quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Contra Vigilâncio (Autor São Jerônimo ano de 420dC)


Capítulo I

O mundo pariu muitos monstros. Em Isaías lemos sobre centauros, corujas e pelicanos. Jó, em linguagem mística, descreve Leviatã e Behemoth. Cérbero e os pássaros de Estínfalo, o porco de Erimantéia e o leão de Neméia, a Chimera e a Hidra de muitas cabeças são citadas em fábulas poéticas. Virgílio descreve Caco. A Espanha criou Gerion, com seus três corpos. Somente a Gália não teve monstros e sempre contou com homens ricos em coragem e grande eloquência... Isto até Vigilâncio - ou, mais propriamente, "Dormilâncio" - que surgiu, animado por um espírito imundo, para lutar contra o Espírito de Cristo e negar aquela reverência religiosa que devemos prestar aos túmulos dos mártires. As vigílias - afirma ele - devem ser condenadas. O "Aleluia" nunca deve ser cantado senão na Páscoa. A continência é uma heresia. A castidade, uma cama preparada para a concupiscência. E assim como dizem que Eufórbio renasceu na pessoa de Pitágoras, então temos que neste (=Vigilâncio) ressuscitou a mente corrompida de Joviniano. Nele, não menos que em seu predecessor, encontramos as ciladas do demônio. A Palavra pode ser justamente aplicada a ele: "Raça de malfeitores, preparai vossos filhos para o massacre por causa dos pecados do vosso pai". Joviniano, condenado pela autoridade da Igreja de Roma, entre a carne de faisão e a de porco, exalou, ou melhor, vomitou o seu espírito. E agora, este sustentador das tavernas do Calagurre, que conforme o nome de sua vila nativa é Quintiliano, estúpido ao invés de eloquente, quer combinar água com vinho. Segundo a armadilha que ele há muito já conhece, tenta agora misturar seu veneno com a fé católica: ele agride a virgindade e odeia a castidade; se regozija com o mundano e prega contra o jejum dos santos; serve o filósofo em sua bandeja e se alivia com as doces melodias da salmodia enquanto lambe os lábios após comer seus bolos de queijo. Alías, não poderia ele dignar-se a ouvir as canções de Davi, Jeduth, Asaf e os filhos de Coré a não ser na mesa do banquete. Isto eu tenho dito com mais pesar que alegria, pois não posso me conter, tornando-me surdo ao ouvir as coisas erradas que ele atira contra os apostólos e mártires.

Capítulo II

Vergonhoso de se mencionar é que alguns bispos, segundo dizem, se associaram a ele em sua iniqüidade - se é que esses homens podem mesmo ser chamados de bispos - e não ordenam diáconos a não ser que tenham eles sido previamente casados. Eles não honram o celibato exigindo mais castidade, ou melhor, eles mostram claramente que a medida da santidade de vida que querem se dá indulgenciando as piores dúvidas do homem e, exceto que os candidatos à ordenação apareçam perante eles com esposas grávidas e bebês chorando no colo de suas mães, não administrarão a estes a ordenação de Cristo. O que estão fazendo as igrejas do Oriente? E as que pertencem às igrejas egípcias ou à Sé Apostólica: aceitam para o ministério apenas homens virgens, ou que praticam a continência ou, se casados, abandonaram seus direitos conjugais? Eis o ensinamento de Dormilâncio, que lança as rédeas sobre o pescoço da luxúria e por seu incentivo duplica o calor natural da carne, que na juventude atinge o ponto máximo e que se sacia pelo intercurso [sexual] com mulheres. Daí, nada nos separa dos porcos, nada aqui nos difere da criação bruta, ou dos cavalos, a respeito do que está escrito: "Eles se dirigiram às mulheres como cavalos selvagens; todos relincharam após [conhecerem] a esposa de seu vizinho". Isto é o que foi dito pelo Espírito Santo através da boca de Davi: "Não sejais como o cavalo e a mula que não compreendem". E, novamente, acerca de Dormilâncio e seus amigos: "Amarrem a maxilar daqueles que se aproximam de vocês com freios e rédeas".

Capítulo III

Mas agora nos chegou o momento de abordar as suas próprias palavras e responder-lhe em detalhes. Isto porque, possivelmente, em sua malícia, ele pode novamente optar em me deturpar e dizer que eu tenho o trunfo de apreciar um caso fazendo uso dos meus poderes retóricos e declamatórios para combatê-lo, tal como na carta que escreví para a Gália, expondo para uma mãe e sua filha que estavam na dúvida. Este pequeno tratado que agora redijo, é aguardado pelos respeitáveis presbíteros Ripário e Desidério, que informaram que suas paróquias e vizinhanças estão sendo profanadas e me enviaram, através do nosso irmão Sisínio, os livros que ele (Dormilâncio) vomitou como um bêbado na ressaca. Eles também afirmam que algumas pessoas ali, a partir de suas inclinações para os vícios, aderem às suas blasfêmias. Ele é um bárbaro tanto em sua fala quanto em seu conhecimento. Seu estilo é rude. Ele não tem condição nem de defender a verdade. Mas por amor aos leigos e pobres mulheres, carregados de pecados, sempre aprendendo e nunca atingindo o [pleno] conhecimento da verdade, vou desperdiçar uma noite de trabalho para abordar as suas fúteis melancolias, caso contrário poderia parecer que eu estaria tratando com desprezo as cartas daquelas respeitáveis pessoas que confiaram a mim tal tarefa a ser empreendida.

Capítulo IV

Certamente ele representa bem a sua raça. Originado de um bando de marginais e indivíduos reunidos dos quatro cantos [do mundo] - isto porque Pompeu, após conquistar a Espanha, quando se apressava para retornar [a Roma] em seu triunfo, desceu pelos Pirineus e reuniu [os referidos indivíduos] em um só lugar, de onde veio o nome da cidade: Convenae [=convocação] - ele (Vigilâncio) foi encarregado por suas práticas criminosas a atacar a Igreja de Deus. Como seus ancestrais, os vetões, os harrabaceus e o celtiberianos, ele se lança sobre as igrejas da Gália, não carregando o estandarte da cruz mas, ao contrário, a insígnia do diabo. Pompeu fez o mesmo no Oriente. Após subjugar os piratas e bandidos cilicianos e isaurianos, ele fundou uma cidade, que possui o seu próprio nome, entre a Cilícia e a Isáuria. Essa cidade, porém, observa até hoje as ordens dos seus ancestrais e nenhum Dormilâncio surgiu ali. Mas a Gália possui um inimigo nativo e vê sentado na Igreja um homem que perdeu o juízo e que deveria ser colocado em uma camisa-de-força, como recomenda Hipócrates. Entre outras blasfêmias, escuta-se ele dizer: "Que necessidade há para ti de prestar tal honra, para não dizer adoração, a uma coisa, qualquer que seja ela, que você carrega e cultua?". E novamente, no mesmo livro: "Por que você beija e adora um pouco de poeira envolto em um pedaço de pano?". E mais uma vez, no mesmo livro: "Sob o manto da religião vemos que tudo de uma cerimônia pagã foi introduzida nas igrejas: enquanto o sol ainda brilha, um monte de velas são acesas e em todo lugar um pouco de pó miserável, envolto em panos caros, é beijado e adorado. É esta a grande honra que os homens prestam aos bem-aventurados mártires que - conforme pensam - deve ser feita de maneira gloriosa, através de velas insignificantes, enquanto que o Cordeiro, que se encontra no centro do trono, com todo o brilho de sua majestade, lhes dá a luz?".

Capítulo V

Louco! Quem neste mundo já adorou os mártires? Quem já pensou que o homem fosse Deus? Acaso Paulo e Barnabé - quando o povo da Licônia pensou que se tratavam de Júpiter e Mercúrio e por isso precisavam oferecer-lhes sacrifícios - não rasgaram suas vestes e se declararam homens (Atos 14,11)? Não que eles não fossem melhores que Júpiter e Mercúrio, mortos muito tempo antes, mas porque, sob as falsas idéias dos gentios, a honra devida a Deus estava sendo prestada a eles. E lemos o mesmo a respeito de Pedro que, quando Cornélio quis adorá-lo, pegou-o pela mão e disse-lhe: "Levanta-te, pois sou apenas um homem" (Atos 10,26) e você (Vigilâncio) tem a audácia de falar de "algo misterioso ou outra coisa qualquer que você carrega em um pequeno embrulho e adora"? Eu gostaria de saber o que é que você chama de "algo misterioso ou outra coisa qualquer". Diga-nos mais claramente - pois não pode haver moderação na sua blasfêmia - o que você quer dizer com a expressão: "um pouco de pó miserável, envolto em panos caros". Isso nada mais é do que as relíquias dos mártires, que o deixam irritado ao vê-las cobertas por tecido nobre e não por farrapos ou lenços de cabeça, ou lançadas na esterqueira. Com efeito, apenas Vigilâncio, em seu sono de bêbado, acha que podem ser adoradas. Seríamos nós, portanto, culpados de sacrilégio quando entramos nas basílicas dos Apóstolos? Seria o imperador Constâncio I culpado de sacrilégio quando transferiu as sagradas relíquias de André, Lucas e Timóteo para Constantinopla? Na presença destas [relíquias] os demônios se pertubam e os diabos que habitam em Vigilâncio confessam que sentem a influência dos santos. E nos presentes dias, seria o imperador Arcádio culpado de sacrilégio por, depois de tanto tempo, ter transportado os ossos do bem-aventurado [profeta] Samuel da Judéia para a Trácia? Deveríamos considerar todos os bispos não apenas sacrílegos mas tolos porque eles carregam "coisas mais inúteis" - poeiras e cinzas - envoltas em sedas douradas? Seriam tolos os fiéis de todas as igrejas porque foram se encontrar com as sagradas relíquias e deram boas vindas a elas com tanta alegria como se estivessem recebendo um profeta vivo em seu meio, de forma que um grande número de pessoas as seguiram da Palestina até a Calcedônia em uma só voz recitando as orações de Cristo? Seriam loucos se adorassem a Samuel e não a Cristo, já que Samuel era um mero levita e profeta. Você (Vigilâncio) demonstra desconfiança porque pensa apenas em corpos sem vidas e em razão disso blasfema. Leia o Evangelho (Mateus 22,32): "O Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó: Ele não é Deus dos mortos, mas dos vivos". Ora, se então eles estão vivos, não são "mantidos em um confinamento honorável", para usarmos aqui as suas palavras.

Capítulo VI

Você diz que as almas dos Apóstolos e mártires residem no seio de Abraão, ou num lugar de refrigério, ou sob o altar de Deus e que eles não podem viver em seus próprios túmulos e estarem presentes onde quiserem. Eles são, ao que parece, da classe senatorial e não estão sujeitos aos piores tipos de cárcere, nem à sociedade de assassinos, mas são mantidos em separado, sob custória honorífica e liberal nas abençoadas ilhas dos Campos Elíseos. Irá você agora estabelecer a lei para Deus? Irá você agora acorrentar os Apóstolos? Então ficarão eles confinados até o Dia do Julgamento e não estarão com o seu Senhor, embora esteja escrito a respeito deles: "Eles seguem o Cordeiro para qualquer lugar que Ele for" (Apocalipse 14,4). Ora, se o Cordeiro está presente em todo lugar, o mesmo devemos acreditar acerca destes que estão com o Cordeiro. E embora o diabo e os demônios vagueiem por todo o mundo e com tamanha velocidade eles mesmos se movem por todo lugar, estariam os mártires, após derramarem o seu sangue, sendo mantidos confinados em algum lugar de onde não poderiam escapar? Você afirma, em seu panfleto, que enquanto estamos vivos podemos orar uns pelos outros, mas que, quando morremos, a oração de uma pessoa não poderá favorecer outra qualquer; e isto em razão dos mártires, embora eles possam pedir pela vingança de seu sangue, o que, porém, nunca lhes será atendido (Apocalipse 6,10). Se os Apóstolos e mártires, enquanto estão no corpo, podem orar pelos outros, ainda quando se encontram inquietos por si mesmos, quanto mais deverão fazer após terem recebido suas coroas, vencido e triunfado? Um simples homem, Moisés, obteve o perdão de Deus para seiscentos mil homens armados; e Estêvão, seguidor de seu Senhor e o primeiro mártir cristão, implorou o perdão para seus perseguidores; e quando eles entraram na Vida com Cristo, acabaram tendo menos poder do que antes? O Apóstolo Paulo diz que 272 almas foram entregues a ele no navio (Atos 27,37); e após sua dissolução (=morte), quando ele começou a estar com Cristo, deveria ele calar a sua boca e ser incapaz de dizer uma só palavra em favor daqueles que em todo o mundo creram no seu Evangelho? Para Vigilâncio, seria um cachorro vivo melhor que Paulo, o leão morto? Estaria eu certo em seguir o Eclesiastes se admitisse que Paulo está morto em espírito... Mas a verdade é que os santos não são chamados de "mortos"; acerca deles dizemos que estão dormindo. Por isso, diz-se de Lázaro - que estava para ser ressuscitado - que tinha dormido (João 11,11). E o Apóstolo proíbe os tessalonicenses de se preocuparem com aqueles que dormiram. Você (Vigilâncio), que está dormindo acordado e dorme quando escreve, me aponta um livro apócrifo que, sob o nome de Esdras, é lido por você e por aqueles loucos que o escutam, e nesse livro está escrito que após a morte ninguém se atreve a orar pelos outros. Eu nunca li esse livro, mas qual a necessidade de lê-lo se a Igreja não o recebeu? Provavelmente a sua intenção real é de me confrontar com Bálsamo, Barbélio e o Tesouro dos maniqueus, além daquele que traz o ridículo nome de Leusiboras. Talvez porque você vive aos pés dos [montes] Pirineus, no limite da Ibéria, acaba seguindo as "incríveis maravilhas" do antigo herege Basílides e seu assim chamado "conhecimento" - o qual é simples ignorância - e que foi condenado pela autoridade de todo o mundo. Eu afirmo isto porque em seus breves tratados você cita Salomão como se ele concordasse contigo, porém Salomão jamais escreveu tais palavras; então, da mesma forma que você possui um segundo Esdras, tem também um segundo Salomão. E se você gostar, pode ler ainda as revelações imaginárias de todos os patriarcas e profetas; e quando você tiver aprendido todas elas, poderá cantá-las entre as mulheres nas tecelagens, ou ordenar que sejam lidas nas suas tavernas, pois é mais fácil assim que essas canções melancólicas estimulem o povo ignorante a encher novamente as canecas.

