole cristã. Aí, o bispo e os fiéis saúdam, por cantos solenes, o despojo do herói, e o cortejo fúnebre se coloca em marcha. Nestes corredores silenciosos, ressoa, suave como o canto dos bem-aventurados, a salmodia divina, e seus sons misteriosos repercutem através das galerias. As chamas carregadas pelos acólitos, se refletindo sobre estas muralhas avermelhadas pelo tufo litoide, formam milhares de estrelas que cintilam subitamente e se apagam imediatamente, enquanto que os sepulcros, cujas filas se prolongam indefinidamente de cada lado, formam com seus habitantes pacíficos uma cerca de honra para o novo concidadão que faz aí sua entrada. Os tijolos amarelados e as placas de mármore branco que fecham a entrada das tumbas, brilham sob os reflexos móveis da luz, como distintivos de ouro e de prata que seriam incrustados ou encaixados na púrpura. Eles parecem se movimentar! A luz os torna expressivos; ela  faz deles como emblemas transparentes, e mais de uma inscrição comovente, mais de um símbolo cheio de frescor e de delicadeza, executado sem arte pela mão inábil do coveiro, anuncia a paz do céu, a esperança inabalável, a confiança jovial, e parece ser, por assim dizer, uma resposta aos versículos salmodiados pelo coro que passa. Tudo, em torno destas placas de mármore, parece selar no morteiro, como guirlandas de honra, sinais expressivos da memória e da afeição imortais. Aqui, há uma moeda, ou uma concha, ou um camafeu que atinge o olhar; ali, é uma pedra cintilante ou um fragmento de cristal encaixado no ouro. Mais adiante, marcas de cera, representando a forma da planta do pé e cobertas de divisas cristãs, emolduram a fina tabuleta que cobre a tumba. Quando é um mártir que mora no loculus silencioso, a mais invejável das joias assinala aí sua presença: um frasco de vidro, de argila ou de ónix, contendo o sangue precioso do mártir, e na frente uma lâmpada acesa. O cortejo fúnebre já percorreu várias galerias. Assim que ele penetra em uma nova alameda, uma lâmpada, sentinela discreta que vigia sem ruído no fundo de seu nicho, parece saudá-lo. Logo esta lâmpada é decorada com um ornamento emblemático; logo ela toma a forma de uma pomba, de um peixe ou de um barco. Ela une alegremente sua luz fraca com o brilho das velas.

Nesse meio tempo chegamos ao espaço reservado ao defunto. Desta vez, não é uma simples abertura em uma destas longas ruas sepulcrais. Para honrar o mártir, os fossores lhe prepararam uma grande escavação, um arcosolium. Isso é um tipo de sarcófago esculpido no tufo e coroado por um nicho em abóbada rebaixada.


Eucaristia - Ultima Ceia

Os necróforos ou carregadores se detém e depositam no solo seu precioso fardo. Como aquele de Jesus, este corpo está embalsamado com aromas preciosos e envolvido em uma mortalha.

O serviço deposita em sua fronte vitoriosa uma coroa de louros, e o pontífice conclui a bênção. Piedosos lábios ainda cobrem de beijos o santo despojo; depois o introduzem na abertura preparada. Ao lado, colocam um pequeno vaso cheio do sangue que foi derramado em testemunho de Jesus Cristo, e uma urna de aromas, cujo odor suave, imagem do perfume da santidade, perfuma a tumba e a cripta. Mas logo a tumba torna-se a mesa eucarística; a pedra que fecha sua abertura serve de pedra de altar; sobre ela o bispo celebra o sacrifício da nova aliança, sacrifício ofertado à glória do Altíssimo, em honra do bem-aventurado que acaba de receber a coroa celeste.

Consagradas, sobretudo, para a sepultura dos cristãos, que são irmãos e irmãs em Jesus Cristo, as Catacumbas receberam ademais, pela força das coisas, outra destinação. Nos dias da perseguição, elas tornaram-se a morada temporária do Papa, do clero e de alguns leigos de distinção, particularmente designados pelo ódio dos tiranos. Elas foram também o lugar de reunião dos fiéis para a celebração do culto.

