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domingo, 4 de fevereiro de 2018

DECRETO GELASIANO



Muito se discute sobre a autoria do presente documento: para alguns, seria documento original do papa Dâmaso [366-384], oriundo do Concílio Regional de Roma de 371, já que seu conteúdo se identifica perfeitamente com os dados existentes sobre seu temperamento, pensamento e relacionamento interno e externo; para outros, teria sido redigido pelo papa Gelásio [492-496], em razão da nota acrescentada no início do cap. III, existente em uma recensão mais breve; para outros, ainda, seria obra de algum clérigo, muito provavelmente do início do séc. VI, que teria se servido de outro documento de base, este sim, da lavra de Dâmaso, que conteria o fundamento para os 3 primeiros capítulos.
Seja como for, de particular importância para nós é o capítulo II, que traz a lista completa dos livros que integram o Antigo e Novo Testamento. Repare-se que os livros deuterocanônicos (chamados de "apócrifos" pelos protestantes e, por este motivo, excluídos de suas Bíblia) encontram-se integrados ao cânon sagrado, fazendo eco, talvez (caso considere-se este decreto posterior ao papa Dâmaso), às decisões tomadas pelos concílios regionais de Cartago e Hipona.
De importância secundária é a aprovação da literatura de certos padres comprometidos com a ortodoxia (o que suportará a Sagrada Tradição) e a condenação dos escritos de hereges e cismáticos, cujas opiniões de muitos deles são revividas ainda nos dias de hoje (ex.: arianismo, nestorianismo etc.), com a expansão de inumeráveis seitas cristãs e não-cristãs.
I. [RELAÇÕES DA SANTÍSSIMA TRINDADE]
Foi dito:
1. Primeiramente, deve-se discutir os sete dons do Espírito se encontram em Cristo:
  • O espírito da sabedoria: "Cristo, o poder e a sabedoria de Deus".
  • O espírito do entendimento: "Darei a vós o entendimento e vos mostrarei o caminho que devem seguir".
  • O espírito do conselho: "E seu nome é chamado 'mensageiro do valioso conselho'".
  • O espírito das virtudes: conforme acima, "o poder de Deus e a sabedoria de Deus".
  • O espírito do conhecimento: "Em razão da eminência do conhecimento do apóstolo de Cristo Jesus".
  • O espírito da verdade: "Eu sou o caminho, a vida e a verdade".
  • O espírito do temor de Deus: "O temor a Deus é o princípio da sabedoria".
2. Entretanto, a revelação de Cristo é denominada de diversas maneiras:
  • Deus, que é espírito;
  • O Verbo, que é Deus;
  • O Filho, que é o unigênito do Pai;
  • O homem, nascido da Virgem;
  • O sacerdote, que ofereceu a si mesmo como sacrifício;
  • O pastor, que é o guarda;
  • [O alimento do] verme, que ressurgiu dos mortos;
  • A montanha, que é forte;
  • O caminho, que é reto;
  • O refúgio, único que pode conduzir à vida;
  • O cordeiro, que foi imolado;
  • A pedra, que é angular;
  • O mestre, que traz a vida;
  • O sol, que dá a luz;
  • A verdade, que provém do Pai;
  • A vida, da qual é o Criador;
  • O pão, cujo valor é inestimável;
  • O samaritano, o qual é protetor e misericordioso;
  • O Cristo, o Ungido [de Deus];
  • Jesus, o Salvador;
  • Deus, provindo de Deus;
  • O mensageiro, que foi enviado;
  • O noivo, que é o mediador;
  • O vinho, cujo próprio sangue nos redimiu;
  • O leão, que é rei;
  • A rocha, que é o fundamento;
  • A flor, que foi escolhida;
  • O profeta, que revelou o futuro.
3. Quanto ao Espírito Santo, não proveio apenas do Pai ou apenas do Filho, mas do Pai e do Filho; por isso está escrito: "Ele deleitou-se no mundo, o Espírito do Pai não está nele"; e novamente: "Entretanto, todo aquele que não possui o Espírito de Cristo, não lhe pertence". Assim, compreende-se que o Espírito Santo seja referido como provindo do Pai e do Filho, sendo que o próprio Filho, no Evangelho, diz que o Espírito Santo "procede do Pai" e "por Mim Ele é aceito e anunciado a vós".
II. [CÂNON DA SAGRADA ESCRITURA]
Também foi dito:
Agora verdadeiramente devemos discutir sobre as Divinas Escrituras, quais são aceitas pela Igreja Católica no universo e quais devem ser rejeitadas.
1. Esta é a ordem do Antigo Testamento: Gênese, 1 livro; Êxodo, 1 livro; Levítico, 1 livro; Números, 1 livro; Deuteronômio, 1 livro; Josué, 1 livro; Juízes, 1 livro; Rute, 1 livro; Reis, 4 livros; Crônicas, 2 livros; 150 Salmos, 1 livro; 3 livros de Salomão: Provérbios, 1 livro; Eclesiastes, 1 livro; Cântico dos Cânticos, 1 livro; Outros: Sabedoria, 1 livro; Eclesiástico, 1 livro.
2. Semelhantemente, esta é a ordem dos profetas: Isaías, 1 livro; Jeremias, 1 livro, contendo o Cinoth, isto é, suas lamentações; Ezequiel, 1 livro; Daniel, 1 livro; Oséias, 1 livro; Amós, 1 livro; Miquéias, 1 livro; Joel, 1 livro; Obadias, 1 livro; Jonas, 1 livro; Nahum, 1 livro; Habacuc, 1 livro; Sofonias, 1 livro; Ageu, 1 livro; Zacarias, 1 livro; Malaquias, 1 livro.
3. Semelhantemente, esta é a ordem dos [livros] históricos: Jó, 1 livro; Tobias, 1 livro; Esdras, 2 livros; Ester, 1 livro; Judite, 1 livro; Macabeus, 2 livros.
4. Semelhantemente, esta é a ordem das Escrituras do Novo Testamento, sustentadas e veneradas pela santa e católica Igreja romana: 4 livros dos Evangelhos: segundo Mateus, 1 livro; segundo Marcos, 1 livro; segundo Lucas, 1 livro; segundo João, 1 livro; também os Atos dos Apóstolos, 1 livro; as epístolas do apóstolo Paulo, em número de 14: aos Romanos, 1 epístola; aos Coríntios, 2 epístolas; aos Efésios, 1 epístola; aos Tessalonicenses, 2 epístolas; aos Gálatas, 1 epístola; aos Filipenses, 1 epístola; aos Colossenses, 1 epístola; a Timóteo, 2 epístolas; a Tito, 1 epístola; a Filemon, 1 epístola; aos Hebreus, 1 epístola; também o Apocalipse de João, 1 livro; também as epístolas canônicas, em número de 7: do apóstolo Pedro, 2 epístolas; do apóstolo Tiago, 1 epístola; do apóstolo João, 1 epístola; do outro João, o ancião, 2 epístolas; do apóstolos Judas, o zelota, 1 epístola. Aqui se encerra o cânon do Novo Testamento.
III. [PRIMAZIA DA SANTA IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA ROMANA]
Também foi dito:
(Alguns manuscritos, de recensão mais breve, começam este ponto com o seguinte cabeçalho: "Aqui inicia o decreto 'sobre os livros que devem ou não devem ser recebidos', redigido pelo papa Gelásio e 70 dos mais eruditos bispos, reunidos em concílio apostólico na cidade de Roma")