Capítulo VII

Contudo, quanto a questão das velas, ao contrário do que você (Vigilâncio) em vão nos acusa, nós não as acendemos durante o dia, mas para conforto podemos alegrar a escuridão da noite, enquanto aguardamos o amanhecer, para que não sejamos cegos como você e cochilemos nas trevas. E se algumas pessoas, leigos simples e rudes, ou quase sempre mulheres religiosas - de quem podemos realmente dizer: "Eu admito que eles tem zelo por Deus, ainda que não seja conforme a razão" (Romanos 10,2) -, adotam tal prática em honra dos mártires, que mal isto causa a você? Já houve uma vez que os próprios Apóstolos suplicaram que o unguento não fosse desperdiçado e acabaram sendo repreendidos pela voz do Senhor. Cristo não precisava do unguento assim como os mártires não precisam da luz das velas. Ainda assim, aquela mulher que derramou o unguento em honra de Cristo teve a devoção do seu coração aceita [pelo Senhor]. Todos aqueles que acendem essas velas têm sua recompensa de acordo com a sua fé, como disse o Apóstolo: "Que cada um abunde em sua própria intenção". Você chama estes homens de idólatras? Eu não nego que todos nós que cremos em Cristo deixamos de lado o erro da idolatria. Nós não nascemos cristãos, mas nos tornamos cristãos ao renascermos [pelo Batismo]. E porque [um dia] já adoramos ídolos se conclui agora que nós não podemos adorar a Deus, pois parece que prestamos honra a Ele e aos ídolos? Um caso é prestar [honra] aos ídolos e, neste caso, o culto é detestável; outro caso é a veneração dos mártires, sendo seu culto permitido. Em todas as igrejas do Oriente, mesmo quando alguma delas não possui relíquias dos mártires, o Evangelho é lido e os castiçais são acesos, ainda que a aurora esteja avermelhando o céu, não para dispersar as trevas, mas para evidenciar o nosso júbilo. E, conforme o Evangelho, as virgens carregam sempre acesas as suas lâmpadas (Mateus 25,1). E dos Apóstolos diz-se que tinham de cingiam seus lombos e acender suas lâmpadas (Lucas 12,35). E de João Batista lemos que "Ele possui a lâmpada que arde e ilumina" (João 5,35). Assim, através da figura da luz corpórea, é representada aquela luz que lemos no Saltério: "Tua Palavra é uma lâmpada para os meus pés, ó Senhor, e uma luz para os meus caminhos".

Capítulo VIII

Estaria o bispo de Roma equivocado quando oferece sacrifícios ao Senhor sobre os veneráveis ossos dos falecidos Pedro e Paulo, do modo como já dissemos, mas de acordo com você (Vigilâncio), sobre um punhado de poeira sem valor, julgando que seus túmulos não são dignos de ser altares de Cristo? E não seria este o único bispo de uma cidade a estar equivocado, mas os bispos de todo o mundo já que, ao contrário do sustentador de tavernas Vigilâncio, entram nas basílicas dos mortos, onde "um punhado de poeira e cinzas sem valor encontram-se envoltos em um pedaço de pano" encardido ou encardindo. Assim, segundo você, os templos sagrados são como os sepulcros dos fariseus, caiados por fora, enquanto que por dentro resta a imundície, estando cheios de podridão e odores fétidos. E então ele (Vigilâncio) atreve-se a vomitar suas porquices sobre esta questão e afirma: "Será que as almas dos mártires amam tanto suas cinzas que acabam permanecendo em torno delas, para que, estando sempre presentes não fiquem tristes por surgir ali alguém para rezar, pois se estivessem ausentes, não conseguiriam ouvir?" Ó, monstro, que merece ser banido para os confins da terra! Você (Vigilâncio) ri das relíquias dos mártires e na companhia de Eunômio, pai desta heresia, calunia as igrejas de Cristo? Você não se preocupa em andar com tal companhia e prega contra nós as mesmas coisas que ele levanta contra a Igreja? Todos os seus seguidores se recusam a entrar nas basílicas dos Apóstolos e mártires, porém, contraditoriamente, eles adoram o falecido Eunômio, cujos livros eles consideram de maior autoridade que os Evangelhos. E eles também crêem que a luz da verdade estava nele assim como alguns outros hereges sustentavam que o Paráclito teria vindo em Montano ou que o próprio Maniqueu era o Paráclito. Você não pode mesmo encontrar uma ocasião de orgulho para supor que é o inventor dessa nova espécie de maldade, sendo que essa sua heresia já foi outrora levantada contra a Igreja. Ela encontrou, porém, um oponente em Tertuliano, um homem de grande sabedoria, que escreveu um famoso tratado que ele corretamente intitulou "Scorpiacum", porque assim como o escorpião dobra-se como um arco para infligir o ferimento, também o que era formalmente conhecido como "a heresia de Caim" infere veneno no corpo da Igreja. Tal acusação repousou, ou melhor, ficou sepultada por um longo tempo, mas agora ressurge graças a Dormilâncio. Eu fico surpreso de ver você (Vigilâncio) omitir então que não deveria haver martírios, já que Deus, que não quer o sangue de bezerros e bois, muito menos poderia querer o sangue dos homens. É exatamente esta a sua conclusão, ou melhor, se você não afirma isso [explicitamente], ao menos é esta a conclusão que [implicitamente] se chega. E se [você] mantiver a idéia de que as relíquias dos mártires devem ser pisoteadas, acabará também por concluir que o derramamento de sangue que sofreram não é digno de qualquer honra.

Capítulo IX

A respeito das vigílias e das freqüentes vezes que passamos a noite nas basílicas dos mártires, darei aqui uma breve resposta, a qual já ofereci em outra carta há cerca de dois anos, quando escrevi para o respeitável presbítero Ripário. Você (Vigilâncio) afirma que elas não deveriam ser observadas, exceto quando estamos próximos da Páscoa, pois não seguem as vigílias anuais de costume. Se assim fosse, então os sacrifícios [da Missa] não deveriam ser oferecidos a Cristo a cada dia do Senhor (=domingo), exceto quando celebrássemos a Páscoa da Ressurrreição do Senhor, tendo sido introduzido o costume de haver muitas Páscoas ao invés de uma. Seja como for, não devemos imputar a homens piedosos as faltas e erros de jovens e mulheres inúteis que muitas vezes são encontrados por aí durante a noite. É verdade que, mesmo nas vigílias da Páscoa, alguns desses se aproximam da Luz; mas as falhas de alguns não constituem em argumento válido contra a religião em geral, de modo que tais pessoas, ainda que não participem da vigília, podem estar erradas inclusive em suas próprias casas ou na de outras pessoas. A traição de Judas não anula a lealdade dos Apóstolos. E se alguns se comportam mal durante a vigília, isso não implica que esta deva deixar de existir. Aliás, melhor seria que [esses] dormissem mesmo para que, não sendo obrigados a participar das vigílias, pudessem ao menos preservar a sua castidade. Ora, se uma coisa foi feita boa, ela não pode ser má se for feita muitas vezes. E se existe aí alguma falta a ser combatida, a censura não consiste em ser feita várias vezes, mas por ter sido feita uma única vez. Portanto, nós [também] não deveríamos realizar a vigília da Páscoa, pois poderíamos temer que adúlteros pudessem aproveitar para satisfazer seus desejos [sexuais] duramente reprimidos, ou que certa esposa pudesse encontrar a oportunidade certa para pecar sem que suscitasse desconfiança contra ela da parte de seu marido. [Na verdade,] as ocasiões em que raramente se recorre são justamente aquelas em que surgem os maiores desejos.

Capítulo X

Eu não posso aqui percorrer todos os tópicos abordados nas cartas dos respeitáveis presbíteros. Irei, portanto, fazer referência a alguns pontos extraídos dos tratados de Vigilâncio. Ele prega contra os sinais e milagres que ocorrem nas basílicas dos mártires, afirmando que eles se dão [apenas] para os infiéis, não para os fiéis, muito embora a questão aqui seria esta: em vantagem de quem ocorrem, não sob o poder de quem. Supõe [ele] que tais sinais são para os infiéis pois como estes não obedeceriam nem a palavra nem a doutrina, acabariam por crer através dos sinais. Com efeito, até mesmo o Senhor teria apresentado sinais para os infiéis (tais sinais do Senhor não entram aqui em discussão) porque aquele povo não tinha fé; [esses sinais] eram dignos de grande admiração pois que poderosíssimos para subjugar os corações mais duros, compelindo os homens a crerem. Eu não vou pedir para que você (Vigilâncio) me diga que esses sinais são para os infiéis, mas para respoder a esta questão: como é que essas poeiras e cinzas indignas encontram-se associadas com este maravilhoso poder de sinais e milagres? Eu percebo - e como percebo -, ó mais infeliz dos mortais, o porquê de você ser tão preocupado e o que causa esse temor: é que esse espírito imundo, que força você a escrever essas coisas, foi muitas vezes torturado por essa "poeira sem valor", e continua sendo torturado neste momento. E se no seu caso em específico ele disfarça as suas feridas, em outros casos ele próprio confessa. Você é fiel seguidor dos pagãos e ímpios Porfírio e Eunômio e acha que aqueles (sinais que ocorrem nas basílicas dos mártires) são armadilhas dos demônios, sendo que estes não gritam [ao serem expulsos], somente fingem seus tormentos. Deixe-me dar um conselho a você: vá até as basílicas dos mártires; certamente um dia você será libertado; você encontrará lá vários casos como o seu e receberá o fogo - não das velas dos mártires que ora deixam você ofendido - mas das chamas invisíveis. Então você confessará aquilo que agora nega e irá pronunciar livremente o seu nome, pois esse que atualmente fala na pessoa de Vigilâncio é, na verdade, Mercúrio (o mercenário); ou Noturno (que, segundo o "Amphitryon" de Platão, dormia enquanto Júpiper, por duas noites seguidas, mantinha relações adulterinas com Alcmena, gerando assim o poderoso Hércules); ou [seu] pai Baco (famoso beberrão, portando a caneca em seus ombros, com sua face rubra, lábios cheios de espuma e brigão descabeçado).

Capítulo XI

Qualquer dia desses, quando um terremoto repentinamente ocorrer nesta província no meio da noite, obrigando-nos a acordar, você (Vigilâncio), o mais prudente e sábio dos homens, começará a pregar pelado e nos trará à mente o relato de Adão e Eva no paraíso. Eles, então, quando se lhe abriram os olhos, ficaram envergonhados, porque viram que estavam nus, e cobriram suas vergonhas com folhas de árvores. Mas você, que parece ter sido despido das suas roupas e da sua fé, no repentino terror que o esmagou e ainda sob os efeitos da bebida da última noite, mostrou sua sabedoria expondo sua nudez de maneira tão evidente aos olhos dos irmãos. Tais são os adversários da Igreja! Estes são os líderes que lutam contra o sangue dos mártires! Eis aí um espécimen dos oradores que estrondam contra os Apóstolos! Ou melhor: eis aí os cachorros loucos que uivam para os discípulos de Cristo!

Capítulo XII

Eu confesso o meu próprio temor, por imaginar que tudo isso provém da superstição. Quando eu ficava bravo, ou tinha maus pensamentos em mente, ou algum espírito da noite me seduzia, eu não me atrevia a entrar nas basílicas dos mártires, eu tremia completamente, tanto no corpo quanto na alma. Talvez você (Vigilâncio) ria e zombe, dizendo que isto chega ao nível das fantasias selvagens das mulheres mais frágeis. Se é assim, eu não me envergonho de ter uma fé igual daquelas [mulheres] que viram por primeiro o Senhor ressuscitado, que foram enviadas aos Apóstolos e que, na pessoa da Mãe de nosso Senhor e Salvador, foram recomendadas aos santos Apóstolos. Vomite suas indecências, se quiser, para os homens que estão no mundo; eu jejuarei ao lado destas mulheres. Sim, [vomite] para homens religiosos que testemunham sua castidade e que, com a face pálida em razão da prolongada abstinência, demonstram a própria castidade de Cristo.

Capítulo XIII

Alguma outra coisa também parece estar incomodando você (Vigilâncio). Você está preocupado que a continência, a sobriedade e o jejum crie raízes entre os povos da Gália e as tavernas desse lugar deixem de funcionar. Então você será incapaz de manter as suas vigílias noturnas diabólicas e diversões entre as bebidas. Ademais, fiquei sabendo a partir daquelas mesmas cartas [dos presbíteros Ripário e Desidério] que, desafiando a autoridade de Paulo, ou melhor, a de Pedro, João e Tiago - que concederam o direito de apostolado a Paulo e Barnabé e ordenaram que se lembrassem dos pobres - você proíbe que qualquer socorro pecuniário seja remetido para Jerusalém, para o socorro dos santos. Agora, se eu abordo esta questão, você imediatamente solta a língua e vocifera que estou defendendo a minha própria causa. Evidentemente, você foi tão generoso para a comunidade inteira que se não viesse a Jerusalém para torrar todo o seu dinheiro ou o dos seus patrões, todos nós estaríamos à beira da fome. Eu digo o que o bem-aventurado Apóstolo Paulo disse em quase todas as suas epístolas! Ele ordenou para as igrejas dos gentios que, no primeiro dia da semana (=domingo), isto é, no dia do Senhor, as ofertas feitas por cada um fossem remetidas para Jerusalém, para socorrer os santos, e isso seria observado pelos seus seus discípulos, bem como por aqueles aprovados por estes. E se isso não devesse ser feito, ele mesmo enviaria ou levaria [para Jerusalém] o que recolheu? Também nos Atos dos Apóstolos, quando se dirigiu ao governador Félix, ele disse: "Depois de muitos anos, eu subi a Jerusalém a fim de levar esmolas e ofertas para a minha nação, e para cumprir os meus votos, tendo sido encontrado me purificando no templo". Por que ele não distribuiu em alguma outra parte do mundo, nas igrejas nascentes em que instruía na fé, aqueles dons que recebeu dos outros? Mas ele percorreu longo caminho para dar aos pobres dos lugares santos que, abandonando suas poucas posses por amor a Cristo, convertiam todo o seu coração para o serviço do Senhor. Levaria muito tempo agora se eu começasse a repetir aqui todas as passagens das suas epístolas nas quais ele advoga e defende de todo coração aquele dinheiro que seria remetido para os fiéis de Jerusalém e locais santos. Não para gratificar a avareza, mas para socorrer. Não para acumular riquezas, mas para suportar a fraqueza do pobre corpo e para repelir o frio e a fome. E este costume continua na Judéia até a presente data, não apenas entre nós, mas também entre os hebreus. Isto é o que eles observam na lei do Senhor, dia e noite. E nenhum pai sobre a terra, exceto o Senhor, pode ser protegido pelo auxílio das sinagogas e de todo o mundo; assim, a desigualdade e a angústia de outros podem ser reduzidas, pois a abundância que alguns têm pode suportar a necessidade de outros (cf. 2Coríntios 8,14).

