quarta-feira, 23 de julho de 2014

Contra Vigilâncio




AUTOR: São Jerônimo)
 ANO DO ESCRITO: 420 dC

Capítulo I

O mundo pariu muitos monstros. Em Isaías lemos sobre centauros, corujas e pelicanos. Jó, em linguagem mística, descreve Leviatã e Behemoth. Cérbero e os pássaros de Estínfalo, o porco de Erimantéia e o leão de Neméia, a Chimera e a Hidra de muitas cabeças são citadas em fábulas poéticas. Virgílio descreve Caco. A Espanha criou Gerion, com seus três corpos. Somente a Gália não teve monstros e sempre contou com homens ricos em coragem e grande eloqüência... Isto até Vigilâncio - ou, mais propriamente, "Dormilâncio" - que surgiu, animado por um espírito imundo, para lutar contra o Espírito de Cristo e negar aquela reverência religiosa que devemos prestar aos túmulos dos mártires. As vigílias - afirma ele - devem ser condenadas. O "Aleluia" nunca deve ser cantado senão na Páscoa. A continência é uma heresia. A castidade, uma cama preparada para a concupiscência. E assim como dizem que Eufórbio renasceu na pessoa de Pitágoras, então temos que neste (=Vigilâncio) ressuscitou a mente corrompida de Joviniano. Nele, não menos que em seu predecessor, encontramos as ciladas do demônio. A Palavra pode ser justamente aplicada a ele: "Raça de malfeitores, preparai vossos filhos para o massacre por causa dos pecados do vosso pai". Joviniano, condenado pela autoridade da Igreja de Roma, entre a carne de faisão e a de porco, exalou, ou melhor, vomitou o seu espírito. E agora, este sustentador das tavernas do Calagurre, que conforme o nome de sua vila nativa é Quintiliano, estúpido ao invés de eloqüente, quer combinar água com vinho. Segundo a armadilha que ele há muito já conhece, tenta agora misturar seu veneno com a fé católica: ele agride a virgindade e odeia a castidade; se regozija com o mundano e prega contra o jejum dos santos; serve o filósofo em sua bandeja e se alivia com as doces melodias da salmodia enquanto lambe os lábios após comer seus bolos de queijo. Alías, não poderia ele dignar-se a ouvir as canções de Davi, Jeduth, Asaf e os filhos de Coré a não ser na mesa do banquete. Isto eu tenho dito com mais pesar que alegria, pois não posso me conter, tornando-me surdo ao ouvir as coisas erradas que ele atira contra os apostólos e mártires. 

Capítulo II

Vergonhoso de se mencionar é que alguns bispos, segundo dizem, se associaram a ele em sua iniqüidade - se é que esses homens podem mesmo ser chamados de bispos - e não ordenam diáconos a não ser que tenham eles sido previamente casados. Eles não honram o celibato exigindo mais castidade, ou melhor, eles mostram claramente que a medida da santidade de vida que querem se dá indulgenciando as piores dúvidas do homem e, exceto que os candidatos à ordenação apareçam perante eles com esposas grávidas e bebês chorando no colo de suas mães, não administrarão a estes a ordenação de Cristo. O que estão fazendo as igrejas do Oriente? E as que pertencem às igrejas egípcias ou à Sé Apostólica: aceitam para o ministério apenas homens virgens, ou que praticam a continência ou, se casados, abandonaram seus direitos conjugais? Eis o ensinamento de Dormilâncio, que lança as rédeas sobre o pescoço da luxúria e por seu incentivo duplica o calor natural da carne, que na juventude atinge o ponto máximo e que se sacia pelo intercurso [sexual] com mulheres. Daí, nada nos separa dos porcos, nada aqui nos difere da criação bruta, ou dos cavalos, a respeito do que está escrito: "Eles se dirigiram às mulheres como cavalos selvagens; todos relincharam após [conhecerem] a esposa de seu vizinho". Isto é o que foi dito pelo Espírito Santo através da boca de Davi: "Não sejais como o cavalo e a mula que não compreendem". E, novamente, acerca de Dormilâncio e seus amigos: "Amarrem a maxilar daqueles que se aproximam de vocês com freios e rédeas". 