1. Após termos discutido sobre os Escritos dos profetas e as Escrituras evangélicas e apostólicas acima, sobre os quais a Igreja Católica está fundada pela graça de Deus, também achamos necessário dizer, embora a Igreja Católica universalmente esteja difundida sobre todo o mundo, sendo a única noiva de Cristo, que à Santa Igreja romana é dado o primeiro lugar sobre as demais igrejas, não por decisão sinodal, mas sim pela voz do Senhor, nosso Salvador, pois no Evangelho obteve a primazia: "Tu és Pedro" - Ele disse - "e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela; e te darei as chaves do Reino dos Céus e tudo o que ligardes sobre a Terra será também ligado no Céu, e tudo o que desligardes sobre a Terra será também desligado no Céu".
2. Acrescente-se também a presença do bem-aventurado apóstolo Paulo, "o vaso escolhido", que não em oposição - como afirmam as heresias dos tolos - mas na mesma data e no mesmo dia, foi coroado com a morte gloriosa juntamente com Pedro, na cidade de Roma, padecendo sob Nero César; e igualmente eles fizeram a supra mencionada Santa Igreja romana especial para Cristo, o Senhor, e deram preferência de suas presenças e triunfos dignos de veneração perante todas as demais cidades existentes sobre a Terra.
3. Portanto, primeira é a cátedra da Igreja romana, do apóstolo Pedro, por não haver qualquer mancha, ruga ou qualquer outro [defeito]. Porém, o segundo lugar foi concedido, em nome do bem-aventurado Pedro, a Marcos, seu discípulo e autor do Evangelho, para Alexandria. Ele mesmo escreveu a Palavra da Verdade, no Egito, conforme [ouvira do] apóstolo Pedro; lá foi gloriosamente consumada [sua vida] no martírio. O terceiro lugar é guardado por Antioquia, do bem-aventurado e venerável apóstolo Pedro, que ali viveu antes de vir à Roma e onde pela primeira vez foi ouvido o nome da nova raça: "cristãos".
IV. [ESCRITOS E AUTORES ECLESIÁSTICOS QUE PODEM SER LIDOS]
E embora "nenhum outro fundamento possa ser estabelecido exceto aquele que já o foi, Cristo Jesus", também para a edificação da Santa Igreja romana, logo após os livros do Antigo e do Novo Testamentos, que acima enumeramos, estão também de acordo com o cânon, não sendo proibida a aceitação dos seguintes escritos:
1. Do Santo Sínodo de Nicéia, onde 318 bispos presididos pelo imperador Constantino Magno condenaram o herege Ário; do Santo Sínodo de Constantinopla, presidido por Teodósio de Augusto, no qual o herege Macedônio livrou-se de merecer a condenação; do Santo Sínodo de Éfeso, no qual Nestório foi condenado, com o consentimento do bem-aventurado papa Celestino, presidido por Cirilo de Alexandria sobre a cátedra do magistrado e por Arcádio, bispo enviado da Itália; do Santo Sínodo da Calcedônia, presidido por Marciano Augusto e por Anatólio, bispo de Constantinopla, no qual as heresias nestorianas e eutiquianas, juntamente com Dióscoro e seus simpatizantes, foram todos condenados.
2. Mas se houve, também, a convocação de concílios de menor autoridade (que estes quatro) pelos santos padres, decretamos que estes devem ser mantidos e recebidos. Abaixo, acrescentamos as obras dos santos padres que são recebidas pela Igreja Católica: as obras do bem-aventurado Cecílio Cipriano, mártir e bispo de Cartago; as obras do bem-aventurado Gregório Nanzianzeno, bispo; as obras do bem-aventurado Basílio, bispo da Capadócia; as obras do bem-aventurado João, bispo de Constantinopla; as obras do bem-aventurado Teófilo, bispo de Alexandria; as obras do bem-aventurado Cirilo, bispo de Alexandria; as obras do bem-aventurado bispo Hilário Pictaviense; as obras do bem-aventurado Ambrósio, bispo de Milão; as obras do bem-aventurado Agostinho, bispo de Hipona; as obras do bem-aventurado Jerônimo, sacerdore; as obras do bem-aventurado Próspero, homem extremamente religioso.
3. Também a carta do bem-aventurado papa Leão destinada a Flaviano, bispo de Constantinopla, onde, se houver alguma parte do texto disputada, não sendo aquela que foi recebida desde a antiguidade por todos, seja anátema; também as obras e cada um dos tratados dos padres ortodoxos, desde que não se desviem em nada do [ensinamento] comum da Santa Igreja romana, e que não tenham nunca se separado da fé ou adoração, mantendo-se em comunhão pela graça de Deus até o último dia de suas vidas, decretamos que sejam lidos; também os decretos e cartas oficiais que os bem-aventurados papas, a partir de Roma, enviaram em consideração aos mais diversos padres, em várias épocas, devem ser sustentados com admiração.
4. Também os atos dos santos mártires, que receberam a glória a partir de suas múltiplas torturas e seus maravilhosos triunfos de estabilidade. Qual católico duvidaria que a maioria deles sofreria ainda mais agonias com todas as suas forças, tudo pela graça de Deus e auxílio dos demais? Entretanto, conforme o velho costume da precaução, eles não devem ser lidos na Santa Igreja romana, já que os nomes de seus autores não são apropriadamente conhecidos, não sendo possível separá-los dos não-crentes e imbecis, ou porque o que declaram está abaixo da ordem dos eventos que ocorreram; por exemplo: os [atos dos] Ciricianos e Julitanos, bem como os dos Georgianos, e os sofrimentos de outros como estes, que parecem ter sido compostos por hereges. Em razão disto, como foi dito, para não darmos pretexto para uma zombaria casual, não os lemos na Santa Igreja romana. Porém, veneramos, juntos com a supramencionada Igreja, todos os mártires e seus gloriosos sofrimentos, que são bem conhecidos de Deus e dos homens, com toda devoção. Também as vidas dos padres Paulo, Antonio e Hilarião, bem como todos os eremitas descritos pelo homem bem-aventurado que é Jerônimo, recebemos com honra. Também os atos do bem-aventurado bispo Silvestre, de cátedra apostólica, é permitido, ainda que o nome de quem os escreveu seja desconhecido, já que sabemos que é lido por muitos católicos na cidade de Roma e também pelo antigo uso das gerações que é imitado pela Igreja. Também os escritos sobre a descoberta da cruz e certas outras novelas que contam sobre a descoberta da cabeça do bem-aventurado João Batista, por serem romances, alguns dos quais lidos pelos católicos; entretanto, quando chegam às mãos dos