Capítulo XIV

Você (Vigilâncio) responderá que todos podem fazer isto em suas próprias nações, caso contrário seus pobres nunca poderão ser auxiliados com os recursos [pecuniários] da Igreja. Nós não negamos que a assistência deveria alcançar todos os pobres, inclusive judeus e samaritanos, se estes aceitassem. Mas o Apóstolo ensina que a esmola deve ser dada a todos, a começar, porém, por aqueles que compartilham da mesma fé (Gálatas 6,10). E a respeito destes, o Salvador disse no Evangelho: "Fazei-vos amigos das riquezas da injustiça, [para que quando faltarem] vos recebam em habitações eternas" (Lucas 16,9). O quê? Podem estas pobres criaturas, com seus trapos e imundícies, dominarem desse jeito, por furiosa ambição? Podem elas - que nada são, nem agora, nem depois - possuírem habitações eternas? Não há dúvida de que não é a simples pobreza, mas a pobreza em espírito, que é chamada de bem-aventurada. Destes foi escrito: "Bem-aventurado aquele que ofereceu a sua mente para o pobre e o necessitado. O Senhor o livrará naquele dia ruim". Mas o fato é que, para suportar o pobre existente entre o povo comum é necessário dinheiro e não a mente. No caso do pobre santificado, sua mente se ocupa dos santos exercícios, e, por isso, recebe [a esmola] com rubor; e quando o que recebeu é mortificado, se converte em coisas espirituais aquilo que eram coisas carnais, beneficiando aquele que deu. É seu argumento (=de Vigilâncio) que aqueles que mantêm o que têm e distribuem pouco a pouco entre os pobres, aumentam suas posses e agem muito mais profundamente que aqueles que vendem todas as suas posses e dão tudo de uma só vez. Porém é o Senhor - e não eu - quem dá a resposta: "Se você quer ser perfeito, vá, vende tudo o que tem e dá aos pobres. Depois vem e me segue" (Mateus 19,21). Ele (Cristo) fala para aqueles que desejam ser perfeitos e que, como os Apóstolos, deixaram pai, barco e redes. O homem que você aprova está sentado na segunda ou terceira fileira; mesmo assim nós o recebemos para que se compreenda que o primeiro será antecedido pelo segundo e o segundo pelo terceiro.

Capítulo XV

Permita-me acrescentar que os nossos monges não são dissuadidos da sua firmeza por causa de sua língua de víbora e mordida feroz. Seu argumento a respeito deles funciona assim: se todos os homens se isolassem e vivessem na solidão, quem haveria para frequentar as igrejas? Quem sobraria para vencer aqueles que se ocupam dos hábitos mundanos? Quem seria capaz de incentivar os pecadores a possuir uma conduta virtuosa? De uma forma similar: se todos fossem tolos como você, quem seria sábio? E ainda seguindo o seu argumento, a virgindade não seria digna de aprovação, pois se todos fossem virgens, não existiriam casamentos; a raça [humana] pereceria; os recém-nascidos não chorariam em seus berços; parteiras perderiam os seus empregos e se tornariam indigentes; e Dormilâncio, totalmente sozinho e encolhido de frio, mentiria só para si mesmo. A verdade é esta: a virtude é coisa rara e não é perseguida por muitos. Daí o pouco que foi dito: "Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos". A prisão estaria vazia... Mas a função de um monge não é ensinar, mas sim lamentar, como uma carpideira, para si ou para o mundo, e com receio de que se antecipe a vinda do Senhor. Conhecedor das suas próprias fraquezas e fragilidades dO seu corpo, ele (o monge) se preocupa com os tropeços, para que não seja assaltado por alguma coisa e, assim, caia e se quebre. Por isso, ele evita o sorriso das mulheres, particularmente o das mais jovens, e se isola, temendo até mesmo aquilo que é seguro.

Capítulo XVI

Perguntará você (Vigilâncio): por que se retirar para o deserto? A razão é óbvia. Para que eu não possa te escutar, nem te ver! Para que eu não possa ser perturbado pela sua loucura! Para que eu não me ocupe com você! Para que os olhos da prostituta não me tornem um cativo! Para que a beleza não me leve para abraços irregulares! Você replicará: "Isto não é uma luta, mas uma fuga. Permaneça na linha de batalha, coloque a sua armadura e resista aos seus inimigos! E então, tendo vencido, receberá a sua coroa". Pois eu confesso a minha fraqueza. Eu não lutaria na esperança de vencer, para não correr o risco de perder em algum momento a vitória. Se eu fujo, eu evito a espada. Se eu fico, ou eu venço ou eu sou derrotado. Que necessidade tenho eu de ignorar as certezas e seguir as incertezas? Quer com o meu escudo, quer com os meus pés, eu devo evitar a morte [certa]. Você que luta pode vencer, mas também pode ser vencido. Não existe segurança em dormir com uma serpente do seu lado; é possível que ela não me pique, mas também é possível que ela, após certo tempo, acabe por me picar. Nós chamamos de mães aquelas mulheres que não são mais velhas que irmãs e filhas, e não ficamos corados por encobrir nossos vícios com os nomes mais pios. O que tem para fazer um monge na cela das mulheres? Qual o significado dos olhares e conversas secretas que evitam a presença de testemunhas? Amor santo não tem desejo inquieto. Ademais, o que já dissemos a esse respeito deve ser também aplicado à avareza e todos os vícios que devemos evitar pela solidão. Assim, ficamos afastados das cidades populosas para que não sejamos compelidos a fazer o que nos pedem, não tanto pela natureza, mas pela escolha.

Capítulo XVII

A pedido dos respeitáveis presbíteros - como já disse - eu me dediquei à redação destas poucas considerações, em uma noite de trabalho, pois meu irmão Sisínio, tem pressa de partir para o Egito, onde socorrerá os santos e, por isso, encontra-se impaciente para ir embora. É uma pena, pois a questão por si mesma é tão blasfema que leva à indignação um escritor que possui uma multidão de provas. Mas se Dormilâncio pensa que abusará de mim mais uma vez, e se pensa em disparar contra mim aquela mesma boca blasfema com a qual quebra em pedaços os Apóstolos e mártires, certamente escreverei algo mais que estas linhas. Seja como for, passarei uma noite inteira em vigília, em favor dele e das suas companhias - sejam elas discípulos ou mestres - que pensam que nenhum homem pode ser digno do ministério de Cristo, exceto se for casado e sua esposa for vista com filhos.

* * *

         Fonte: New Advent (
http://www.newadvent.org/)
Tradução: Carlos Martins Nabeto



Verdade sobre o protestantismo - Saiba porquê alguns países ricos são protestantes

     Resposta: Porque os protestantes surrupiaram sob sangue derramado, todos estes países ricos antes católicos. É sabido que os saqueadores sempre gananciam as coisas de maior valor de suas vítimas, nem que para isso as exterminem. Tal procedimento histórico praticado pelo protestantismo é o que vamos ver a seguir. 

      Há muitos outros países ricos que continuam católicos, como o Canadá, Suíça, Austrália, Itália, França, Irlanda, Bélgica, etc., que muito enganador protestante omite porque não os conseguiu surrupiar.

   Todos os países ditos “protestantes e ricos”, já eram ricos e católicos antes do protestantismo ser fundado no século 16 e confiscá-los. O povo foi obrigado a "engolir" o protestantismo porque os reis e príncipes cobiçavam as terras e bens materiais doados pelos católicos à Igreja. Prova isto o fato de que as primeiras providências eram recolher ao fisco real, tudo o que da Igreja Católica poderia se converter em dinheiro. Daí veio a “riqueza” protestante.  

    Visitando-se estes países, vê-se claramente que as antigas igrejas e utensílios religiosos dali, são católicos e adaptados para o culto protestante. São Bonifácio desde muito antes da fundação do protestantismo na Alemanha, continua padroeiro do país e São Jorge o da Inglaterra, a quem empresta a “cruz de São Jorge” para a bandeira nacional.

   Os reais países colonizados pelos protestantes continuam pobres, miseráveis ou na semi-barbárie, são eles a África do Sul, Índia, Nigéria, Botswana, Jamaica, Bahamas, Guiana e São Vicente e Granadinas. Por que os protestantes não os enriqueceram?

   Os protestantes eram tão incapazes que sequer se esforçaram para evangelizar o povo destes países, parecem ter surgido apenas para implicar com a Igreja Católica. A grande Índia por exemplo, foi abandonada por eles, e seu pobre povo continua a ser entregue aos diversos deuses pagãos. Isso sempre é omitido pelos protestantes que preferem fazer cultos arruaceiros dentro de ônibus e metrôs dos países católicos.

    Veja a seguir, como os protestantes surrupiaram os países ricos que antes eram católicos, para posar hoje de “religião dos países ricos”. Observe que os povos destes países não foram evangelizados para ser protestantes, mas impostos sob ameaça de morte. Na maioria desses países o dízimo passou a ser descontado em folha de pagamento e a religião protestante era, ou ainda é estatal.

   Alemanha - Os protestantes liderados por Lutero começaram se apoderando dos conventos e das Igrejas católicas. Os príncipes não se fizeram rogar. Além da administração mundana, passaram também a formular e inventar doutrinas. A opressão sangrenta ao catolicismo pela força armada foi a consequência de semelhante princípio. Cada vez que se trocava um soberano o povo era avisado que também se trocavam as "doutrinas evangélicas". (Confessio Helvetica posterior ( 1562 ) artigo XXX)

     Relata o famoso historiador Pfanneri: "uma cidade do Palatinado desde a Reforma, já tinha mudado 10 vezes de religião, conforme seus governantes eram calvinistas ou luteranos". (Pfanneri. Hist. Pacis Westph. Tomo I e seguintes, 42 apud Doellinger Kirche und Kirchen, p. 55)
Passadas as perseguições, hoje ali, o número de católicos já empata com o de protestantes.

    Holanda - Aqui foram as câmaras dos Estados Gerais a proibir o catolicismo. Com afã miserável tomaram posse dos bens da Igreja. Martirizaram inúmeros sacerdotes, religiosos e leigos. Fecharam igrejas e mosteiros. A fama e a marca destes fanáticos chegou até ao Brasil.

    Em 1645, nos municípios de Canguaretama e São Gonçalo do Amarante, ambos no atual Rio Grande do Norte, cerca de 100 católicos foram mortos entre dois padres, mulheres, velhos e crianças, simplesmente porque não queriam se "batizar" na religião dos invasores holandeses.

    Em 1570, foram enviados para o Brasil, para evangelizar os índios, o Pe Inácio de Azevedo e mais 40 jesuítas. Vinham a bordo da nau "São Tiago" quando em alto mar os interceptou o "piedoso" calvinista Jacques Sourie. Como prova de seu "evangélico" zêlo mandou degolar friamente todos os padres e irmãos e jogar os corpos aos tubarões (Luigi Giovannini e M. Sgarbossa in Il santo del giorno, 4ª ed. E.P, pg 224, 1978)
Hoje já não tem mais maioria protestante: católicos 33%, Igreja Reformista Holandesa 14%, calvinistas 7%.

   Suíça - O Senado coagido pelo rei, aprovou a proibição do catolicismo e proclamou o protestantismo religião oficial. A mesma maldade e vileza ocorreram. Os mártires foram inumeráveis. (J. B. Galiffe. Notices génealogiques, etc., tomo III. Pgna 403)
Já não tem mais maioria protestante: Igreja Católica 41,8%; várias denominações protestantes 35,3%.

   Suécia -  Gustavo Wasa suprimiu por lei o Catolicismo. Jacopson e Knut, os dois mais heróicos bispos católicos foram decapitados. Os outros obrigados a fugir junto com padres, diáconos e religiosos. Os seminários foram fechados, igrejas e mosteiros reduzidos a pó. O povo indignado com tamanha prepotência pegou em armas para defender a religião de seus antepassados. Os Exércitos do "evangélico" rei, afogaram em sangue estas reivindicações. (A Reforma Protestante, Página 203, 7ª edição, em IRC. 1958)
Graças a essa violência, assim está a religião por lá: Em 2008 cerca de 73% da população do país se declararam pertencentes a Igreja Luterana Sueca, uma igreja protestante com adaptações suecas. Os católicos representam cerca de 1,9% e os evangélicos pentecostais, cerca de 1%.

    Dinamarca -  A Dinamarca era católica, com a Reforma luterana, iniciada no séc. 16, os bens da Igreja católica e mosteiros passaram a ser confiscados. O protestantismo foi introduzido por obra e graça de Cristiano II, por suas crueldades apelidado de " o Nero do Norte". Encarcerou bispos, confiscou bens, expulsou religiosos e proclamou-se chefe absoluto da Igreja Evangélica Dinamarquesa. Em 1569 publicou os 25 artigos que todos os cidadãos e estrangeiros eram obrigados a assinar aderindo à doutrina luterana. Ainda em 1789 se decretava pena de morte ao sacerdote católico que ousasse por os pés em solo dinamarquês. (Origem e Progresso da Reforma, página 204, Editora Agir, 1923, em IRC)

    Desde a Reforma, Durante muitos anos apenas o Luteranismo era permitido na Dinamarca, mas em 1682, o Estado reconheceu três outras religiões: a Igreja Católica, a Igreja Reformada e o Judaísmo.