Capítulo III

Mas agora nos chegou o momento de abordar as suas próprias palavras e responder-lhe em detalhes. Isto porque, possivelmente, em sua malícia, ele pode novamente optar em me deturpar e dizer que eu tenho o trunfo de apreciar um caso fazendo uso dos meus poderes retóricos e declamatórios para combatê-lo, tal como na carta que escreví para a Gália, expondo para uma mãe e sua filha que estavam na dúvida. Este pequeno tratado que agora redijo, é aguardado pelos respeitáveis presbíteros Ripário e Desidério, que informaram que suas paróquias e vizinhanças estão sendo profanadas e me enviaram, através do nosso irmão Sisínio, os livros que ele (Dormilâncio) vomitou como um bêbado na ressaca. Eles também afirmam que algumas pessoas ali, a partir de suas inclinações para os vícios, aderem às suas blasfêmias. Ele é um bárbaro tanto em sua fala quanto em seu conhecimento. Seu estilo é rude. Ele não tem condição nem de defender a verdade. Mas por amor aos leigos e pobres mulheres, carregados de pecados, sempre aprendendo e nunca atingindo o [pleno] conhecimento da verdade, vou disperdiçar uma noite de trabalho para abordar as suas fúteis melancolias, caso contrário poderia parecer que eu estaria tratando com desprezo as cartas daquelas respeitáveis pessoas que confiaram a mim tal tarefa a ser empreendida. 

Capítulo IV

Certamente ele representa bem a sua raça. Originado de um bando de marginais e indivíduos reunidos dos quatro cantos [do mundo] - isto porque Pompeu, após conquistar a Espanha, quando se apressava para retornar [a Roma] em seu triunfo, desceu pelos Pirineus e reuniu [os referidos indivíduos] em um só lugar, de onde veio o nome da cidade: Convenae [=convocação] - ele (Vigilâncio) foi encarregado por suas práticas criminosas a atacar a Igreja de Deus. Como seus ancestrais, os vetões, os harrabaceus e o celtiberianos, ele se lança sobre as igrejas da Gália, não carregando o estandarte da cruz mas, ao contrário, a insígnia do diabo. Pompeu fez o mesmo no Oriente. Após subjugar os piratas e bandidos cilicianos e isaurianos, ele fundou uma cidade, que possui o seu próprio nome, entre a Cilícia e a Isáuria. Essa cidade, porém, observa até hoje as ordens dos seus ancestrais e nenhum Dormilâncio surgiu ali. Mas a Gália possui um inimigo nativo e vê sentado na Igreja um homem que perdeu o juízo e que deveria ser colocado em uma camisa-de-força, como recomenda Hipócrates. Entre outras blasfêmias, escuta-se ele dizer: "Que necessidade há para ti de prestar tal honra, para não dizer adoração, a uma coisa, qualquer que seja ela, que você carrega e cultua?". E novamente, no mesmo livro: "Por que você beija e adora um pouco de poeira envolto em um pedaço de pano?". E mais uma vez, no mesmo livro: "Sob o manto da religião vemos que tudo de uma cerimônia pagã foi introduzida nas igrejas: enquanto o sol ainda brilha, um monte de velas são acesas e em todo lugar um pouco de pó miserável, envolto em panos caros, é beijado e adorado. É esta a grande honra que os homens prestam aos bem-aventurados mártires que - conforme pensam - deve ser feita de maneira gloriosa, através de velas insignificantes, enquanto que o Cordeiro, que se encontra no centro do trono, com todo o brilho de sua majestade, lhes dá a luz?".