Esta última destinação tornou insuficientes as câmaras sepulcrais de algumas famílias e os arcosolia dos mártires. Eles fizeram então escavações em forma de capelas mais ricamente decoradas, com um arcosoliumou um altar livre situado sobre um sarcófago. Ao lado ou por trás encontrava-se a sé episcopal, e ao longo da parede um banco de pedra para o clero. A credência consistia em um nicho feito no tufo ou em suportes talhados em relevo. Ao coro, compartimento no qual ficavam os homens, correspondia, regularmente, do outro lado da galeria, a capela das mulheres, que tinha vista sobre o coro. Uma passagem, luminare, feita na parte superior e dando acima da separação, levava a cada uma das duas naves a luz e o ar constantemente renovado.

Algumas vezes encontramos um terceiro espaço, sem ornamentação de nenhum tipo. Ele estava em comunicação com o presbyterium por uma abertura destinada à transmissão das palavras: é aí que se reuniam os penitentes e os catecúmenos. Nestas criptas morou por um longo tempo toda uma série de papas desde São Pedro até São Marcelo e Santo Eusébio. O santo papa Caio, sobrinho do cruel Diocleciano, permaneceu aí oito anos inteiros. É aí que eles instruíam e batizavam os fiéis, que eles ordenavam os padres e estabeleciam a disciplina eclesiástica. É daí que eles governavam todo o rebanho do Cristo, daí que eles datavam suas bulas pontificais e exerciam seu encargo pastoral e apostólico. É daí que eles enviavam os fiéis, alimentados do pão dos fortes, para o campo de batalha do martírio, e saíam, enfim, eles também, quando se tratava de ir morrer por Jesus Cristo. A santidade inseparável das tumbas e o temor de se expor aos perigos nos labirintos desconhecidos davam a estes refúgios subterrâneos toda a segurança desejada contra os inimigos do nome cristão. Assinalamos, não obstante, circunstâncias excepcionais nas quais esta necrópole deixou de ser um asilo inviolável. Assim, Santo Emerenciano foi apedrejado em uma cripta, São Cândido precipitado por um luminare. Em outro momento, todo um bando de cristãos foi enterrado vivo perto da tumba dos santos mártires Crisanto e Daria. Assim ainda, em 261, o santo papa Sisto II, celebrando os santos mistérios nas Catacumbas, em presença de um grande número de fiéis, foi morto com quatro diáconos. Pouco tempo antes, outro papa tivera o mesmo destino. Era Santo Estevão I. Em virtude de uma ordem imperial, ele foi arrastado ao templo de Marte. Ele escapou por milagre das mãos de seus carrascos e se escondeu com seu clero nas Catacumbas de São Calisto. Por muito tempo ele deu ao seu rebanho, já considerável, todos os cuidados de um bom pastor. Uma tardinha – depois de um dia quente do mês de agosto – os fiéis foram convocados, como de costume, para uma assembléia santa. Aquele que, neste momento, estivesse caminhando na via Ápia, fora dos muros, teria podido ver, de tempo em outro, ou sozinhas ou em pequenos grupos, sombras caminhar rapidamente, resvalar-se e desaparecer atrás dos murros de uma vila solitária. Eram os cristãos que, para o ofício noturno, se apressavam em penetrar no cemitério de Lucina, ramificação das Catacumbas de Calisto. A senha dada, a porta se abria diante deles, e eles percorriam silenciosamente as alamedas subterrâneas fracamente iluminadas. Ei-los chegando. As mulheres, completamente