   Escócia - O poder civil aboliu por lei o catolicismo e obrigou todos a aderir à igreja "calvinista presbiteriana". Os padres permaneceram, mas tinham de escolher outra profissão. Quem era encontrado celebrando missa era condenado à morte. Católicos recalcitrantes foram perseguidos e mortos, igrejas e mosteiros arrasados, livros católicos queimados. Tribunais religiosos foram criados para condenar os católicos clandestinos. (Westminster Review, Tomo LIV, p. 453)
Assim está a religião por lá: Igreja da Escócia 42%; ateus/nenhuma 28%; católicos romanos 16%.

   Irlanda - Quando impuseram o protestantismo, os camponeses da Irlanda pegaram em armas para defender o catolicismo. Foram trucidados impiedosamente pelos exércitos de Cromwell. Ao fim da guerra, as melhores terras irlandesas foram entregues aos ingleses protestantes e os católicos forçados à migrar para o sul do continente. Cerca de 1.000.000 de pessoas morreram de fome no primeiro ano do forçado exílio.

   Sob Cromwell mais de cem mil cidadãos foram desterrados, vinte mil vendidos como escravos para a América, seis mil crianças de ambos os sexos lançadas fora da ilha e vendidas. (C. CANTUI, Storia Universale(3), Torino, 1846, t. XVII, p. 395. (Cfr. BERNH. LESKER, Irland's Leiden und Kämpfen, Maiz 1881, p. 36 ss.)
De uma feita, mil donzelas foram arrancadas aos braços de suas mães, levadas a Jamaica e aí expostas ao mercado como escravas. (GUSTAVO DE BEAUMONT, L'Irlande sociale, politique et religieuse(7), Paris, 1863, t. I, p. 75.)

   Isso é só uma pequena amostra da crueldade protestante na Irlanda. Hoje ali o catolicismo triunfou e é a fé de 86,8% dos Irlandeses. http://www.brasilescola.com/geografia/irlanda.htm

   Inglaterra - Foi "convertida" na marra, porque o rei Henrique VIII queria se divorciar da esposa para viver em adultério com outra.  Como a Igreja não consentiu, ele fundou a "sua" igreja protestante, obrigando o parlamento a aprovar o "ato de supremacia do rei sobre os assuntos religiosos".

     Padres e bispos foram presos e decapitados, igrejas e mosteiros arrasados, católicos aos milhares foram mortos. Qualquer aproveitador era alçado ao posto de bispo ou pastor. O povo foi obrigado a ser protestante anglicano. (Macaulay. A História da Inglaterra. Leipzig, tomo I, página 54)

     Hoje, passadas as ameaças, o catolicismo se aproxima de ser maioria novamente ali. Num único dia 400 mil anglicanos se converteram ao catolicismo: http://www.bibliacatolica.com.br/blog/protestantismo/cerca-de-400-mil-anglicanos-descontes-com-canterbury-solicitam-uniao-plena-com-roma/#

    Cinco mil ingleses se convertem ao catolicismo a cada ano, afirma sacerdote britânico, confira: http://www.acidigital.com/noticia.php?id=10375

     Estados Unidos - Os Estados Unidos foram descobertos pelos católicos.
A partir do ano de 1607, começou chegar ali os protestantes ingleses e holandeses para aos poucos ir surrupiando o país. Depois que a Inglaterra surrupiou uma parte e a Holanda outra. A Holanda deu sua parte para a Inglaterra que cresceu os olhos.

    Os ingleses vendo que a economia da colônia mostrava sinais de enriquecimento e vigor, resolveram forçá-la para baixo com a adição de novos impostos e sobre-taxas de produção sobre a fabricação de tintas, vidro, papel e principalmente chá.

     Em 1773, devido à alta dos impostos, ocorreu em Boston a revolta do chá. Samuel Adams e John Dickinson fundaram a Sociedade dos Filhos da Liberdade.

     Após muitas guerras para sair do domínio inglês, finalmente, no dia 3 de setembro de 1783, em Paris, foi assinado o tratado em que os Estados Unidos, representados por John Adams, Benjamin Franklin e John Jay, tiveram sua independência reconhecida, formalmente, pelo Reino da Grã-Bretanha. E aí o protestantismo espalhou-se ali, porque era a religião destes usurpadores. O passo seguinte foi dizimar os nativos em gigantescos massacres. Nos anos 70 eles faziam filmes colocando os índios como bandidos e os dizimavam a bala enquanto o mundo comia pipoca assistindo a isso.

     O Catolicismo nos Estados Unidos da América, cresceu drasticamente durante a história do país, deixando de ter pouca expressão no período colonial para se tornar a maior denominação cristã atualmente. A Igreja Católica contava com cerca de 76,9 milhões de fiéis em 2003 nos EUA, fazendo deste o terceiro país de população católica do mundo em números absolutos, atrás apenas do Brasil e do México, respectivamente. Percentualmente, cerca de 26% dos estadunidenses são católicos, o que torna a Igreja Católica quatro vezes maior do que a segunda denominação cristã do país em número de fiéis, a Southern Baptist Convention (Convenção Batista do Sul).
 

    Finlândia - O cristianismo foi introduzido na Finlândia no século 12, com a Primeira Cruzada do rei da Suécia, Erik o Santo, acompanhado do Bispo de Uppsala, Henrik de origem inglesa, que iniciou a introdução da Igreja Católica na Finlândia. O Bispo Henrik foi martirizado em 1157 e adotado como Santo Padroeiro da Finlândia.

     Em 1556, o Rei Gustavo Vasa da Suécia designou seu filho Juhana como Duque da Finlândia, em 1581 a Finlândia foi transformada em um Grão Ducado e em 1634 foi totalmente incorporada no Reino da Suécia.

     Após a Idade Média, o Rei Gustavo Vasa da Suécia rompeu com a Igreja Católica adotando a religião protestante luterana. (Notaram a jogada?), quando o luteranismo foi adotado pela Suécia, foi introduzido também na Finlândia e declarado religião oficial do país. (Viram só que desrespeito à fé do povo?). A liberdade de culto foi dada somente em 1923. 
 

    Já que deram liberdade aos Finlandeses: os luteranos finlandeses querem fazer parte da Igreja Católica, afirmou o bispo luterano de Helsinki, o reverendo Eero Huovinen, no Congresso Eucarístico Nacional italiano realizado em Bari.

    Disse o bispo luterano que representa 84% da população do país: “Nós, os luteranos finlandeses, desejamos formar parte da Igreja católica de Cristo”. Explicou ainda, que junto aos católicos e outros cristãos luteranos, celebraram em 2005 os 850 anos da Igreja na Finlândia. “Junto às irmãs e aos irmãos católicos, rezamos para poder ser uma só coisa em Cristo”, sublinhou Huovinen, encerrando com a seguinte frase: “A unidade não se realiza sem a verdade e o único caminho é a verdade e a caridade. Desde o fundo de meu coração, quero antecipar o dia no qual luteranos e católicos, juntos, possam unir-se em uma forma visível”. (Fonte: Agência Zenit)

     Detalhe: o bispo luterano Huovinen e os 84% dos luteranos finlandeses, celebraram mesmo foi os 850 anos da Igreja Católica Apostólica Romana na Finlândia, que ele mesmo chama de “igreja católica de Cristo”, pois a igreja luterana (de Lutero) está muito longe de ter essa idade no país.

     Eis o que de fato é o protestantismo. Uma farsa. Aí se vê como o Diabo cria uma religião, do jeito que ele gosta: cheia de mentiras, adultérios, assassinatos e todo tipo de perversidade! Enquanto privavam o povo de ser católico, sopravam-lhes nos ouvidos as mais estapafúrdias calúnias contra a Igreja Católica. Levantamos todos os embustes ao longo dos séculos, confira a Cronologia Universal das Mentiras e Sabotagens Protestantes: 
 

    Aqui no Brasil, alguns líderes de seitas protestantes, desinformados de que estão rapidamente sendo superados pela Igreja Católica porque o povo está se informando, ainda abrem a boca para dizer que pertencem a “religião dos países ricos”, esquecidos que as Escrituras dizem: "O vosso ouro e a vossa prata estão enferrujados e a sua ferrugem testemunhará contra vós e devorará as vossas carnes" ( Tg 5, 2-3 ).

     E assim encerramos o blefe daqueles que por ignorância, vivem a lamentar por não ter sido colonizado pelos protestantes. Saudações da África do Sul, Índia, Nigéria, Botswana, Jamaica, Bahamas, Guiana e São Vicente e Granadinas.
 
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      Autor do levantamento sobre os países: Dr. Udson Rubens Correia do www.veritatis.com.br / “A Infância Negra do Protestantismo, Como se Expandiu a "REFORMA" no Século XVI E XVII?”

     Pesquisa complementar: Fernando Nascimento
Fontes ao longo do texto.
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sábado, 6 de setembro de 2014

O Tratado "De Cura pro Mortuis Gerenda"
(O Cuidado Devido aos Mortos)
Escrito por Santo Agostinho no ano 421 dC.



Agostinho é considerado um dos mais celebres escritores, teólogos e pregadores da Historia do cristianismo, o protestantismo tem suas bases afincadas na teologia agostiniana. Ele foi sem duvida o grande formador do pensamento cristão ocidental, tanto do catolicismo como do protestantismo, ele é reconhecido e admirado pela cristandade oriental e viveu e pregou sua conversão, entregou-se ao cristianismo com amor e afinco e fez eclodir a verdade num tempo onde a Igreja ainda era indivisa, e permanecia unida na mesma cátedra, navegando na  mesma nau.
Agostinho foi o teólogo defensor da unidade da Igreja, da Graça, da Trinadade e suas cartas e escritos marcariam a historia cristã.
O tratado "De Cura pro Mortuis Gerenda" (O Cuidado Devido aos Mortos) foi escrito por Agostinho no ano 421 DC., como resposta a uma consulta feita pelo bispo Paulino de Nola, a respeito da vantagem de se sepultar um cristão junto ao túmulo de um martire.
Embora a pergunta fosse, de certa forma, simples, Santo Agostinho aborda uma série de fatos marcantes e interessantes a respeito dos mortos, que até hoje são conservados e respeitados pela Igreja. Entre outras coisas, fala da utilidade da oração pelos mortos, a possibilidade da aparição dos mortos aos vivos (através do ministério dos anjos ou por permissão direta de Deus), a oração dos santos falecidos a nosso favor, o dia que a Igreja dedica a todos os falecidos (Dia de Finados), e faz referencia aos livros deuterocanonicos de Tobias, Macabeus e Eclesiástico, provando que esses livros faziam parte do cânon bíblico da Igreja, e mostrando que a igreja e o judaísmo possuíam um Velho testamento diferente. Isso nos prova que o cristianismo foi alto suficiente para definir seu próprio cânon, igreja e sinagoga seguiram caminhos opostos, a igreja vive a lei perfeita de Jesus e a sinagoga mergulha o homem na lei farisaica.
É obrigatória a leitura desta obra por todos os cristãos de boa vontade; podemos crer que, se Lutero e Calvino - grandes admiradores de Santo Agostinho (agostinianismo) - tivessem lido este tratado com o cuidado que merece (se é que tiveram acesso a ele), certamente o protestantismo não teria se afastado tanto da belíssima doutrina da Comunhão dos Santos, verdade bíblica conservada desde o princípio pela Igreja de Cristo. e também não teria mutilado as divinas Escrituras.
A verdade realmente é contundente e inegável, ler esta obra é viver o período e a fé da Igreja indivisa, do seu Cânon verdadeiro da Bíblia e compartilhar da verdadeira crença teológica da Igreja do Senhor.
Cabe ressaltar que Agostinho escreveu este Tratado aproximadamente 1100 anos antes da reforma, ou seja, de qualquer ser protestante existir sobre a face da terra!!!
Essa é uma verdade inegável!!!

Inicio do Tratado

CAPÍTULO I

Caríssimo Paulino, meu irmão no Episcopado: há muito devo-te uma resposta... Devo-a desde que me enviaste uma carta - através dos familiares da nossa piedosíssima irmã, Flora - onde me perguntavas se o cristão lucra algo para si se for sepultado próximo à sepultura de algum santo. Essa questão fora-te feita pela própria viúva que acabo de citar, em razão do seu falecido filho, enterrado em alguma parte da sua capela. Para a consolar, disseste que tal voto já havia se concretizado para o seu jovem filho, Cinérgio, em razão do carinho que a mãe nutre para com seu filho, pois fora ele sepultado na Basílica do bem-aventurado Félix, confessor da fé.
Tendo os mensageiros trazido a carta de resposta a Flora, aproveitaste para me interrogar por escrito sobre tal prática, pedindo o meu parecer sem esconder o que sentes.
Como me dizes, achais que não é coisa vã o sentimento que leva pessoas fiéis e religiosas a tomarem tal cuidados com os seus falecidos. Adiantas, ainda, que não é sem motivo que a Igreja universal mantém o costume de orar pelos mortos. Assim, pode-se concluir que é útil para o homem, após sua morte, ter uma sepultura desse gênero, providenciada pela piedade [de seus familiares], onde possa contar a proteção dos santos.
Caro Paulino: consideras que, caso a opinião que diz ser útil sepultar os entes queridos junto à sepulturas de santos seja verdadeira, então existe uma controvérsia com relação às palavras do Apóstolo que diz: "Todos nós certamente nos apresentaremos diante do tribunal de Cristo, para recebermos a retribuição de acordo com aquilo que fizemos durante nossa vida corporal, seja para o bem ou para o mal"1
De fato, a sentença do Apóstolo exorta-nos que é antes da morte que podemos fazer o que seja útil para depois dela e não depois que ela ocorre, quando recolhemos os frutos que praticamos durante a vida.
A questão então é resolvida da seguinte maneira: enquanto vivemos neste corpo mortal, há uma certa forma de viver que permite, após a morte, obter certo alívio através das obras pias feitas em seu sufrágio. Porém, tal ajuda será proporcional ao bem que cada um de nós fizemos durante a vida.
Para alguns, tais auxílios são totalmente inúteis, pois a conduta destes durante a vida foi tão má que simplesmente se tornaram indignos de os aproveitarem. Também existem outros que viveram de forma tão irrepreensível que não têm necessidade desses socorros. Assim, é através do modo de vida que cada um levou durante a existência corpórea, que se determina a utilidade ou inutilidade desses auxílios que lhes são piedosamente dedicados após a morte. Se o mérito da proveitosidade foi nula durante a vida, permanecerá estéril também após a morte.
Contudo, isso não significa que a Igreja e os fiéis perdem seu tempo, ao inspirar, pela religião, o piedoso cuidado aos defuntos - ainda que seja verdade que cada um receberá de acordo com o que praticou de bom ou de mau durante a sua vida, já que o Senhor retribui a cada um conforme as suas obras; logo, para que o cuidado tomado em relação a um ente querido seja-lhe útil após sua morte, é necessário que essa pessoa tenha adquirido a faculdade de torná-lo útil ainda durante o tempo em que viveu no seu corpo.
Esta resposta seria suficiente para a pergunta que me fizeste, mas creio que ela acaba gerando outras questões que preciso também abordar. Peço-te, assim, atenção! Lemos, no livro dos Macabeus2, que foi oferecido um sacrifício pelos mortos. Ainda que não encontremos em qualquer outra parte do Antigo Testamento uma outra referência a esse respeito, não podemos substimar a autoridade da Igreja universal, que manifesta esse costume, pois, nas preces que o sacerdote dirige ao Senhor Deus junto ao altar, existe espaço especialmente reservado para a encomendação dos falecidos.