católicos, devem [considerar] primeiro os dizeres do bem-aventurado apóstolo Paulo: "Provai todas as coisas, retendo o que for bom". Também Rufino, homem extremamente religioso, escreveu diversas obras sobre os atos eclesiásticos, e algumas interpretando as Escrituras; contudo, a partir do momento em que o venerável Jerônimo mostrou que ele fez uso de certas liberdades arbitrárias em alguns desses livros, acreditamos que os [livros] que são aceitáveis são aqueles que o bem-aventurado Jerônimo, supra citado, considera como aceitáveis; e não apenas aqueles de Rufino, mas também aqueles de qualquer homem que for lembrado por seu zêlo por Deus e pela religião da fé. Também algumas obras de Orígenes que o bem-aventurado homem Jerônimo não rejeita, nós recebemos para leitura; mas dizemos que o resto de sua autoria deve ser rejeitado. Também a crônica de Eusébio de Cesaréia e os livros de sua história da Igreja - embora haja muita coisa duvidosa no primeiro livro de sua narração e, mais tarde, tenha escrito um livro louvando e desculpando o cismático Orígenes - sobre as suas narrações de feitos memoráveis, que são úteis para a instrução, não dizemos a ninguém que devam ser rejeitadas. Também louvamos Orósio, homem extremamente erudito, que nos escreveu uma bem necessária história contra as calúnias dos pagãos e sua "brevidade maravilhosa". Também a obra pascal escrita pelo venerável homem Sedúlio, redigida em versos complexos, merece significante louvor. Também a incrível e trabalhosa obra de Juvêncio, nós não a rejeitamos, por estarmos impressionados.
V. [LISTA DE LIVROS E AUTORES REJEITADOS (APÓCRIFOS)]
Os demais escritos que foram compilados ou reconhecidos pelos hereges ou cismáticos, a Igreja Católica, Apostólica e Romana não recebe de forma alguma; destes, achamos correto citar abaixo alguns que passaram de geração a geração e que são rejeitados pelos católicos:
1. Lista de livros apócrifos: primeiro, o sínodo de Sirmium, convocado por Constâncio César, filho de Constantino, e moderado pelo prefeito Tauro, que foi, é e sempre será condenado. A viagem em nome do apóstolo Pedro, que é chamado de nono livro de São Clemente: apócrifo. Os atos em nome do apóstolo André: apócrifo. Os atos em nome do apóstolo Tomé: apócrifo. Os atos em nome do apóstolo Pedro: apócrifo. Os atos em nome do apóstolo Filipe: apócrifo. O evangelho em nome de Matias: apócrifo. O evangelho em nome de Barnabé: apócrifo. O evangelho em nome de Tiago Menor: apócrifo. O evangelho em nome do apóstolo Pedro: apócrifo. O evangelho em nome de Tomé, usado pelos maniqueus: apócrifo. Os evangelhos em nome de Bartolomeu: apócrifos. Os evangelhos em nome de André: apócrifos. Os evangelhos falsificados por Luciano: apócrifos. Os evangelhos falsificados por Hesíquio: apócrifos. O livro sobre a infância do Salvador: apócrifo. O livro da natividade do Salvador e de Maria ou "A Parteira": apócrifo. O livro que é chamado de "O Pastor": apócrifo. Todos os livros da pena de Leúcio, discípulo do diabo: apócrifos. O livro chamado de "A Fundação": apócrifo. O livro chamado de "O Tesouro": apócrifo. O livro das filhas de Adão Leptogeneseos: apócrifo. O centão de Cristo incluído com versos de Virgílio: apócrifo. O livro que é chamado "Atos de Tecla e Paulo": apócrifo. O livro que é chamado de "Nepos": apócrifo. Os livros de Provérbios escritos por hereges e assinalados anteriormente com o nome de Santo Sisto: apócrifo. A Revelação dita de Paulo: apócrifo. A Revelação dita de Tomé: apócrifo. A Revelação dita de Estevão: apócrifo. O livro chamado de "Assunção de Santa Maria": apócrifo. O livro chamado de "A Penitência de Adão": apócrifo. O livro sobre Gog, o gigante que após o dilúvio lutou com o dragão, segundo os hereges: apócrifo. O livro chamado "Testamento de Jó": apócrifo. O livro chamado "A Penitência de Orígenes": apócrifo. O livro chamado "A Penitência de São Cipriano": apócrifo. O livro chamado "A Penitência de Jamne e Mambre": apócrifo. O livro chamado "A Fortuna dos Apóstolos": apócrifo. O livro chamado "Lusa dos Apóstolos": apócrifo. O livro chamado "Cânon dos Apóstolos": apócrifo. "O Fisiólogo", escrito por hereges e assinalado com o nome do bem-aventurado Ambrósio: apócrifo. A "História" de Eusébio Pampilo: apócrifo. As obras de Tertuliano: apócrifas. As obras de Lactâncio, também conhecido como Firmiano: apócrifas. As obras de Africano: apócrifas. O opúsculo "Potumiano e Gallo": apócrifo. As obras de Montano, Priscila e Maximila: apócrifas. As obras de Fausto, o maniqueu: apócrifas. As obras de Comodiano: apócrifas. As obras do outro Clemente de Alexandria: apócrifas. As obras de Táscio Cipriano: apócrifas. As obras de Arnóbio: apócrifas. As obras de Ticônio: apócrifas. As obras de Cassiano, sacerdote gaulês: apócrifas. As obras de Vitorino Petavionense: apócrifas. As obras de Fausto Regiense Galliaro: apócrifas. As obras de Frumêncio Cego: apócrifas. A carta de Jesus a Abgaro: apócrifa. A carta de Abgaro a Jesus: apócrifa. A Paixão dos Ciricianos e Julitanos: apócrifa. A Paixão dos Georgianos: apócrifa. Os escritos chamados de "Interdição de Salomão": apócrifos. Todos os filatérios que não provêm dos anjos, como pretendem alguns, mas foram escritos em nome dos piores demônios: apócrifos.
2. Estas e outras obras similares, tais como as de Simão Mago, Nicolau, Cerinto, Marcião, Basílides, Ebion, Paulo de Samósata, Fotino e Bonóso, que sofrem de erros similares, bem como Montano e suas obscenas seguidoras, Apolinário, Valentino Maniqueu, Fausto Africano, Sabélio, Ário, Macedônio, Eunômio, Novato, Sabácio, Calisto, Donato, Eustácio, Joviano, Pelágio, Juliano de Eclanum, Celéstio, Maximiano, Prisciliano da Espanha, Nestório de Constantinopla, Máximo Cínico, Lampécio, Dióscoro, Êutiques, Pedro e o outro Pedro - um desgraçou a Alexandria e o outro, a Antioquia - Acácio de Constantinopla e seus partidários, e ainda todos os discípulos da heresia, dos hereges e dos cismáticos, cujos nomes quase não foram preservados, que ensinaram ou compilaram [o erro], confirmamos que não devem meramente ser rejeitados mas também eliminados de toda a Igreja Católica e Apostólica romana, sendo que os autores e seguidores desses autores devem ser amaldiçoados com a corrente inquebrável do anátema eterno.