cobertas de véu, se voltam para a esquerda, dando uma saudação silenciosa às viúvas consagradas a Deus. Os homens penetram na capela da direita, da qual um clérigo guarda a entrada. Os arcos e as muralhas estão ornados com pinturas simbólicas, nas quais a luz suave das lâmpadas empresta um charme todo particular. Tudo respira a piedade e o recolhimento. No fundo, sobre o túmulo de um mártir, se levanta um altar simples, onde o diácono prepara os vasos sagrados. Os fiéis que chegam depositam no nicho mural sua oferta de pão e de vinho e esperam em pé que a ação santa comece, enquanto que o clero se coloca no presbyterium. A cena se concentra, sobretudo, na pessoa venerável de Santo Estevão, sentado sobre uma sé de mármore. Seu olhar doce de pai repousa com amor sobre seu pequeno rebanho. Ele se levanta. De sua boca de profeta saem ondas carregadas de palavras de paz e de encorajamento, que penetram os corações dos fiéis e produzem uma emoção poderosa na assembléia. O pontífice sobe então ao altar, e, virado para o povo, ele começa os santos mistérios. Que luminosidade sobrenatural ilumina sua face quando ele eleva as mãos! Que chamas maravilhosas jorram de seus olhos quando ele contempla o Cordeiro de Deus estendido diante dele! É isso o antegozo da felicidade próxima do qual o pressentimento apanhava o nobre ancião?  Escutem… ouvimos um tinido de armas… a luz das tochas já são avistadas na galeria vizinha; uma tropa se aproxima;… são os temíveis servos de César. O respiradouro ou luminare lhes conduziu o som dos cânticos e lhes revelou, por isso, o asilo dos cristãos. Eles abrem violentamente uma passagem. Mas um poder sobre-humano parece cravá-los na soleira da cripta sagrada. O Papa termina o sacrifício, reza pelos perseguidores, e os soldados só saem de seu torpor miraculoso quando Estevão volta para seu trono. Eis então que a tropa se precipita sobre ele, a espada nua, e faz uma vítima gloriosa daquele que agora mesmo oferecia o sacrifício. Eis nossa estrada aplainada. Ela nos conduziu ao fim que nos propomos ao escrever estas páginas. As Catacumbas, pilhadas e devastadas durante a invasão dos bárbaros, mais tarde cobertas de terra em conseqüência de desabamentos, caíram completamente no esquecimento e foram uma região desconhecida até o tempo (1593) de Antonio Bosio, de Malte. Com este sábio, o Cristóvão Colombo da Roma subterrânea, começaram as escavações sérias, destinadas a  despertar o interesse que se liga naturalmente às Catacumbas, e que forneceram as bases da ciência da qual elas são objeto. Mas é para nosso século, e, sobretudo, no reinado glorioso de Pio IX, que estava reservada a glória de dar a estas pesquisas uma impulsão cujos resultados ultrapassam as esperanças mais ousadas. Pio IX, este outro Dâmaso, realizou, durante quase vinte anos, e ao preço dos mais nobres sacrifícios, escavações que permitiram ao ilustre de Rossi publicar, em obras doravante clássicas, uma profusão de descobertas extremamente interessantes e de construir o edifício científico mais completo com a ajuda dos materiais conquistados. É somente após a conclusão destas obras que veremos dele o prêmio imenso para todos os ramos da ciência cristã. Esperamos, não obstante, pela análise dos resultados já adquiridos, poder contribuir, de nossa débil parte, com a apologética do catolicismo.