CAPÍTULO II

Convém examinar se o lugar onde alguém foi sepultado exerce alguma influência sobre a alma. Mas, primeiro, vejamos se existe algum efeito o fato de deixar um corpo sem sepultura, seja para o início ou para o aumento das penas no além. Julguemos, pois, esta questão fundamentando-se nas Sagradas Escrituras da nossa religião e não conforme a crendice popular.
Não devemos crer, como lemos em Virgílio, que os mortos insepultos não podem navegar nem atravessar na barca do rio do Hades, confome esta passagem da Eneida: "Não lhes é permitido passar para além dessas horríveis margens e desse rio de ruído assustador, até que seus ossos não recebam uma morada tranquila"3.
Que inteligência cristã poderia crer em tais fábulas e ficções se o próprio Senhor Jesus, ao tranquilizar os cristãos que viriam a cair nas mãos e poder de seus inimigos, afirmou que nenhum só fio de cabelo de sua cabeça se perderá4 e os exortou a não temer aqueles que matam o corpo e nada mais podem fazer [contra a alma]5?
Já falei muito sobre isso no primeiro livro da minha obra "A Cidade de Deus"6, para calar a boca dos pagãos que nos acusam, como cristãos que somos, como responsáveis pelas devastações promovidas pelos bárbaros, especialmente aquelas sofridas por Roma, e alegam que Cristo não nos socorreu nessa ocasião. Ao explicarmos que Cristo acolheu as almas dos fiéis conforme o mérito de sua fé, eles nos insultam dizendo que muitos cadáveres ficaram sem sepultura. Eis o que trato a esse respeito - quanto ao lugar do sepultamento - na citada obra:
"Naquela espantosa quantidade de cadáveres, quantos fiéis devem ter ficado sem sepultura? Contudo, tal infortúnio é pouco temido pela fé viva, que tem por certa que os animais nada podem fazer contra a ressurreição dos corpos de suas vítimas e delas não perecerá um só fio de cabelo da cabeça7. A Verdade afirmaria: 'Não temais aquele que mata o corpo e não pode matar a alma'8, se a engenhosa crueldade dos assassinos pudesse eliminar nos corpos dos inimigos a semente da vida futura? Haveria alguém tão insensato que acreditasse que os inimigos não devem ser temidos antes da morte, mas apenas depois, por privá-lo de uma sepultura? Se fosse possível fazer tal mal aos cadáveres, então as palavras de Cristo: 'não temais aquele que mata o corpo e não pode matar a alma' seriam falsas. O quê? As palavras da Verdade falsas? Que se afaste de nós tamanha blasfêmia! Está escrito que os assassinos dispõem de tal poder no momento de matarem porque o corpo é sensível ao golpe da morte, mas, em seguida, nada mais podem fazer pois o cadáver é desprovido de qualquer sensibilidade. É verdade que a terra não recebeu o corpo de grande quantidade de cristãos, mas, mesmo assim, ninguém separou a terra do céu, pois ela está cheia da presença d'Aquele que sabe de onde chamar à vida para aquilo que criou. Bem diz certo Salmo: 'Deram os corpos de teus servos como pasto para as aves do céus e as carnes dos teus santos aos animais da terra. Derramaram o sangue deles como água à roda de Jerusalém e não havia quem os sepultasse'9. Mas o Salmista diz isso mais para exagerar a crueldade dos carrascos do que para lamentar o infortúnio das vítimas. 'É preciosa aos olhos do Senhor a morte dos seus santos'10. Assim, as providências quanto ao funeral, a escolha da sepultura, a pompa do enterro, etc., é mais consolo para os vivos do que alívio para os mortos. O quê? Poderiam os ímpios se aproveitarem das honras fúnebres? Se sim, realmente seria um infortúnio para o justo possuir uma sepultura pobre ou até mesmo não a possuir. Se para os olhos dos homens grande número de escravos realiza magnífico cortejo fúnebre para o rico impiedoso11, brilham muito mais para os olhos de Deus as exéquias que o ministério de anjos ofereceram ao pobre Lázaro, todo coberto de úlceras. Para seus restos mortais, não foi erguido um túmulo de mármore, mesmo assim, foi levado para o seio de Abraão. Vejo rindo aqueles contra quem defendo a Cidade de Deus... Contudo, até mesmo seus próprios filósofos menosprezaram a preocupação com o sepultamento e, muitas vezes, exércitos inteiros pouco se preocuparam com o lugar onde seus corpos haveriam de jazer - ao morrerem por sua pátria -, mesmo sabendo que os animais se alimentariam deles. Desta forma, puderam os poetas dizer, com aplausos: 'A quem faltou o sepulcro, o céu serve de proteção'12. Portanto, que loucura é essa de ultrajar os cristãos por terem deixado corpos insepultos, se aos fiéis foi prometido que a carne e os membros - deixados sobre a terra ou dispersos pelo interior de outros elementos - hão de retornar à vida, num piscar de olhos, sendo restituídos à anterior integridade, como foi prometido por Deus?13".

CAPÍTULO III

Mesmo assim, isso não é justificativa para abandonar sem cuidados os despojos dos falecidos, principalmente dos justos e fiéis, que são órgãos e instrumentos do espírito para toda boa obra. Se a roupa, o anel ou qualquer outro objeto pertencente ao pai é precioso para os filhos, muito mais terna é a piedade filial. Acaso o corpo não merece mais cuidados por estar muito mais intimamente ligado a nós do que a roupa, seja ela qual for? Logo, o corpo não é mero ornamento exterior do homem, mas parte de sua natureza humana. Este é o verdadeiro motivo dos deveres de piedade solenemente prestados aos antigos justos, a pompa de suas exéquias, os cuidados com suas sepulturas e as ordens que eles mesmos, quando vivos, davam a seus filhos, para sepultá-los ou transladá-los uma vez mortos14.
De acordo com o testemunho do anjo [Anjo Rafael descrito no Livro de Tobias], Tobias atrai sobre si as bênçãos de Deus devido a seu cuidado para com os mortos15. O próprio Nosso Senhor, que ressuscitará no terceiro dia, divulga a boa ação da santa mulher que lhe unge com precioso perfume, como que para sepultá-lo antecipadamente16. Também o Evangelho recorda com louvores aqueles que receberam piedosamente o Corpo, à descida da cruz, cobrindo-o com o sudário e depositando-o no sepulcro17.
De forma alguma, tais exemplos não provam que os cadáveres conservam algum tipo de sensibilidade. Mas provam que a Providência de Deus vela os despojos dos falecidos e esses deveres de piedade lhe são agradáveis, por demonstrarem a fé na ressurreição.
Além disso, existe salutar ensinamento para nós: ainda que Deus retribua abundantemente as nossas esmolas prestadas a criaturas vivas e dotadas de sensibilidade, também aos olhos de Deus nada se perde pela nossa caridade prestada aos restos inanimados dos homens.
É certo que os santos patriarcas deixaram, por inspiração profética do Espírito, outras recomendações sobre o sepultamento e a transladação de seus corpos, porém, não é oportuno aprofundarmos em tais mistérios neste momento. Basta, então, o que acabamos de dizer.
Se é verdade que a falta de coisas necessárias para a manutenção da vida - como o alimento e o vestuário - são provações cruéis, mas impotentes contra a corajosa paciência do homem virtuoso, longe de afastar a piedade do seu coração, como poderia, então, que a falta das solenidades fúnebres costumeiras, perturbasse o repouso de tal alma na santa e bem-aventurada mansão? "E que os últimos deveres tenham faltado aos cristãos na desolação de Roma ou de outras cidades, isto pouco importa: não foi falta dos vivos, que nada puderam fazer; nem infortúnio para os mortos, que nada puderam sentir"18.
Tal é a minha opinião sobre a causa e a razão de ser das sepulturas. Se extraí essa passagem de algum dos meus livros para colocá-la aqui, é porque me pareceu mais simples retomá-la do que exprimir em outras palavras as mesmas idéias.

CAPÍTULO IV

Como esses princípios acima elencados são justos, não deixa de ser marca dos bons sentimentos do coração humano escolher para seus entes queridos que serão sepultados um lugar próximo aos túmulos dos santos.
Já que o sepultamento é, por si mesmo, uma obra religiosa, a escolha do local não poderia ser estranha ao ato religioso. É consolo para os vivos, uma forma de testemunhar sua ternura para com os familiares desaparecidos. Não enxergo, porém, como os mortos podem encontrar aí alguma ajuda, a não ser quando o lugar onde descansam é visitado e são encomendados, pela oração [dos visitantes], à proteção dos santos junto ao Senhor. Contudo, isso pode ser feito ainda quando não é possível sepultá-los em tais lugares santos...
Se é verdade que denominam de "Memorial" ou "Monumento" aos sepulcros vistosamente construídos, fazem-no, na verdade, para trazer à memória aqueles que, pela morte, foram subtraídos aos olhos dos vivos. Isto é feito para que as pessoas continuem a se lembrar deles, para que não aconteça de, tendo sido retirados da presença dos vivos, também sejam retirados do coração pelo esquecimento. Aliás, o termo "Memorial" indica claramente esse sentido de recordação, da mesma forma como "Monumento" significa "o que traz à mente", ou seja, o que a faz recordar. Eis o motivo pelo qual os gregos chamam de "mnemeion" ao que chamamos de "memoria" ou "monumentum". Na língua deles, "mnème" significa "memória", a faculdade com a qual recordamos.
Assim, quando o pensamento de alguém se concentra sobre o lugar onde o corpo de um ente querido jaz e esse local esteja consagrado pelo nome de um mártir venerável, então a afeição amorosa recorda-se e reza, recomendando o falecido querido a esse mártir.
Não se pode duvidar de que essas súplicas, feitas pelos fiéis em nome dos seus caros defuntos, são úteis a estes caso apenas tenham merecido - durante a vida - beneficiar-se após a morte. Ainda que se suponha que alguma circunstância impediu o sepultamento ou que não foi dada a autorização para sepultar num desses locais sagrados, não será por isso que deveremos negligenciar as orações pelos falecidos.
A Igreja tomou para si o encargo de orar por todos aqueles que morreram dentro da comunhão cristã e católica. Ainda que não conheça todos os nomes [de seus fiéis defuntos], ela os inclui numa comemoração geral19. Dessa forma, aqueles que não possuem mais pais, filhos ou outros parentes e amigos para auxiliá-los, são amparados pelo sufrágio dessa piedosa Mãe comum.
Julgo, porém, que caso esses sufrágios pelos mortos sejam feitos sem verdadeira fé e piedade, de nada valeria ao espírito deles que seus corpos sem vida se encontrassem sepultados nos lugares mais santos.

CAPÍTULO V

Aquela mãe cristã de que me falaste desejou que o corpo de seu filho fosse depositado na basílica de um mártir por ter aquele expirado na fé. É que ela acreditava que a alma do finado poderia ser ajudada pelos méritos desse mártir. Essa fé, a seu modo, já era uma súplica; e súplica útil, se admitirmos isso, à medida em que voltar o seu pensamento frequentemente em direção a esse túmulo e, cada vez mais, recomendar o filho em suas orações... e é isto o que realmente será útil para a alma do finado. O que vale não é o lugar onde o corpo está enterrado, mas a viva afeição da mãe, revivificada pela lembrança desse lugar. A isso, devemos acrescentar que o objeto de sua afeição e o pensamento do santo protetor contribuirão bastante para tornar mais fecunda sua oração e piedade.
Ocorre que aqueles que oram impõem a seus membros uma posição condizente com a oração: ajoelham-se, estendem as mãos, prostram-se no chão e praticam outros gestos do gênero. É certo que Deus conhece-lhes a verdade oculta e a intenção do coração, e não tem a necessidade desses sinais sensíveis para penetrar no íntimo da consciência humana. Entretanto, é por essas demonstrações que a pessoa estimula-se a si mesma a orar e gemer com mais humildade e fervor. Ainda que os gestos corporais não se produzam sem o movimento interior da alma, esses atos externos e invisíveis aumentam - não sei como - o ato interior e invisível.
Ainda que estivesse impedido ou impossibilitado de os realizar com seus próprios membros, isso não imcapacitaria o homem interior de orar. Deus o vê, contrito e arrependido, prostrar-se no santuário secreto do seu coração.
De forma análoga, podemos dizer que o local de sepultamento é, por certo, de grande importância para aquele que encomenda a Deus a alma do morto querido, desde que a oração seja vivificada pelo espírito interior, já que foi o sentimento interno do coração que escolheu com antecedência o lugar santificado para o sepultamento. E esse local, após receber o corpo, renova e aumenta o sentimento interior, que foi o princípio de tudo, pelas lembranças que suscita.
Contudo, se tão piedosa pessoa não consegue sepultar aquele que ama no lugar onde desejaria por inspiração cristã, ela não deve, por isso, suprimir as orações necessárias para a encomendação do defunto. Pouco interessa se aqui ou ali está um corpo sem vida: o essencial é que a alma encontre seu repouso. Deixando este mundo, ela leva conscientemente consigo o tipo de sorte que lhe está reservada, se a felicidade ou o infortúnio.
Não é da carne que a alma espera ajuda para a sua vida futura. É ela que lhe comunicava a vida na terra. Ao partir, ela retirou a vida; ao voltar20, a devolveria. É a alma que prepara para a carne o que lhe será devido no momento da ressurreição, e o corpo ela o fará revivificar, seja para o castigo ou para a glória.