 Capítulo V

Louco! Quem neste mundo já adorou os mártires? Quem já pensou que o homem fosse Deus? Acaso Paulo e Barnabé - quando o povo da Licônia pensou que se tratavam de Júpiter e Mercúrio e por isso precisavam oferecer-lhes sacrifícios - não rasgaram suas vestes e se declararam homens (Atos 14,11)? Não que eles não fossem melhores que Júpiter e Mercúrio, mortos muito tempo antes, mas porque, sob as falsas idéias dos gentios, a honra devida a Deus estava sendo prestada a eles. E lemos o mesmo a respeito de Pedro que, quando Cornélio quis adorá-lo, pegou-o pela mão e disse-lhe: "Levanta-te, pois sou apenas um homem" (Atos 10,26) e você (Vigilâncio) tem a audácia de falar de "algo misterioso ou outra coisa qualquer que você carrega em um pequeno embrulho e adora"? Eu gostaria de saber o que é que você chama de "algo misterioso ou outra coisa qualquer". Diga-nos mais claramente - pois não pode haver moderação na sua blasfêmia - o que você quer dizer com a expressão: "um pouco de pó miserável, envolto em panos caros". Isso nada mais é do que as relíquias dos mártires, que o deixam irritado ao vê-las cobertas por tecido nobre e não por farrapos ou lenços de cabeça, ou lançadas na esterqueira. Com efeito, apenas Vigilâncio, em seu sono de bêbado, acha que podem ser adoradas. Seríamos nós, portanto, culpados de sacrilégio quando entramos nas basílicas dos Apóstolos? Seria o imperador Constâncio I culpado de sacrilégio quando transferiu as sagradas relíquias de André, Lucas e Timóteo para Constantinopla? Na presença destas [relíquias] os demônios se pertubam e os diabos que habitam em Vigilâncio confessam que sentem a influência dos santos. E nos presentes dias, seria o imperador Arcádio culpado de sacrilégio por, depois de tanto tempo, ter transportado os ossos do bem-aventurado [profeta] Samuel da Judéia para a Trácia? Deveríamos considerar todos os bispos não apenas sacrílegos mas tolos porque eles carregam "coisas mais inúteis" - poeiras e cinzas - envoltas em sedas douradas? Seriam tolos os fiéis de todas as igrejas porque foram se encontrar com as sagradas relíquias e deram boas vindas a elas com tanta alegria como se estivessem recebendo um profeta vivo em seu meio, de forma que um grande número de pessoas as seguiram da Palestina até a Calcedônia em uma só voz recitando as orações de Cristo? Seriam loucos se adorassem a Samuel e não a Cristo, já que Samuel era um mero levita e profeta. Você (Vigilâncio) demonstra desconfiança porque pensa apenas em corpos sem vidas e em razão disso blasfema. Leia o Evangelho (Mateus 22,32): "O Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó: Ele não é Deus dos mortos, mas dos vivos". Ora, se então eles estão vivos, não são "mantidos em um confinamento honorável", para usarmos aqui as suas palavras. 