As Catacumbas de Roma – O Culto dos Santos

Cristo, Pedro e Paulo

Os monumentos que possibilitarão que façamos uma idéia exata da Igreja primitiva são os monumentos fúnebres.

Esta circunstância vai determinar a direção de nossas pesquisas. Estas pesquisas estarão naturalmente circunscritas pelo dogma que tem maior relação com a destinação das Catacumbas, a saber, a comunhão dos santos, ou seja, a Igreja triunfante, a Igreja padecente e a Igreja militante.

As almas dos mortos que morreram na graça divina estão, segundo o ensino da Igreja católica, juntas de Deus; sua morada foi estabelecida na paz do céu; elas gozam da glória e da felicidade eternas. Os túmulos das Catacumbas nos oferecem os mesmos ensinos? Iremos interrogá-los, restaurar as inscrições sepulcrais e a iconografia dos três primeiros séculos, que poderá vir em nosso socorro. Como o nosso espaço é curto, faremos apenas as citações que se justificam por sua importância dogmática.

Percorramos então os seguintes epitáfios:

“Prima, você vive na glória de Deus e na paz de N.S.J.C. VIVIS IN GLORIA DEI ET IN PACE”.
“Cheio de graça e de inocência, Severiano repousa aqui no sono da paz; sua alma foi recebida na luz do Senhor. IN LVCE DOMINI SVSCEPTVS”.

“À merecedora Saxonia: ela repousa em paz na casa eterna de Deus”.
“Lourenço nasceu para a eternidade com a idade de vinte anos; ele descansa em paz. NATVS EST IN ETERNVM”.
“Ursina – Agape – Alogia – Felicíssima – Fortunada, etc.., vivem na paz – em Deus – sempre – eternamente”.
“Hermaniscus, minha luz, vives em nosso Deus e Senhor J.C.”.
“Marciano, neófito, os céus estão abertos para ti, tu viverás na paz. CELI. TIBI. PATENT. BIBES. IN. PACE”.
Enfim:

“Alexandre não morreu; mas ele vive além dos astros; após uma brevíssima vida, ele brilha no céu. IN COELO CORVSCAT”.
Assim, aqueles que dormiram na paz de Deus, os justos repatriados, vivem eternamente. Eles foram admitidos na plenitude da luz de Deus, na casa do Senhor, na glória do Cristo. Eles nasceram para a eternidade; os céus se abriram diante deles; eles brilham aí com uma luminosidade parecida àquela dos astros. Eis a melodia ao mesmo tempo doce e forte que escapa, com um perfeito acordo, do meio dos túmulos subterrâneos, e que traz a consolação nos corações daqueles que esperam ainda o fim de seu exílio. Que protestação solene não há nesta alegre e triunfante harmonia, nesta santa confiança da Igreja apostólica, contra estas opiniões lamentáveis e pretensamente primitivas do século XVII, que não querem saber de nada da Igreja triunfante, que só admitem a entrada no céu para Jesus Cristo, e que declaram que é temerário examinar se as almas dos justos estão na felicidade; que condenam mesmo os mortos a uma espécie de dormição invencível da inteligência e da vontade, a um exílio de vários milhares de anos no vestíbulo do céu, onde eles esperam até o julgamento último a felicidade prometida!

A fé católica não se limita a esta doutrina consoladora que abre o céu às almas dos justos. Ela admite também entre o mundo terreno e o outro mundo, entre a Igreja militante e a Igreja triunfante, uma troca de relações. Todos os homens resgatados são membros de um único corpo em Jesus Cristo, formam uma sociedade, uma família imensa, unida pelo laço da caridade. Esta união espiritual ocorre por meio da oração. Os bem-aventurados nos prestam o socorro de sua intercessão e de sua assistência; do nosso lado, nós lhes pedimos este socorro na veneração e na afeição.

Festa do Ágape

Tal é a doutrina da Comunhão dos santos. Examinemos se ela se revela nas Catacumbas. Aqui, o olhar encontra, sobretudo, acima dos arcosolia, um grande número de imagens de mártires ou de fiéis mortos. Elas estão freqüentemente cercadas de símbolos do paraíso, flores, aves, palmas, e sempre na atitude da oração. Estes braços elevados, esta relação cheia de fervor diz em demasia que, lá no alto, os eleitos não são simples espectadores que se contentam em gozar, mas fiéis associados de seus irmãos ainda em luta sobre a terra.

E esta fé, que expressão poderosa não encontra nas inscrições!