CAPÍTULO VI

Lemos na "História Eclesiástica" de Eusébio, escrita em grego e traduzida para o latim por Rufino, o seguinte acontecimento: na Gália, os corpos dos mártires de Lião foram atirados aos cães. A carne e os ossos que restaram foram reduzidos a cinzas, até a última parcela, e foram jogadas finalmente no rio Ródano, para que não sobrasse nada de sua memória.
Ora, devemos crer que se Deus permitiu tal destruição é para demonstrar aos cristãos que, ao confessarem a Cristo, desprezando esta vida, os mártires devem desprezar ainda mais a sepultura, pois se a detestável crueldade com que foram tratados os corpos desses mártires pudesse afastar do bem-aventurado repouso a alma vitoriosa, Deus certamente não o teria permitido. Está bem claro o que o Senhor afirmou: "Não temais os que matam o corpo e depois nada mais podem fazer"21. Isso não significa que os perseguidores perderiam o poder sobre o corpo dos fiéis após a morte, mas ainda que detivessem tal poder, nada mais podiam fazer para diminuir a felicidade das suas vítimas, pois já não podiam atingir a vida consciente delas no além-túmulo e também não podiam danificar mais os próprios corpos, do ponto de vista da integridade da sua ressurreição.

1cf. 2Cor 5,10.
2cf. 2Mc 12,43.
3Virgílio, "Eneida" VI,327-328: "Nec ripas datur horrendas, nec rauca fluenta transportare prius quam sedibus ossa quierunt".
4cf. Mt 10,30.
5cf. Lc 12,4.
6cf. Sto. Agostinho, "A Cidade de Deus" I,12-13.
7cf. Lc 21,18.
8cf. Mt 10,28.
9cf. Sl 78,2-3.
10cf. Sl 115,15.
11v. Lc 16,22.
12Lucano, "Farsália",VIII: "Coelis tegitur, qui non habet urnam".
13cf. 1Cor 15,52.
14cf. Gn 25,9; 35,29; 47,30; 50,2.13.
15cf. Tb 2,9; 12,12.
16cf. Mt 26,10-13.
17cf. Jo 19,38-42.
18Sto. Agostinho, "A Cidade de Deus" I,12-13.
19Clara menção à Missa de Finados.
20Através da ressurreição.
21Lc 12,4.

CAPÍTULO VII

Existe no coração humano um sentimento natural que não permite ninguém detestar sua própria carne21. Assim, se alguém vem a saber que, após sua morte, seu corpo não receberá as honras de sepultura, conforme o costume da cada raça e nação, sente-se perturbado como homem. Teme que seu corpo, antes da morte, não atinja o destino pretendido após a morte.
É isto que lemos no livro dos Reis22, quando Deus envia um profeta a outro profeta (um homem de Deus) que havia transgredido a Sua Palavra, para anunciar-lhe que seu corpo, como castigo, não seria levado à sepultura de seus pais. Eis o que diz as Escrituras: "Aquele profeta disse ao homem de Deus que tinha vindo de Judá: 'Eis o que diz o Senhor: porque não obedeceste à Palavra do Senhor e não guardaste o mandamento que o Senhor, teu Deus, havia te imposto, voltando e comendo pão e tomando água, o teu cadáver não será levado ao sepulcro de teus pais'".
Medindo a importância desta punição em relação ao Evangelho - onde está escrito que, estando morto o corpo, os membros nada devem temer - não podemos dizer que isso tenha sido uma punição, exceto se considerarmos o amor que todo homem tem por sua própria carne: o profeta, em vida, com certeza sentiu temor e tristeza com a idéia de um tratamento que não poderia sentir após a morte. E era justamente essa a sua punição; esse sentimento de dor diante da idéia do que sofreria o seu corpo, ainda que, de fato, não viesse a sofrer em absoluto no momento em que a ameaça se concretizasse.
Ora, o Senhor quis apenas punir a desobediência do seu servo, não por má vontade, mas por ter sido enganado pela mentira de um outro profeta. Não se pode pensar que a mordida da fera selvagem o tenha matado para que a sua alma fosse lançada no Inferno, pois o mesmo leão que o agredira montou guarda de seu corpo, sem fazer mal algum ao jumento que assistia destemidamente ao funeral do seu dono, ao lado da terrível fera. Esse fato notável é sinal de ter sofrido o profeta tal morte como castigo temporal e não como punição eterna.
O Apóstolo lembra que muitos são punidos com doença ou morte por causa de seus pecados, fazendo esta observação: "Se nos examinássemos a nós mesmos, não seríamos julgados; mas com seus julgamentos, o Senhor nos corrige, para que não sejamos condenados com o mundo"23.
O velho profeta, que enganara o homem de Deus, sepultou-o com muita honra e tomou os procedimentos necessários para que, mais tarde, ele mesmo fosse sepultado junto a aquele. Esperava que aqueles ossos encontrariam graça quando chegasse o tempo em que, conforme a profecia do homem de Deus, Josias, rei de Judá, exumaria os ossos de muitos mortos para profanar com eles os altares sacrílegos erguidos aos ídolos. Contudo, passados mais de 300 anos, Josias poupou o sepulcro onde havia sido enterrado o homem de Deus que predissera esse fato. E, assim, graças a esse homem de Deus, a sepultura do profeta que o enganara não foi violada.
O efeito que leva alguém a odiar a própria carne24, o havia feito prever o destino do seu corpo, mesmo tendo matado sua alma por uma mentira. Cada um ama sua própria carne por instinto. Assim, um profeta sofreu à idéia de que não iria repousar no sepulcro de seus pais e o outro tomou o cuidado de prover à segurança de seus ossos, fazendo-se enterrar em sepulcro que ninguém haveria de violar.

CAPÍTULO VIII

Porém, os mártires venceram esse apego ao próprio corpo, em sua luta pela verdade. Não é de surpreender que tenham desprezado as honras reservadas aos seus despojos. Só estariam insensíveis a elas após a morte, pois enquanto viviam e tinham sensibilidade, não se deixaram vencer pelo suplício.
O Senhor não permitiu ao leão tocar no cadáver daquele homem de Deus, morto por essa mesma fera assassina que logo depois se tornou seu guardião25. Do mesmo modo, Deus poderia, se quisesse, ter afastado os cadáveres de seus fiéis dos cães aos quais foram jogados. Ele poderia, de mil maneiras, dominar a crueldade dos carrascos, impedindo-os de queimar aqueles corpos e dispersar suas cinzas. Porém, foi necessário que essa provação se acrescentasse ainda à múltipla diversidade das tribulações, a fim de que a firmeza da ferocidade da perseguição, armada contra o corpo deles, não temesse diante da privação das honras fúnebres do sepultamento.
Em outras palavras: era necessário que a fé na ressurreição não fosse abalada pela destruição do corpo. Logo, todas essas provações foram permitidas para que os mártires, após demonstrarem tão grande coragem nos sofrimentos, se tornassem ainda mais fervorosos para confessar a Cristo, tornando-se testemunhas também desta verdade: os que matam o corpo, nada mais podem fazer26. Qualquer que seja o tratamento imposto aos corpos sem vida, em nenhum efeito resultará pois sendo o corpo desprovido de vida, que se separou dele, nada mais pode sentir. E aquele que o criou nada pode perder.
Mas enquanto tratavam com tanta crueldade os corpos das vítimas - e os mártires suportavam com grande coragem tais tormentos - entre os irmãos erguia-se grande lamentação. Estavam aflitos por não terem a liberdade para prestar os deveres fúnebres aos santos, como é de justiça. A vigilância dos guarda proibia-os de subtrair às escondidas algum resto mortal desses mártires, como nos atesta a mesma História27.
Após sua morte, os mártires não padeciam mais nenhum sofrimento, nem mesmo do esfacelamento dos seus membros, nem das chamas que transformaram em cinzas os seus ossos, e nem da dispersão destas cinzas. Mas os cristãos eram atormentados por grande dor e piedade por não poderem sepultar a mínima porção de suas relíquias. Eles sentiam em sua misericordiosa compaixão todos os sofrimentos que aqueles mortos não mais podiam experimentar.

CAPÍTULO IX

Foi graças a esse sentimento de misericordiosa compaixão, que acabo de citar, que o rei Davi louvou e bendisse aqueles que caridosamente forneceram uma sepultura aos ossos secos de Saul e Jônatas28.
Mas que tipo de caridade se pode testemunhar para com aqueles que nada mais sentem? Seria, por acaso, retornar àquela concepção de que os falecidos privados da sepultura não podem cruzar o rio do Hades29? Rejeitamos essa idéia contrária à fé cristã! De outra maneira, teríamos que considerar que o pior castigo imposto aos mártires fora justamente o fato de terem sido privados da sepultura e, nesse caso, a Verdade os teria enganado ao dizer: "Não temais aqueles que matam o corpo e depois disso nada mais podem fazer"30, pois seus perseguidores teriam conseguido impedir-lhes de chegar à morada tão desejada.
Isso tudo é de uma falsidade evidente: os fiéis nada sofrem por estarem privados da sepultura da mesma forma como os infiéis nada aproveitam por a receberem.
Perguntemo-nos, então, por que aqueles que enterraram Saul e seu filho Jônatas foram louvados, por executarem uma obra de misericórdia, e abençoados pelo piedoso rei Davi31...
Ocorre que os corações piedosos obedecem a uma boa inspiração quando, levados pelo sentimento de que "ninguém odeia a própria carne"32, sofrem ao verem os cadáveres dos outros receberem maus cuidados, pois não gostariam que seu próprio corpo sem vida recebessem tal tratamento. E o que desejam que lhes proporcionem quando não mais existirem, cuidam de proporcionar aos que já não existem, enquanto eles mesmos ainda gozam dos sentidos.


21cf. Ef 5,29.
22cf. 1Rs 13,21-22.
23cf. 1Cor 11,31-32.
24v. nota 21.
25cf. 1Rs 13,24.
26cf. Lc 12,4.
27Eusébio de Cesaréia, "História Eclesiástica" V,1,61.
28cf. 2Sm 2,4-6.
29Virgílio, "Eneida" VI.
30v. nota 26.
31v. nota 28.
32v. nota 21.

CAPÍTULO X

Também nos são relatadas várias aparições, que não podemos neglengenciar de abordar na presente dissertação.
Fala-se que certos falecidos manifestaram-se a pessoas vivas durante o sono ou através de outro modo. E à essas pessoas, que ignoravam o lugar onde jazia os cadáveres insepultos, os mortos indicavam os lugares e pediam para que lhes providenciasse a sepultura da qual foram privados.
Dizer que tais visões são falsas parece-nos afrontar e contradizer testemunhos escritos de alguns autores cristãos, bem como a íntima convicção que têm as pessoas que testemunharam tais fatos. Eis, portanto, a resposta mais sensata: não é necessário pensar que os falecidos agem na realidade, quando parecem dizer, indicar ou pedir em sonho aquilo que nos é relatado, pois muitas vezes as pessoas vivas também aparecem em sonhos, sem disso terem consciência. E será dessas mesmas pessoas a quem apareceram nos sonhos que saberemos terem dito ou feito tal ou tal coisa durante a visão... Portanto, alguém pode me ver, durante o sonho, anunciando certo acontecimento passado ou predizendo um fato futuro, sendo que eu mesmo ignore totalmente a coisa, sem poder questionar o próprio sonho que o outro teve, ou se ele estava acordado enquanto eu dormia, ou se ele dormia enquanto eu estava acordado, ou se nós dois estávamos dormindo ou acordados ao mesmo tempo ao ter ele o sonho em que me via.
Logo, o que há de estranho nos vivos verem os mortos em sonhos, que nada sabem ou sentem, dizendo certas coisas que, ao acordarem, percebem que são verdadeiras? Eu estou mais inclinado a crer na mediação dos anjos, que receberiam do alto a permissão ou a ordem de se manifestarem em sonhos para indicar os corpos a serem enterrados, sendo que aqueles que viveram nesses corpos tudo ignoram a esse respeito.
Essas aparições podem ter sua utilidade, seja para o consolo dos vivos - que vêem a imagem dos seus falecidos queridos - seja para recordar aos homens o dever de humanidade que é o sepultamento dos falecidos. Isso não traz auxílio para os mortos, mas a sua negligência poderia ser classificada de impiedade culposa.
Algumas vezes ocorrem visões que levam a cometer erros grosseiros aqueles que as tiveram. Imaginemos alguém que teve o mesmo sonho que Enéas33... O poeta afirma ter visto no Inferno, em visão poética e falaciosa, a imagem de um morto que não fora sepultado e põe a mensagem na boca de Palinuro; e quando Enéas acorda, procura e encontra o corpo do defunto no exato lugar em que jazia, como soubera pelo aviso que teve no sonho, e o sepulta conforme o pedido que recebera no mesmo sonho. Como a realidade era igual à que teve no sonho, passou a crer que é necessário sempre enterrar os mortos para que seja permitido às almas atingirem a sua última morada. Sonhou, assim, que as leis do Inferno nos impedem de entrar na morada eterna enquanto os nossos corpos não recebem uma sepultura. Ora, se algum homem adotar tal crença, não estará ele se afastando demais do caminho da Verdade?
CAPÍTULO XI