quinta-feira, 25 de junho de 2015

Patrística - Carta sobre a caridade, humildade e fidelidade à fé católica



 
Efrém da Síria ou Efrém, o Sírio foi um prolífico compositor de hinos e teólogo do século IV, 
venerado por cristãos do mundo inteiro.



Santo Efrém da Síria (Ano de 306-373 d.C. aproximadamente), Padre da Igreja, expõe nesta epístola uma série de questões espirituais referentes à vida monástica, entre elas a humildade, a vivência da caridade e a exortação para que o cristão seja sempre fiel à fé que recebeu da Igreja Católica.
 
Meu bem-amado no Senhor,

Quando desejardes dar alguma resposta, deves por em tua boca, antes de mais nada, a humildade uma vez que sabes muito bem que, por ela, todo o poder do inimigo se reduz a nada. Tu conheces a bondade do teu Mestre, que foi blasfemado, e como Ele se fez humilde e obediente inclusive até a morte. Filho meu, trabalha por ti mesmo para firmar a humildade em tua boca, em teu coração e em teu colo, pois há um mandamento que a exige. Lembra-te de Davi, que vangloriava-se por sua humildade e disse:? Porque me humilho, o Senhor me libertou e me abençoou? (Sal 29 [30], 8-12). Filho meu, apega-te à humildade e farás com que as virtudes de Deus te acompanhem. E se permanecerdes no estado de humildade, nenhuma paixão, qualquer que seja, poderá dominar-te. Não existe medida para a beleza do homem que é humilde. Não há paixão, qualquer que seja, capaz de dominar o homem humilde; e não há medida para a sua beleza. O homem humilde é um sacrifício a Deus. O coração de Deus e de seus anjos descansam naquele que é humilde. Mais ainda: quando os anjos o glorificam, é porque houve uma razão para ele obter todas as virtudes; porém, aquele que se revestiu da humildade não necessita de nenhuma razão além de se Ter feito humilde.