Capítulo VI

Você diz que as almas dos Apóstolos e mártires residem no seio de Abraão, ou num lugar de refrigério, ou sob o altar de Deus e que eles não podem viver em seus próprios túmulos e estarem presentes onde quiserem. Eles são, ao que parece, da classe senatorial e não estão sujeitos aos piores tipos de cárcere, nem à sociedade de assassinos, mas são mantidos em separado, sob custória honorífica e liberal nas abençoadas ilhas dos Campos Elíseos. Irá você agora estabelecer a lei para Deus? Irá você agora acorrentar os Apóstolos? Então ficarão eles confinados até o Dia do Julgamento e não estarão com o seu Senhor, embora esteja escrito a respeito deles: "Eles seguem o Cordeiro para qualquer lugar que Ele for" (Apocalipse 14,4). Ora, se o Cordeiro está presente em todo lugar, o mesmo devemos acreditar acerca destes que estão com o Cordeiro. E embora o diabo e os demônios vagueiem por todo o mundo e com tamanha velocidade eles mesmos se movem por todo lugar, estariam os mártires, após derramarem o seu sangue, sendo mantidos confinados em algum lugar de onde não poderiam escapar? Você afirma, em seu panfleto, que enquanto estamos vivos podemos orar uns pelos outros, mas que, quando morremos, a oração de uma pessoa não poderá favorecer outra qualquer; e isto em razão dos mártires, embora eles possam pedir pela vingança de seu sangue, o que, porém, nunca lhes será atendido (Apocalipse 6,10). Se os Apóstolos e mártires, enquanto estão no corpo, podem orar pelos outros, ainda quando se encontram inquietos por si mesmos, quanto mais deverão fazer após terem recebido suas coroas, vencido e triunfado? Um simples homem, Moisés, obteve o perdão de Deus para seiscentos mil homens armados; e Estêvão, seguidor de seu Senhor e o primeiro mártir cristão, implorou o perdão para seus perseguidores; e quando eles entraram na Vida com Cristo, acabaram tendo menos poder do que antes? O Apóstolo Paulo diz que 272 almas foram entregues a ele no navio (Atos 27,37); e após sua dissolução (=morte), quando ele começou a estar com Cristo, deveria ele calar a sua boca e ser incapaz de dizer uma só palavra em favor daqueles que em todo o mundo creram no seu Evangelho? Para Vigilâncio, seria um cachorro vivo melhor que Paulo, o leão morto? Estaria eu certo em seguir o Eclesiastes se admitisse que Paulo está morto em espírito... Mas a verdade é que os santos não são chamados de "mortos"; acerca deles dizemos que estão dormindo. Por isso, diz-se de Lázaro - que estava para ser ressuscitado - que tinha dormido (João 11,11). E o Apóstolo proíbe os tessalonicenses de se preocuparem com aqueles que dormiram. Você (Vigilâncio), que está dormindo acordado e dorme quando escreve, me aponta um livro apócrifo que, sob o nome de Esdras, é lido por você e por aqueles loucos que o escutam, e nesse livro está escrito que após a morte ninguém se atreve a orar pelos outros. Eu nunca li esse livro, mas qual a necessidade de lê-lo se a Igreja não o recebeu? Provavelmente a sua intenção real é de me confrontar com Bálsamo, Barbélio e o Tesouro dos maniqueus, além daquele que traz o ridículo nome de Leusiboras. Talvez porque você vive aos pés dos [montes] Pirineus, no limite da Ibéria, acaba seguindo as "incríveis maravilhas" do antigo herege Basílides e seu assim chamado "conhecimento" - o qual é simples ignorância - e que foi condenado pela autoridade de todo o mundo. Eu afirmo isto porque em seus breves tratados você cita Salomão como se ele concordasse contigo, porém Salomão jamais escreveu tais palavras; então, da mesma forma que você possui um segundo Esdras, tem também um segundo Salomão. E se você gostar, pode ler ainda as revelações imaginárias de todos os patriarcas e profetas; e quando você tiver aprendido todas elas, poderá cantá-las entre as mulheres nas tecelagens, ou ordenar que sejam lidas nas suas tavernas, pois é mais fácil assim que essas canções melancólicas estimulem o povo ignorante a encher novamente as canecas. 

Capítulo VII

Contudo, quanto a questão das velas, ao contrário do que você (Vigilâncio) em vão nos acusa, nós não as acendemos durante o dia, mas para conforto podemos alegrar a escuridão da noite, enquanto aguardamos o amanhecer, para que não sejamos cegos como você e cochilemos nas trevas. E se algumas pessoas, leigos simples e rudes, ou quase sempre mulheres religiosas - de quem podemos realmente dizer: "Eu admito que eles tem zêlo por Deus, ainda que não seja conforme a razão" (Romanos 10,2) -, adotam tal prática em honra dos mártires, que mal isto causa a você? Já houve uma vez que os próprios Apóstolos suplicaram que o ungüento não fosse desperdiçado e acabaram sendo repreendidos pela voz do Senhor. Cristo não precisava do ungüento assim como os mártires não precisam da luz das velas. Ainda assim, aquela mulher que derramou o ungüento em honra de Cristo teve a devoção do seu coração aceita [pelo Senhor]. Todos aqueles que acendem essas velas têm sua recompensa de acordo com a sua fé, como disse o Apóstolo: "Que cada um abunde em sua própria intenção". Você chama estes homens de idólatras? Eu não nego que todos nós que cremos em Cristo deixamos de lado o erro da idolatria. Nós não nascemos cristãos, mas nos tornamos cristãos ao renascermos [pelo Batismo]. E porque [um dia] já adoramos ídolos se conclui agora que nós não podemos adorar a Deus, pois parece que prestamos honra a Ele e aos ídolos? Um caso é prestar [honra] aos idólos e, neste caso, o culto é detestável; outro caso é a veneração dos mártires, sendo seu culto permitido. Em todas as igrejas do Oriente, mesmo quando alguma delas não possui relíquias dos mártires, o Evangelho é lido e os castiçais são acesos, ainda que a aurora esteja avermelhando o céu, não para dispersar as trevas, mas para evidenciar o nosso júbilo. E, conforme o Evangelho, as virgens carregam sempre acesas as suas lâmpadas (Mateus 25,1). E dos Apóstolos diz-se que tinham de cingiam seus lombos e acender suas lâmpadas (Lucas 12,35). E de João Batista lemos que "Ele possui a lâmpada que arde e ilumina" (João 5,35). Assim, através da figura da luz corpórea, é representada aquela luz que lemos no Saltério: "Tua Palavra é uma lâmpada para os meus pés, ó Senhor, e uma luz para os meus caminhos". 