O homem é tão fraco que crê que viu a alma de alguém caso este morto lhe apareça em sonho. Mas se sonha com uma pessoa viva, fica-se demonstrado que não viu nem o corpo nem a alma dela, mas somente a sua imagem, como se os mortos não pudessem aparecer do mesmo modo que os vivos, sob a forma de imagens semelhantes.
Eis a narração de um fato que ouvi em Milão: certo credor reclamava o pagamento de um dívida e exibia a cautela assinada por um senhor recém-falecido ao seu filho, que ignorava que o pai havia efetuado o pagamento do empréstimo [antes de falecer]. O jovem, muito aborrecido, estranhava o fato de seu pai não ter-lhe falado nada sobre a existência dessa dívida, embora o testamento tenha sido feito. Em sua extrema angústia, eis que vê o seu pai aparecer-lhe em sonho indicando o lugar onde se encontrava o recibo que anulava a cautela; ao encontrar o recibo, mostrou-o ao credor e anulou a reclamação mentirosa, recuperando o documento assinado que não fora devolvido a seu pai quando do pagamento da dívida.
Eis aí um fato em que se supõe que a alma do defunto tenha se preocupado com o seu filho, vindo a seu encontro enquanto dormia, para avisar-lhe o que este ignorava, livrando-o de uma séria preocupação.
Praticamente na mesma época em que me contaram esse fato, enquanto eu ainda residia em Milão, aconteceu a Eulógio, ótimo professor de Cartago e meu discípulo nessa arte, como ele mesmo me recordou, o seguinte acontecimento (que ele próprio me narrou quando retornei à África): ele estava fazendo um curso sobre as obras de Cícero e preparava uma lição sobre certa passagem obscura que não conseguia compreender. Tal preocupação não o deixava dormir, mas eis que, de repente, eu lhe apareço durante o sono e explico-lhe as frases que lhe eram incompreensíveis. Ora, certamente não era eu, mas a minha imagem - sem eu o saber! Eu estava bem longe, do outro lado do mar, ocupado com um outro trabalho ou talvez dormindo, sem sentir qualquer tipo de preocupação com as dificuldades dele...
Como, então, se produziram tais fenômenos? Não sei. Mas seja como for, por que razão devemos acreditar que os mortos nos aparecem em sonhos, na mesma forma de imagem, como acontece com os vivos? Uns e outros ignoram completamente serem objeto de aparições e também não se preocupam em saber para quem, onde e quando aconteceram.

CAPÍTULO XII

Algumas visões, ocorridas durante o estado de vigília, são semelhantes aos sonhos. Acontecem a pessoas que estão com os sentimentos conturbados, como os frenéticos e os loucos de todo gênero. Conversam consigo mesmos, como se falassem com outras pessoas presentes ou ausentes, vivas ou falecidas, cujas imagens aparecem-lhes à frente dos olhos. Mas os vivos não sabem que essas pessoas imaginam estar conversando com eles, já que de fato não se encontram lá, nem falam nada. Essas visões imaginárias surgem da perturbação dos sentidos. Do mesmo modo, aqueles que já deixaram esta vida aparecem a pessoas que têm o cérebro perturbado, como se estivessem presentes, sendo que, de fato, não estão lá, mas bem longe, e nem supõem que alguém tenha percebido as suas imagens em uma visão imaginária.
Abordemos um outro fato semelhante: existem pessoas que ficam sem o domínio dos sentidos ainda mais do que ao dormir. Absorvidas que ficam em suas visões imaginárias, julgam ver vivos e mortos. Ao retornar ao uso da razão, declaram os nomes dos falecidos que viram, e as pessoas que os escutam acreditam que realmente tal fato se verificou. Os ouvintes, contudo, não percebem que nessas mesmas visões apareceram pessoas vivas que não estiveram lá de verdade e que sequer souberam do ocorrido.
Isso aconteceu com um homem chamado Curma, habitante de Tullium, município próximo a Hipona, que era membro do Conselho Municipal, pequeno magistrado da aldeia e simples camponês. Caindo doente, entrou em profundo estado de letargia e ficou como que morto durante vários dias; como exalava pouquíssimo ar pelas narinas, indicando um grau mínimo de vida, não foi sepultado; mas não mexia nenhum membro e seus olhos e outros sentidos permaneciam insensíveis a qualquer tipo de estímulo. Mesmo assim, tinha visões como aqueles que dormem e as contou alguns dias depois, quando se libertou do sono. Assim disse quando abriu os olhos: "Vão imediatamente à casa do Curma ferreiro e vejam o que está acontecendo por lá". Ao chegarem lá, ficaram sabendo que esse Curma havia falecido no exato momento em que o primeiro saía do estado letárgico e retornava à vida com sentidos. Interessados pelo ocorrido, os assistentes interrogaram-no e ele lhes disse que o Curma ferreiro havia recebido ordem de comparecer perante Deus no mesmo momento em que ele havia sido reenviado para este mundo. Lá, no outro mundo que voltara, ficara sabendo que não era o Curma da Cúria Municipal que deveria se apresentar à mansão dos mortos, mas o Curma ferreiro. Nas visões que teve durante os sonhos, o Curma da Cúria Municipal reconheceu entre os mortos alguns vivos que conhecera aqui, sendo tratados de acordo com os méritos que cada um teve durante a vida.
Eu talvez acreditaria nessa história se todas as pessoas que viu fossem realmente falecidas, isto é, se o doente não tivesse visto em seus sonhos outras pessoas que ainda vivem, como, por exemplo, clérigos da sua região e, entre outros, um padre que lhe disse para se batizar em Hipona, a quem ele respondeu: "Eu já fui batizado". Portanto, em sua visão, ele percebera também padres, clérigos e eu mesmo, ou seja, seres vivos. E entre estes, vira outros mortos.
Portanto, por que não havemos de crer que ele viu esses mortos da mesma forma como viu a nós, isto é, viu uns e outros sem que ninguém soubesse disso e estando todos eles distantes? Pois tivera para si uma representação imaginária de pessoas e lugares; ele viu a propriedade onde aquele padre morava com seus clérigos, viu Hipona onde eu o tinha batizado - como alegara. Mas, de fato, ele não estivera nesses lugares onde tinha a ilusão de ter estado; ele ignorava o que aí se fazia no momento da visão. Se ele realmente tivesse estado ali, certamente saberia o que ali se fazia. Portanto, foi uma espécie de visão em que os objetos não se apresentam como são na realidade, mas sob a sombra de suas imagens.
Finalmente, esse homem ainda contou que, na última das suas visões, ele fora levado ao Paraíso e lá lhe disseram, antes de o devolverem aos seus: "Ide e faze-te batizar se quiserdes um dia estar nesta morada de bem-aventurados". Avisado de receber o batismo de minhas mãos, ele respondeu que já o recebera, mas a voz que lhe falava insistiu: "Ide e faze-te batizar realmente porque o teu batismo é imaginário". Assim, após sua cura, ele veio a Hipona próximo do tempo da Páscoa; e fez-se inscrever na lista dos aspirantes [ao batismo], sendo desconhecido de mim e de muitos outros. Não confiou suas visões a mim ou a outros padres... Recebeu o batismo e, terminados os dias santos, retornou para a sua casa. Fiquei sabendo da história dois anos depois - ou até mais - por um amigo comum que foi fazer uma refeição em minha casa, quando falávamos sobre esse tipo de assunto. Mais tarde, consegui, depois de muita insistência, que me contasse a história, na presença de seus concidadãos, gente honrada, que se apresentaram como testemunhas da realidade dos fatos: a sua estranha doença, seus longos dias de morte aparente, o caso do outro Curma, ferreiro - conforme narrado acima -, enfim, todos os pormenores que se lembrava. E todos testemunharam já terem ouvido essa narração de sua boca, à medida que ele a divulgava.
Conclui-se, assim, que ele vira seu batismo, a mim, Hipona, a basílica e o batistério não na realidade, mas na imagem, da mesma forma como vira outras pessoas vivas, sem que elas tenham percebido isto. Logo, por que não admitir que ele viu os mortos sem que estes tenham percebido?


33Virgílio, "Eneida" VI,337.

CAPÍTULO XIII

Por que não podemos atribuir a anjos essas operações permitidas pela Providência Divina, que sabe se servir sabiamente dos bons e dos maus, conforme a inescrutável profundidade de seus julgamentos? Essas visões podem servir tanto para instruir quanto para enganar os vivos, para consolá-los ou assustá-los, sendo cada um tratado com misericórdia ou com rigor por aquele que a Igreja não celebra em vão "a misericórdia e a justiça"34.
Entenda como quiser isto que vou falar agora: se acaso os mortos intervissem nos problemas dos vivos, aparecendo-nos e falando-nos durante o sono, a minha piedosa mãe (para não falar de outras pessoas) não me abandonaria uma noite sequer, pois ela sempre me seguiu por terra e mar, sempre partilhou comigo a sua vida. Para mim é difícil crer que uma vida mais feliz a tornou indiferente para comigo, a ponto de não mais me consolar nas tristezas, justo eu que fui seu grande amor e a quem ela jamais quis ver triste!
Certamente as palavras do Salmo são verdadeiras: "Meu pai e minha mãe me abandonaram, mas o Senhor me acolheu"35.
Ora, se os nossos pais nos abandonaram, como podem eles se interessarem por nossos problemas? E se ficam indiferentes, que outros mortos poderiam se inquietar pelo que fazemos ou sofremos? Assim declara o profeta Isaías: "Porque tu é que és o nosso Pai. Abraão não nos conheceu, nem Israel soube de nós"36.
Se os grandes patriarcas desconheceram o destino do povo do qual eram a fonte e cuja raça saiu como fruto de sua fé em Deus, como seria possível aos mortos intervir, para conhecer e proteger nos negócios e empreendimentos dos vivos? E como poderíamos declarar bem-aventurados os santos que morreram antes das nossas infelicidades se eles continuassem sensíveis às desolações da vida humana? Acaso não estaríamos enganados se disséssemos que eles se encontram em um lugar de absoluta tranquilidade se porventura eles se inquietassem com a atormentada existência dos vivos? O que significaria, então, esta promessa feita por Deus em benefício do piedoso rei Josias, de que ele morreria antes dos males que estavam para se abater sobre sua nação e seu povo, para que não sentisse tristeza de ver tal tragédia? Eis a Palavra de Deus: "Direis ao rei de Judá que vos enviou a consultar o Senhor: 'Eis o que diz o Senhor Deus de Israel: como ouviste as palavras do livros e o teu coração se atemorizou a ponto de te humilhares diante do Senhor, após ouvir as palavras contra esta terra e seus habitantes, que virão a ser objeto de espanto e reprovação, e também por rasgardes as vestes e chorardes diante de Mim, eu te escutei - diz o Senhor - e por isso te farei descansar com teus pais e sereis sepultado em paz, para que teus olhos não vejam o mal que farei cair sobre esta terra"37.
Aterrorizado por essas ameaças de Deus, Josias chorou e rasgou suas vestes, mas a certeza de que sua morte precederia as desgraças que estavam por vir, bem como a certeza de que fora chamado a gozar a paz no repouso, sem ter que ver aqueles males, devolveram-lhe a serenidade da alma.
Portanto, as almas dos mortos encontram-se em um lugar onde não podem ver o que se passa ou acontece aos homens da terra. E como poderiam partilhar das misérias dos vivos se estão a suportar as próprias penas, caso as tenham merecido, ou estão em paz repousando, como foi prometido a Josias? Aí não sofrem nem por si, nem por outros, pois se livraram de todas as penas por suportarem a dor pessoal e a compaixão por outrem quando viviam sobre a terra.

CAPÍTULO XIV

Alguém me dirá por objeção: se os mortos não se interessam pelos vivos então porque aquele rico que passava tormentos no Inferno suplicou a Abraão para que enviasse Lázaro a seus cinco irmãos vivos, para convencê-los a mudar de vida e, assim, evitarem aquele lugar de sofrimentos?38. Será que é possivel deduzir dessa passagem que ele sabia o que seus irmãos faziam ou sofriam nesse tempo? Estava ele preocupado com os vivos, sem saber o que faziam, da mesma forma como nos preocupamos com os mortos, sem sabermos o que fazem? Na verdade, se não nos interessássemos por eles, também não oraríamos na intenção deles. Aliás, Abraão não enviou Lázaro à terra, mas respondeu ao condenado que seus irmãos tinham Moisés e os profetas; deveriam ouvi-los se desejassem escapara daqueles suplícios...
Neste ponto, pode-se novamente objetar: "como poderia Abraão ignorar o que se passava sobre a terra, já que sabia viver Moisés e os profetas, isto é, seus escritos, e que, seguindo-os, escapariam dos tormentos do Inferno? Ele não sabia também que o rico havia gozado as delícias e que o pobre Lázaro vivera na miséria e no sofrimento, pois disse: 'Filho, lembra-te de que recebeste teus bens em vida e Lázaro, por sua vez, os males'39? Logo, Abraão conhecia os fatos referentes aos vivos e não aos mortos". É certo, mas esses fatos ele podia não ter conhecimento no momento em que ocorreram, mas após o falecimento dos dois e sob as indicações do próprio Lázaro. Desse modo, a palavra do profeta não está desmentida: "Abraão não nos conheceu"40.