Filho meu, estas são as virtudes da humildade. Filho meu, conserva a paz, pois está escrito: ?Aquele que é sábio, nesse momento conservará a paz? (Am 5, 13). Mantém a paz até que te questionem. E quando te questionarem, fale usando palavras humildes; comporta-te também de maneira humilde. Não lamentes. Se a pergunta exigir extensa resposta, senta-te. Nunca fales enquanto os outros estiverem usando palavras de desprezo; mas, alegremente, não esqueças que teus pensamentos devem ser estes:? não escutei [as palavras de desprezo]?. Prestai tua máxima atenção, porém, à toda palavra valiosa, pois está escrito:? Se tu deixas passar a palavra e não a escuta, te enganas a ti mesmo, filho meu no Senhor? Te dei mandamentos desde o princípio; guarda-os desde a juventude. Examina o que diz Paulo; disse: ?Desde o tempo em que eras um menino, conhecias a Santa Escritura, que tem o poder para te salvar? (2Tim 3,15). Aprende toda regra dos preceitos do monge, e faz-te querido em todos os teus trabalhos. Se tu, que sois jovem, vais para o deserto e te estabeleces em um local muito grande para ti e vês que Deus ali está, não deixes esse lugar para ir para outro, porque estais descontente. Deixa que o deserto em que te estabeleceste te seja suficiente, não deixeis que Ele se ofenda, pois está escrito:? Não é uma pequena coisa contrária que provocará a ira nos homens?

No deserto em que te estabeleceste mantém esta maneira de agir e não fujas de um lugar para outro. Não te dirija à morada de ninguém para lamentar no que crês, muito menos por causa dos desejos do teu estômago. Não estejas em companhia do homem agitado e problemático, mas assegura-te em continuar com tua vida silenciosa; não estejas também na boca dos teus irmãos. Te suplico, meu amado no Senhor, que deixeis que tua meta principal seja aprender; escutar com atenção (ou obedecer) te dará a paz, pois está escrito:? O proveito da instrução não é a prata?. Cuida-te para jamais deixar de escutar (ou desobedecer). Que a palavra de Saul não se realize em ti, nem em tua geração, pois Deus é mais facilmente persuadido pela obediência do que pelo sacrifício (cf. 1 Sam 15, 22).

Estas são, então, as regras do ofício do monge: deves comer com os irmãos; não levantes a cabeça enquanto não tiver terminado de comer; come com a roupa que te deixas ver em público; se acontecer de serdes o último a ser servido, não digas: ?Traga-me logo, pois aqui está sentado alguém maior que tu?; quando desejares beber da garrafa de água, não deixes que tua garganta cause confusão como um homem comum; quando estiverdes sentado no meio dos irmãos e desejares cuspir, não o faça no meio deles, mas afasta-te a certa distância e então cospe.

Quando estiverdes dormindo em algum lugar com os irmãos, não permitas que pessoa alguma se aproxime a menos de um cotovelo de distância. Se o trabalho for tranquilo, não durmas sobre a esteira, mas dobra-a pois sois um homem jovem. Não durmas estendido, nem tampouco de costas, para que teus sonhos não te molestem.
Quando estiverdes caminhando com os irmãos, mantém-te sempre a alguma distância deles, pois quando caminhas com um irmão fazes com que teu coração esteja ocioso. Se estiverdes usando sandálias nos pés e o que caminha contigo não as têm, desata-as e caminha como ele, pois está escrito:? Sofrereis?
Faz o trabalho do pregador. Faça-o cuidadosamente enquanto estiverdes em tua habitação. Não comas enquanto o sol estiver brilhando. Não acendas a fogueira para ti apenas, ou te transformarás num homem exibido. Quando for necessário aquecer-se, chama algum homem pobre e miserável que está contigo no deserto, e serás elogiado, ao dizer:? Não posso comer sozinho o meu pão?

Se estiverdes numa montanha ou em um lugar onde há algum irmão doente, visita-o duas vezes ao dia: de manhã, antes de começardes a trabalhar com tuas mãos, e à tarde; pois está escrito, meu amado no Senhor: ?Estive doente e tu me visitaste? (Mt 25, 36. 43). Quando um irmão morre na montanha onde estás, não te sentes na cela onde consegues ouvir a notícia, mas vai sentar-te com ele e chora sobre ele; pois está escrito:? Chora pelo homem falecido e caminha com ele até que seja enterrado?, pois esta é a última coisa que se pode fazer por seu irmão. Saúda seu corpo com compaixão, dizendo:? Lembra-te de mim diante do Senhor?

Filho meu, faz tudo o possível para observar as coisas que escrevi para ti, pois elas são as regras do ofício do monge. Deixa que a morte se aproxime de ti de dia e de noite, pois tu sabes que conheces ela e te dirá: ?Eu nunca a pus em meu coração. Meus pés estão no umbral e viverei até cruzar o umbral da porta?. Filho meu, põe sempre toda a tua mente diante de Deus e não deixes que todos estes pensamentos instáveis te desviem do caminho. Tem sempre em vista os castigos que vêm. Enquanto estiverdes em tua habitação, faz-te semelhante a Deus.

Se um irmão vem até ti, regozija-te com ele. Saúda-o. Prepara água para seus pés. Não esqueça isto. Que ele reze. Ficai sentado. Saúda suas mãos e seus pés. Não o incomodes com perguntas como: ?De onde vens??; pois está escrito: ?Desta maneira, alguns, sem saber, têm recebido anjos em sua morada? (Heb 12, 2). Crê naquele que veio a ti da mesma forma como crerias em Deus. Se ele for um homem mais virtuoso que tu, diga-lhe humildemente: ?Que teu favor esteja sobre mim?, o que equivale a dizer: ?Tu és meu mestre?. Guarda tua comida e come com ele. E se tiverdes algum compromisso, desmarca-o; pois está escrito: ?Filho meu, sempre me traz prazer acompanhar o homem que quer caminhar?. Deves regozijar-te com ele e estar feliz. Fazei o máximo que puder para que te bendiga três vezes, para que a bênção do anjo que entrou com ele venha sobre ti.