“Sutius, reze por nós, afim que sejamos salvos. PETE PRO NOS (sic) VT SALVI SIMVS”.
“Augenda, vive no Senhor e intercede por nós. EPΩTA”.
“Anatolius, ore por nós. EYXOY”.
“Filho, que teu espírito descanse em Deus; interceda por tua irmã. PETAS”.
“Matronata Matrona, ore por teus pais Ela viveu um ano e cinquenta e dois dias. PETE”.
“Atticus, teu espírito vive no Bem: implore por teus pais”.
“Joviano, viva em Deus e seja nosso intercessor”.
“Sabatius, doce coração, ore e implore por teus irmãos e teus companheiros. PETE ET ROGA”.
“Aqui descansa Ancilladei. Ore pelo único filho que te sobreviveu, porque tua morada está na paz e na felicidade eternas”.
“À minha digníssima filha adotiva Felicidade, que viveu trinta e seis anos”. “Dignai-se em orar por teu esposo Celsiniano”.
“Gentiano, o fiel, em paz. Ele viveu 21 anos… em tuas orações interceda por nós, porque sabemos que está em J.C.”.
Enfim, para concluir a série dos exemplos que citamos:
“À nossa dulcíssima e trabalhadora mãe Catianilla: que ela reze por nós EYXOITO”.
É assim que os olhos e o coração dos sobreviventes atravessam o sepulcro e penetram até ao céu. É assim que o olhar e o amor procuram e encontram os eleitos, os assaltam com orações ferventes, lhes fazem participantes de suas penas com uma confiança infantil e lhes fazem piedosas recomendações. Não está aí a verdadeiro espírito católico na plenitude da caridade e na infalibilidade da certeza?

Mas, dirão alguns, estas invocações piedosas, estas orações dirigidas aos santos, não são, talvez, apenas homenagens privadas, que não supõem nem determinam um culto público, oficial, litúrgico?

A isto responderemos: A partir do momento em que se trata de uma prática litúrgica, relativa ao culto dos santos, trata-se de um princípio católico que não é legado ao arbítrio individual; não obstante, não faltam monumentos que testemunham as homenagens dadas pela Igreja aos bem-aventurados. Há nas Catacumbas dois tipos de inscrições que tem feição com o culto, ambas caracterizadas liturgicamente pela expressão ainda em uso: Em nome de… IN NOMINE.

Elas compreendem: 1º votos suplicativos em nome de Deus, do Cristo ou de Deus Cristo. Por exemplo:

“Zózimo, vive em nome do Cristo”.
“À Selia Victorina, que descansa na paz em nome do Cristo”.
Nestes casos, a invocação se dirige diretamente a Deus, único adorável, único onipotente, único dispensador das graças. Mas há também em segundo outras invocações em nome de um santo; e então a oração se dirige indiretamente a Deus, diretamente ao poder de intercessão do santo. Um túmulo, entre outros, fala assim:

“Rufa, viverá na paz do Cristo, em nome de São Pedro”.
Ou seja, por meio de sua intercessão. Sobre um cálice descoberto nas Catacumbas, se lê esta inscrição em letras douradas: “Vito, vive em nome de Lourenço”; em outro, no mesmo sentido, se lê: “Eliano, vive em Jesus Cristo e São Lourenço”, ou seja, vive na graça de Jesus Cristo, pela intercessão de São Lourenço.

O culto público dado aos santos está doravante provado pelo fato incontestável que davam aos mártires mais ilustres, por um tipo de canonização, títulos honoríficos em uso na Igreja, por exemplo: “Senhor, Poderoso intercessor diante do trono de Deus, DOMINVS, DOMNVS ou simplesmente D.”

A partir do século III já se observa o título de Santo (dominus), Sanctus. É assim que encontramos saudações no gênero destas aqui: “Senhor Pedro, Paulo, Estevão, Sisto, etc.; Senhora, Domina Basila”, etc.. Mais tarde lemos: “Ao santo mártir Máximo”; “Ao Pai onipotente, ao seu Cristo e aos santos mártires Taurinus e Herculanus, eternas ações de graças da parte de Nevius, Diaristus e Constantino”.

Não pretendemos acumular as provas epigráficas, mas buscar a luz ainda em outras partes, nas pinturas e nas imagens.

Cenas Bíblicas:

Mulher com Fluxo de Sangue

Sacrifício de Isaac

Profeta Jonas

Os Três homens da Fornalha


Ressurreição de Lázaro


Suzana Entre os Dois Anciôes


Fonte: Dom Maurus Wolter. Les Catacombes de Rome et la doctrine catholique. Paris, G. Téqui, 1872.

Tradução: Robson Carvalho