CAPÍTULO XV

Convenhamos que os mortos ignoram o que acontece na terra, pelo menos no momento em que ocorrem. Pode vir a conhecer mais tarde, por intermédio daqueles que vão ao seu encontro, uma vez falecidos. Certamente, não ficam sabendo de tudo, mas apenas aquilo que lhe for autorizado saber e que têm necessidade de saber.
Os anjos, que velam sobre as coisas deste mundo, também podem lhes revelar alguns pontos que julguem convenientes a cada um, por Aquele que tudo governa, pois se os anjos não tivessem o poder de estarem presentes tanto na morada dos vivos quanto na dos mortos, o próprio Senhor Jesus não teria dito: "Aconteceu que o pobre [Lázaro] morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão"41. Eles estão, assim, ora na terra, ora no céu, já que foi da terra que levaram aquele homem que Deus os confiou.
As almas dos mortos também podem conhecer alguns acontecimentos aqui da terra por revelação do Espírito Santo, acontecimentos estes cujo conhecimento seja necessário. E isto não se restringe somente a fatos passados ou presentes, mas também futuros. É assim que os homens - não todos, mas apenas os profetas - conheceram durante sua vida mortal, não todas as coisas, mas apenas aquelas que a Providência Divina julgava bom lhes revelar.
A Sagrada Escritura atesta-nos que alguns mortos foram enviados a certas pessoas vivas e, da mesma forma, algumas pessoas foram até a morada dos mortos: Paulo foi arrebatado até o Paraíso42; e o profeta Samuel, após sua morte, apareceu a Saul, ainda vivo, e lhe predisse o futuro43. É bem verdade que alguns não admitem que tenha sido Samuel que apareceu, já que sua alma não acatava a tais procedimentos mágicos, como dizem. Julgam, assim, que foi outro espírito que se submete a essa arte maléfica que se revestiu de uma imagem semelhante a dele. Mas o livro do Eclesiástico [46,23], atribuído a Jesus, filho de Sirac - cujas semelhanças de estilo poderiam ser do próprio Salomão -, relata-nos um elogio aos Patriarcas onde afirma que "Samuel profetizou mesmo depois de morrer"44 , e isto não poderia se referir a outra coisa a não ser essa aparição do defunto Samuel a Saul. Alguém poderia discutir a autoridade desse livro, sob o pretexto de que não se encontra no cânon dos hebreus, mas existe um outro texto que nos convida a admitir esse envio de mortos aos vivos: trata-se da passagem das aparições de Moisés e Elias no [monte] Tabor. O que dizer de Moisés, cujo livro do Deuteronômio nos certifica da sua morte45, aparecendo vivo ao lado de Elias - que não morreu - como lemos no Evangelho?46

CAPÍTULO XVI

Tudo o que foi escrito até agora serve para resolvermos esta questão: como os mártires que se interessam pelas coisas humanas se manifestam, atendendo as nossas orações, uma vez que os mortos ignoram o que fazem os vivos?
Com efeito, sabemos, não por vagos rumores, mas por testemunhas dignas de fé, que o confessor Félix - cujo túmulo tu veneras piedosamente como santo asilo - deu não apenas mostras de seus benefícios, mas até de sua presença, ao aparecer aos olhos dos homens durante o cerco da cidade de Nola pelos bárbaros.
Esses fatos excepcionais acontecem graças à permissão divina e estão longe de entrar na ordem normalmente estabelecida para cada espécie de criatura. Não podemos concluir pelo fato da água ter se transformado em vinho pela palavra do Senhor47, que a água tenha poder de operar por si mesma essa transformação pela propriedade natural de seus elementos, visto que tratou-se de uma operação divina excepcional e até única! Também o fato de Lázaro ter ressuscitado48 não significa que todo morto possa se levantar quando quiser ou que possa ser normalmente acordado como qualquer homem adormecido. Uns são os limites do poder humano; outras são as marcas do poder divino. Uns são fatos naturais; outros, miraculosos, ainda que Deus esteja presente na natureza para a manter na existência e a natureza tenha seu lugar inclusive para os milagres.
Assim, é necessário não crer que todos os defuntos - sem excessão - podem intervir nos problemas dos vivos apenas pelo fato de que os mártires tenham obtido curas ou prestado outros socorros. É preciso compreender, ao invés, que é por causa do poder de Deus que os mártires intervêem nos nossos interesses, pois os mortos não possuem tal poder por sua própria natureza.
Há, porém, uma questão que ultrapassa os limites da minha inteligência: como os mártires, que sem sombra de dúvida socorrem seus devotos, aparecem... em pessoa e no mesmo momento? em vários lugares e afastados uns dos outros? sua ação se faz notar apenas onde se encontra o seu túmulo ou em qualquer outro lugar? se permanecem confinados na morada reservada a seus méritos, longe de qualquer relacionamento com os mortais, contentam-se em interceder pelas necessidades daqueles que lhes suplicam? oram da mesma forma que nós oramos pelos mortos, sem estar presentes e sem saber onde estão e o que fazem?
Não será Deus, o Deus onipotente e onipresente, que não se acha confinado em nós e muito menos afastado de nós, que atende as orações dos mártires, servindo do ministério dos anjos, cuja ação se estende sobre todas as coisas, para distribuir o consolo aos homens que Ele julga ser necessário para enfrentar as misérias da vida presente? Não será Ele que, com poder admirável e infinita bondade, faz resplandecer os méritos dos mártires onde Ele o quer, quando quer, como quer, especialmente nos locais onde se ergueram suas sepulturas, por saber que a lembrança dos sofrimentos suportados em confissão a Cristo, nos é útil para nos confirmar na fé?
Repito: esta é uma questão muito elevada e complexa para mim, de forma que não a posso explicá-la a fundo... Dessas duas hipóteses que indiquei, qual será a verdadeira? Talvez os dois processos sejam empregados em conjunto, de maneira que, às vezes, os mártires nos atendem com sua presença pessoal, e, às vezes, por intermédio dos anjos que tomam a sua forma. Não ouso decidir e preferiria esclarecer-me junto a homens sábios que conheçam o assunto. Não digo que ignore ou imagine que saiba pois é impossível que não haja alguém que saiba porque Deus, em suas liberalidades, concede certos dons a alguns e outros dons a outros, conforme o ensino do Apóstolo que diz que a ação do Espírito Santo manifesta-se em cada um de acordo com uma utilidade comum. Eis o que diz Paulo:
"Cada um recebe o dom de manifestar o Espírito para utilidade de todos. A um, o Espírito dá a mensagem da sabedoria; a outro, a palavra da ciência segundo o mesmo Espírito; a outro, o mesmo Espírito dá a fé; a outro, ainda, o único e mesmo Espírito concede o dom das curas; a outro, o poder de fazer milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, o dom de falar em línguas; a outro, ainda, o dom de as interpretar. Mas tudo isso é realizado pelo único e mesmo Espírito, que distribui os seus dons a cada um conforme lhe apraz"49.
Ora, entre todos esses dons elencados pelo Apóstolo, quem recebeu o dom do discernimento dos espíritos é que conhece essas questões - que agora tratamos - da forma como é necessário conhecer.

CAPÍTULO XVII

Creio que esse é o caso do famoso monge João, a quem o imperador Teodósio Magno consultou a respeito de uma guerra civil. De fato, ele possuía o dom da profecia... Mas eu não duvido que os dons [do Espírito] sejam distribuídos um por pessoa, isto é, acho que é possível a uma mesma pessoa receber diversos dons.
Certa vez, esse monge João soube que uma mulher muito piedosa desejava vê-lo. Então, através de seu marido, ela insistiu em marcar uma entrevista, mas ele recusou, como costumava a fazer quando se tratava de mulheres. Contudo, disse ao marido: "Ide e dize à tua esposa que ela me verá esta noite durante o sono". E, de fato, ela o viu dando-lhe conselhos convenientes a uma mulher cristã casada. Quando acordou, essa mulher contou tudo a seu marido, que conhecera pessoalmente esse homem de Deus e o reconheceu tal como ela o descreveu. O casal, então, revelou esse fato a um senhor que me comunicou, senhor esse sério, nobre e digno de fé.
Ora, se me fosse possível encontrar esse santo monge que, como me disseram, se deixava interrogar pacientemente, sabendo responder tudo com grande sabedoria, perguntar-lhe-ia algo que nos interessa aqui: se ele realmente se apresentou a essa mulher que dormia, pessoalmente, sob os traços aparentes do seu corpo, tal como os nossos corpos se apresentam a nós mesmos durante nossos sonhos; ou se a visão ocorreu pelo ministério dos anjos ou outra modalidade, enquanto ele mesmo fazia outra coisa ou até mesmo dormia, tendo seus próprios sonhos... E, caso confirmasse esta segunda hipótese, perguntar-lhe-ia se foi por uma revelação do Espírito de profecia que pôde prometer sua aparição naquela noite, durante o sonho da mulher.
Ora, se ele se apresentou pessoalmente em sonho à mulher, ele o fez por uma graça extraordinária e não por meios naturais, isto é, por um dom de Deus e não por seu próprio e natural poder. Mas, se essa mulher o viu enquanto ele fazia uma outra coisa (por exemplo: estivesse ele dormindo e tendo seus próprios sonhos), o fato se assemelhará ao que lemos nos Atos dos Apóstolos, quando o Senhor Jesus, falando a Ananias sobre Saulo, revela-lhe que Saulo vê Ananias ir até ele, ao passo que este nada sabia sobre isso50.
Porém, qualquer que fosse a resposta dada pelo monge João, esse homem de Deus, às minhas perguntais, eu ainda o teria questionado sobre os mártires. Perguntar-lhe-ia se eles aparecem pessoalmente durante o sono ou outro modo, sob figura que lhes apraz. E perguntaria, principalmente, como explicar o fato de dêmonios que habitam pessoas possessas queixarem-se de ser atormentados pelos mártires, a ponto de suplicarem que sejam poupados. Ainda lhe perguntaria se a sua intervenção se produz por ordem de Deus e pelo ministério dos anjos, para a glorificação dos santos e utilidade dos homens, já que os mártires encontram-se em repouso, longe de nós, em visões mais altas, contentando-se em orar por nossa intenção. De fato, em Milão, junto à sepultura de Gervásio e Protásio, quando se pronunciava os nomes desses heróis e dos falecidos comemorados com eles, os demônios gritavam o nome de Ambrósio, que ainda era vivo, suplicando-lhe que os poupasse. E o bispo encontrava-se longe dali, ignorando o que se passava e entretido com outras ocupações...
Será que podemos pensar que os mártires às vezes agem por presença efetiva e outras vezes pelos ministérios dos anjos? Podemos discernir o modo empregado por eles? Sob quais sinais podemos reconhecer isso? Somente quem recebeu esse dom do Espírito Santo é que pode discernir, pois é o Espírito que distribui os favores particulares a cada um, conforme lhe apraz.
Creio que o monge João, a meu pedido, poderia me esclarecer sobre essas dificuldades. Em sua escola eu poderia aprender o verdadeiro e correto conhecimento, ou até mesmo poderia crer - mesmo sem o compreender - naquilo que me afirmasse saber com certeza. Talvez até ele me responderia com as seguintes palavras da Escritura:

"Não procures saber o que excede a tua capacidade e não especules o que ultrapassa as tuas forças; mas creia sempre no que Deus te mandou" . (Eclesiástico 3,22).

Com gratidão, eu também acolheria esse conselho, pois não é de pouco proveito, nas coisas obscuras e incertas - e que não podemos compreender, adquirir a convicção clara e correta de que elas não devem ser investigadas, ou seja, convencer-se de que não é nocivo ignorar aquilo que se quer saber, imaginando que poderíamos tirar proveito em o saber.
34cf. Sl 100,1.
35cf. Sl 26,10.
36cf. Is 63,16.
37cf. 2Rs 22,18-20.
38cf. Lc 16,27.
39cf. Lc 16,25.
40v. nota 36.
41cf. Lc 16,22.
42cf. 2Cor 12,2.
43cf. 1Sm 28,15-19.
44cf. Eclo 46,23.
45cf. Dt 34,5.
46cf. Mt 17,3.
47cf. Jo 2,9.
48cf. Jo 11,44.
49cf. 1Cor 12,7-11.
50cf. At 9,12.

CAPÍTULO XVIII

Conforme o que expomos anteriormente, eis o que devemos pensar a respeito dos benefícios prestados aos mortos a quem dedicamos os nossos cuidados: nossas súplicas só lhes serão proveitosas se forem oferecidas de modo conveniente, no sacrifício do altar, em nossas orações e esmolas. Também é necessário dizer que [nossas súplicas] não serão proveitosas a todos a quem pretendemos ajudas, mas tão somente àqueles que tornaram-se dignos, durante a vida, de receber tal benefício. Contudo, como não podemos discernir quem sejam, convém apresentar súplicas a todos os regenerados, para que não omitemos alguém entre aqueles que possam se servir desses benefícios. Melhor ainda é que haja sobras dessas boas obras, mesmo oferecidas para aqueles que não podem se beneficiar delas, para que não venham a faltar para aqueles que podem tirar proveito. Entretanto, é mais natural que sejam oferecidas pelos amigos, a fim de que tais cuidados também sejam prestados mais tarde à nós.
Tudo o que se faz quanto ao sepultamento digno dos falecidos não é para obter a sua salvação, mas para cumprir um dever de humanidade, conforme o sentimento natural de que "ninguém odeia a sua própria carne"52. Portanto, é certo que se tenha pelo corpo do próximo o cuidado que ele próprio não pode mais se dar por ter deixado esta vida. E, já que esse cuidado é tido até mesmo por aqueles que negam a ressurreição da carne, nada mais justo que aqueles que crêem [na ressurreição] o façam ainda com maior solicitude. Assim, que o cuidado tributado a esse corpo sem vida - mas que haverá de ressuscitar e permanecer por toda a eternidade - se constitua no testemunho claro dessa mesma fé.
Quanto à sepultura próxima ao túmulo dos mártires, eis a única utilidade que me parece trazer para o defunto: colocando-a sob a proteção dos mártires, ela torna mais viva a caridade daqueles que oram por ele.
Tais são as respostas que posso apresentar às tuas questões. Desculpa-me se me estendi por demais, mas isso decorre do prazer e afeição que sinto ao conversar contigo. Peço-te que me escrevas, para que eu possa conhecer as impressões que Vossa Venerável Caridade sentiu ao ler este trabalho.
Sem sombra de dúvida, o portador desta carta torna-la-á mais agradável. Trata-se do nosso irmão no sacerdócio, Candidiano, que conheci por ter-me trazido as tuas cartas. Acolhi-o de corações e vejo-o partir com pesar, pois sua presença na caridade de Cristo foi grande consolo para mim. Graças à sua insistência - devo confessar - vi-me obrigado a responder-te, pois o meu coração está sobrecarregado por muitas e muitas preocupações; se ele não me lembrasse frequentemente, certamente teria me esquecido e o teu pedido ficaria sem resposta.


52cf. Ef 5,29.