E como exige a mesma fé da Igreja Católica, não te desvies dela, nem te ponhas fora dela. Cremos em só Deus, Pai todo-poderoso, e em seu Filho único, Jesus Cristo, nosso Senhor, por quem foi feito o universo, e no Espírito Santo, ou seja, [cremos] na Santíssima Trindade, a divindade plena. Ele [Jesus] é Deus, Ele estava com Deus, Ele é a Luz que vem da Luz, Ele é o Senhor que vem do Senhor. Ele foi gerado, não criado. Foi gerado como homem. Ele não é uma criatura, é Deus. Foi gerado pela Santíssima Virgem Maria, a mulher que levou Deus em seu seio. Ele tomou a carne do homem para o nosso bem, [veio] à terra e dela ascendeu. Escolheu pregadores, os Santos Apóstolos, cujas vozes, conforme o que está escrito, têm sido ouvidas em toda a terra (Sal 18 [19],4). Fui crucificado e traspassado com uma lança. Daí veio a nossa salvação, Água e Sangue, isto é, o Batismo e o glorioso Sangue; quem não recebeu o Sangue, não foi batizado.

Faz isto, filho meu. Mantém esta fé e o Deus da paz estará contigo, e te salvará, e te libertará, e estarás em paz pelo resto dos teus dias. A salvação está no Senhor, filho querido, no Senhor. Lembra-te de mim, amado no Senhor, por Jesus, o Cristo, nosso Senhor, a quem pertencem a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém.

sábado, 22 de março de 2014

Do Martírio do Papa São Fabiano (236-250 d.C)

HISTÓRIA EM FOCO 

Da Carta que São Cipriano enviou aos presbíteros e diáconos de Roma ao tomar conhecimento da morte do Papa Fabiano:
"Quando era ainda incerta entre nós a notícia da morte desse homem justo, meu companheiro no episcopado, recebi de vós, caríssimos irmãos, a carta que me enviastes pelo subdiácono Cremêncio; por ela fiquei completamente a par da sua gloriosa morte. Muito me alegrei, porque a integridade do seu governo foi coroado com um fim tão nobre.
Por isso, quero congratular-me convosco, por terdes honrado a sua memória com um testemunho tão esplêndido e tão ilustre. Destes-nos a conhecer a lembrança gloriosa que conservais de vosso pastor, que é para nós um exemplo de fé e fortaleza.
Realmente, assim como é um precedente pernicioso para os seguidores e queda que os preside, pelo contrário, é útil e salutar o testemunho de um bispo que dá aos irmãos o exemplo de firmeza na fé.
Mas, parece que, antes de receber esta carta, a Igreja de Roma dera à Igreja de Cartago testemunho da sua fidelidade na perseguição.
A Igreja permanece firme na fé, embora alguns tenham caído, seja porque impressionados com a repercussão suscitada por serem pessoas ilustres, seja porque vencidos pelo medo dos homens. Todavia, nós não os abandonamos, embora tenham se separado de nós. Antes, os encorajamos e aconselhamos a fazerem penitência, para que obtenham o perdão daquele que pode concedê-lo. Pois se perceberem que foram abandonados por nós, talvez se tronem piores.
Vede, portanto, irmãos, como deveis proceder também vós: se corrigirdes com exortações aqueles que caíram, e eles forem novamente presos, proclamarão a fé para reparar o erro anterior. Igualmente vos lembramos outros deveres que haveis de levar em conta: se aqueles que caíram nesta tentação começarem a tomar consciência de sua fraqueza, se se arrependerem do que fizeram e desejam voltar à comunhão da Igreja, devem ser ajudados. As viúvas e os indigentes que não podem valer-se a si mesmos, os encarcerados ou os que foram afastados para longe de suas casas, devem ter quem os ajude. Do mesmo modo, os catecúmenos que estão presos não devem se sentir desiludidos na sua esperança de ajuda.
Saúdam-vos os irmãos que estão presos, os presbíteros e toda a Igreja de Roma que, com a maior solicitude, vela sobre todos os que invocam o nome do Senhor. E também pedimos que vos lembreis de nós.(Ep - 9,1,8, 2,2,3: CSEL 3,488-489,487-488)


HISTÓRIA DO PAPA SÃO FABIANO 

NascimentoRoma 200
Eleição10 de Janeiro de 236
Fim do pontificado20 de Janeiro de 250 (50 anos)
AntecessorAntero
SucessorCornélio
Fabiano era um fazendeiro cristão nascido em Roma. Era um laico, quer dizer, não era um sacerdote, mas mesmo assim foi escolhido pelo povo e pelo clero, à ocupar a cátedra de São Pedro. Tudo aconteceu, devido a um fato ocorrido, quando a assembléia cristã estava tentando escolher o novo pastor da Igreja de Roma. Num determinado momento uma pomba, símbolo do Espírito Santo, pousou sobre sua cabeça e eles entenderam isto como um sinal de Deus. Foi eleito e ordenado: diácono, presbítero e bispo no mesmo dia, 10 de janeiro de 236. Depois de ser consagrado o vigésimo sacerdote a ocupar a Cátedra da Igreja de Roma, o então papa Fabiano se dirigiu ao túmulo de São Pedro para rezar.
Administrador nato, realizou o censo do povo de Cristo, presente na cidade de Roma. Depois dividiu a cidade em sete distritos eclesiásticos, ou paróquias, e delegou a cada uma os seus paroquianos, seu clero e suas catacumbas, como eram chamados os cemitérios. O papa Fabiano que era um quase desconhecido antes da eleição, foi muito apreciado também por suas intervenções doutrinais, especialmente nas controvérsias da Igreja da África. Sob seu pontificado de catorze anos, houve paz e desenvolvimento interno e externo da Igreja.
Segundo são Cipriano, bispo de Cartago, capital romana da África do norte, o próprio imperador Décio, admitia a sua competência e teria dito que preferia um rival no Império a um bispo como Fabiano em Roma. O soberano estava com problemas no seu governo, os domínios romanos diminuíam devido às constantes rebeliões, por isto definiu os cristãos como culpados e desencadeou uma ferrenha perseguição contra toda a Igreja.
Ocorreu um grande êxodo de cristãos de Roma, que se deslocaram para o Oriente à procura das comunidades religiosas dos desertos, um pouco mais protegidas das perseguições. Este foi o início para a vida eremita, com os “anacoretas”, mais conhecidos como os padres do deserto. Entretanto, o papa Fabiano permaneceu no seu posto e não renegou a fé, sendo decapitado no dia 20 de janeiro de 250.
Assim escreveu sobre ele são Cipriano na Carta que enviou ao clero romano: “Quando era ainda incerta entre nós a notícia da morte desse homem justo, meu companheiro no episcopado.. a carta que me enviastes… por ela fiquei… a par da sua gloriosa morte. Muito me alegrei, porque a integridade do seu governo foi coroada com um fim tão nobre.”
Depois do seu martírio, a Cátedra de Pedro ficou desocupada por mais de um ano, até que o clero e o povo de Roma pudessem eleger um novo bispo, devido à intensa perseguição ao catolicismo.

sábado, 29 de junho de 2013

Patrística - SANTO IRENEU



                                                            «Quem Me vê, vê o Pai» 

       «Felizes os puros de coração, porque verão a Deus» (Mt 5,8). Claro que, tendo em consideração a Sua grandeza e a Sua glória inexprimível, «nenhum homem pode ver Deus e viver» (Ex 33,20), porque o Pai é inatingível. Mas, tendo em consideração o Seu amor, a Sua bondade para com os homens e a Sua omnipotência, Ele vai ao ponto de dar aos que O amam o privilégio de ver a Deus [...], pois «o que é impossível aos homens é possível a Deus» (Lc 18,27). Por si próprio, com efeito, o homem não verá Deus; mas Deus, se assim o quiser, será visto pelos homens, por aqueles que Ele quiser, quando quiser e como quiser, pois Deus tudo pode. Foi visto outrora graças ao Espírito, segundo a profecia, depois foi visto graças ao Filho, segundo a adopção, e será visto no Reino dos Céus, segundo a paternidade. Pois o Espírito prepara o homem para o Filho de Deus, o Filho conduz ao Pai, e o Pai dá-lhe uma natureza imperecível e a vida eterna que resultam dessa visão de Deus para todo aquele que O vê.


       Pois os que vêem a luz estão na luz e participam no seu esplendor; assim, aqueles que vêem a Deus estão em Deus e participam do Seu esplendor. E o esplendor de Deus dá vida: portanto, aqueles que vêem a Deus participam na Sua vida.

       (c. 130-c. 208), bispo, teólogo, mártir  - Contra as heresias 4,20,4-5; SC 100 


     Poucas, mas significativas, são as informações que se tem sobre santo Ireneu. No XVII ano do imperador romano Antonino Vero (177 d.C.), inúmeros cristãos passaram a ser aprisionados em Lião e Viena, na Gália, em decorrência de uma perseguição religiosa. Ao mesmo tempo na Frígia, surgiam os montanistas (seguidores de Montano), pregando um iminente retorno de Cristo; eles logo passaram a gozar de grande fama por causa das "maravilhas" de seus múltiplos carismas e falsas profecias. Contudo, tais profetas passaram a inquietar a Igreja espalhada por todo o império. Os cristãos prisioneiros em Lião, dissentindo de tais profetas, escreveram cartas aos irmãos da Ásia e da Frígia, e a Eleutério, o bispo de Roma, visando especificamente pacificar a Igreja.

     "Estes mártires recomendaram Ireneu ao bispo de Roma e o elogiaram dizendo: "Novamente te desejamos toda felicidade em Deus e que ela permaneça sempre contigo, pai Eleutério. Demos esta missão a Ireneu, irmão nosso e companheiro, de levar-te estas cartas; digna-te de recebê-lo como um zeloso observador do Testamento de Cristo. Se pensássemos que a posição de alguém é aquela que o torna justo, imediatamente queremos te apresentá-lo como sacerdote da Igreja, como de fato ele o é" (cit. por Eusébio, HE, V, 4, 1-2). Tal missão é o único fato datável de sua vida. Todos os outros são os mais possíveis. Costuma-se localizar seu nascimento em torno do ano 140, em Esmirna, na Ásia (atual Turquia). Ainda criança, em Esmirna, freqüentou o velho bispo Policarpo (martirizado em 156), que por sua vez fora discípulo do apóstolo João- o que confere a Ireneu o título de "vir apostolicus".

     Na Ásia Menor, Ireneu conheceu são Policarpo. "Eu te poderia dizer-escreve ele a Florino, um ex-condiscípulo de Policarpo, que apostatara tornando-se valentiniano-o lugar onde o beato Policarpo costumava sentar-se para falar-nos, e como entrava nos argumentos; que tipo de vida tinha, qual o aspecto de sua pessoa, os discursos que fazia ao povo, como nos discorria sobre os íntimos colóquios que tinha com João e com os outros que haviam visto o Senhor, seus milagres e sua doutrina. Tudo isto Policarpo aprendeu com testemunhas oculares do Verbo da Vida e o anunciava em plena harmonia com as Sagradas Escrituras" (cit. por Eusébio, HE, V, 20, 5-60)

     Tendo voltado de Roma, foi eleito pelo povo bispo de Lião, sucedendo a são Potino, que morrera por maus tratos na prisão aos 90 anos de idade. Entre os anos de 180 e 198 escreveu suas duas obras, atualmente conhecidas. Interveio decisivamente em diversas controvérsias eclesiásticas, cuja mais célebre foi a grande polêmica sobre a data da Páscoa, que opôs as Igrejas da Ásia Menor às outras Igrejas do Ocidente, lideradas pelo papa Vítor (189-199). Diziam os bispos da Ásia -sob a liderança de Policrates, de Éfeso -conservar a data hebraica da festa da Páscoa, adotada por S. João; para as Igrejas ocidentais e algumas do oriente era outra a data celebrada. Em determinado momento o papa avocou a si a decisão, ameaçando com a excomunhão os que não o seguissem: prenunciava-se assim uma calorosa cisão na Igreja. Ireneu escreveu ao papa e aos bispos da Ásia, em nome das Igrejas da Gália; exortava respeitosamente o papa a uma prudência maior e a não tomar medidas radicais. Certamente havia inconvenientes quanto aos costumes inculturados sobre a questão (duração do jejum, tradições quaresmais e pascais, e a própria data); certamente o bispo de Roma tinha direito de pronunciar-se e indicar o caminho da obediência. Entretanto, Ireneu convidava-o a não quebrar a unidade cristã por esta questão disciplinar e secundária, afinal eram ambas tradições vindas dos apóstolos em contextos diversos.

   Pacificados os ânimos, Ireneu - segundo o dizer de Eusébio -fez jus ao significado etimológico de seu nome, cujo radical (irene) significa "paz".
Segundo Gregório de Tours, na clássica História dos Francos, Ireneu como bispo conseguiu reanimar sua Igreja saída da perseguição, tornando-a um foco missionário para toda a Gália.
     Todavia seu mérito histórico maior foi ter identifica- do, estudado e refutado radicalmente o gnosticismo, e com isto estabeceram-se bases e princípios gerais para combater todas as heresias na Igreja.
Nada se sabe -com certeza -sobre sua morte. Uma tradição tardia -que remonta a são Jerônimo e ao Pseudo-Justino -afirma ter sido ele martirizado por heréticos, depois do ano 200, com uns 70 anos de idade; outra tradição afirma ter ele morrido num massacre geral de cristãos lionenses sob Sétimo Severo (pelo ano 202?). A Igreja o venera como mártir, celebrando-o a 28 de junho.

Algumas notas

   - Este asiático, expatriado na Gália, conheceu Roma. Foi ele a unir a tradição da Ásia Menor à tradição romana, que transplantou para Lião. E aí adquire um valor excepcional seu testemunho situado na confluência do Oriente e do Ocidente.

    - É impressionante a cultura bíblica de Ireneu - que usava a versão dos Setenta - citando praticamente todos os livros bíblicos, com exceção apenas de Ester, Crônicas, Eclesiastes, Cântico dos cânticos, Jó, Abdias e Macabeus (do AT), e Filemon e 2Jo (do NT).

    - Apesar de não ser o seu forte argumentar com textos neo-testamentários, cita ele muito particularmente os Atos dos Apóstolos e a carta de Paulo aos Romanos (da qual mantém constantemente também o espírito). Usa alguns textos apócrifos (por exemplo: I Enoque, Ascensão de Isaías, proto-evangelho de Tiago), além de citar alguns textos atribuídos por ele a Jeremias e a Davi, não encontrados no cânon vetero-testamentário.

     - Na formação teológica de santo Ireneu estão presentes, não apenas como citação, mas como influência teológica, contributos da tradição apostólica, especialmente -através de S. Policarpo -de S. João e da escola joanina -sobretudo Pápias -, também Clemente Roma- no, Barnabé, Hermas e o autor da Didaqué. O bispo de Lião é ainda devedor a Teófilo de Antioquia, Melitão de Sardes, Aristão de Pella; conhecia bem Taciano e, provavelmente, Clemente Alexandrino jovem e Atenágoras.

    - É inegável sua preparação clássica, podemos citar Homero e Hesíodo, Píndaro e Estesicoro; conhecia as fábulas de Esopo e os dramas de Édipo. Nas teorias gnósticas encontrou paralelos com a doutrina de Tales, Anaximandro, Anaxágoras, mas sobretudo de Platão e Aristóteles. Leu profundamente Justino. Ao estudar os gnósticos em seus textos originais, aprofundou- se em Valentim, Ptolomeu (valentiniano), Marcos, Marcião, Simão, o Mago, e outros menores como Menandro, Saturnino, Basílides, Carpocrates, Cerinto, os ebionitas, os nicolaítas, Cerdão, Taciano, os ofitas, os setitas, os cainitas.

      - Apesar de ser um marco e uma ponte entre o cristianismo das origens e o que se desenvolve a partir do século III (com crescente peso político e organização hierárquica), Ireneu foi aos poucos sendo esquecido a ponto de o bispo de Lião Etério ter escrito ao papa Gregório Magno (590-604) para obter informações sobre a vida e obras de seu ilustre predecessor - do qual conhecia por ouvir dizer provavelmente só o nome e a fama ou uma série de lendas inaceitáveis.

  - Ignorado na Idade Média, Ireneu foi redescoberto no século XVI, quando Erasmo publicou uma edição com os textos principais de Adversus haereses (1526). Demonstração só foi encontrada em 1904, pelo arquimandrita Ter- Mekerttschian.

    - Homem de tradição apostólica, Ireneu tornou-se o primeiro teólogo como guardião fiel dos "cânones imutáveis da verdade" (Ad. haer. I, 9.4). Sem especulações, nem inovações, ele -mestre da tradição -legou um ensino essencialmente tradicional, cujo caráter permanece na teologia ocidental; ao contrário, por exemplo, do legado de Orígenes (também excelente teólogo, bem mais especulativo e criativo e autor de grandioso estudo científico, apesar de algumas vezes prematuro e nem sempre seguro), ou de Tertuliano (de quem procede especialmente à linguagem técnica da teologia).


Helcion Ribeiro  -  Fonte: Coleção Patrística, Volume 4, Ed. Paulus