Capítulo VIII

Estaria o bispo de Roma equivocado quando oferece sacrifícios ao Senhor sobre os veneráveis ossos dos falecidos Pedro e Paulo, do modo como já dissemos, mas de acordo com você (Vigilâncio), sobre um punhado de poeira sem valor, julgando que seus túmulos não são dignos de ser altares de Cristo? E não seria este o único bispo de uma cidade a estar equivocado, mas os bispos de todo o mundo já que, ao contrário do sustentador de tavernas Vigilâncio, entram nas basílicas dos mortos, onde "um punhado de poeira e cinzas sem valor encontram-se envoltos em um pedaço de pano" encardido ou encardindo. Assim, segundo você, os templos sagrados são como os sepulcros dos fariseus, caiados por fora, enquanto que por dentro resta a imundície, estando cheios de podridão e odores fétidos. E então ele (Vigilâncio) atreve-se a vomitar suas porquices sobre esta questão e afirma: "Será que as almas dos mártires amam tanto suas cinzas que acabam permanecendo em torno delas, para que, estando sempre presentes não fiquem tristes por surgir ali alguém para rezar, pois se estivessem ausentes, não conseguiriam ouvir?" Ó, monstro, que merece ser banido para os confins da terra! Você (Vigilâncio) ri das relíquias dos mártires e na companhia de Eunômio, pai desta heresia, calunia as igrejas de Cristo? Você não se preocuopa em andar com tal companhia e prega contra nós as mesmas coisas que ele levanta contra a Igreja? Todos os seus seguidores se recusam a entrar nas basílicas dos Apóstolos e mártires, porém, contraditoriamente, eles adoram o falecido Eunômio, cujos livros eles consideram de maior autoridade que os Evangelhos. E eles também crêem que a luz da verdade estava nele assim como alguns outros hereges sustentavam que o Paráclito teria vindo em Montano ou que o próprio Maniqueu era o Paráclito. Você não pode mesmo encontrar uma ocasião de orgulho para supor que é o inventor dessa nova espécie de maldade, sendo que essa sua heresia já foi outrora levantada contra a Igreja. Ela encontrou, porém, um oponente em Tertuliano, um homem de grande sabedoria, que escreveu um famoso tratado que ele corretamente intitulou "Scorpiacum", porque assim como o escorpião dobra-se como um arco para infligir o ferimento, também o que era formalmente conhecido como "a heresia de Caim" infere veneno no corpo da Igreja. Tal acusação repousou, ou melhor, ficou sepultada por um longo tempo, mas agora ressurge graças a Dormilâncio. Eu fico surpreso de ver você (Vigilâncio) omitir então que não deveria haver martírios, já que Deus, que não quer o sangue de bezerros e bois, muito menos poderia querer o sangue dos homens. É exatamente esta a sua conlusão, ou melhor, se você não afirma isso [explicitamente], ao menos é esta a conclusão que [implicitamente] se chega. E se [você] mantiver a idéia de que as relíquias dos mártires devem ser pisoteadas, acabará também por concluir que o derramamento de sangue que sofreram não é digno de qualquer honra. 

Capítulo IX

A respeito das vigílias e das freqüentes vezes que passamos a noite nas basílicas dos mártires, darei aqui uma breve resposta, a qual já ofereci em outra carta há cerca de dois anos, quando escrevi para o respeitável presbítero Ripário. Você (Vigilâncio) afirma que elas não deveriam ser observadas, exceto quando estamos próximos da Páscoa, pois não seguem as vigílias anuais de costume. Se assim fosse, então os sacrifícios [da Missa] não deveriam ser oferecidos a Cristo a cada dia do Senhor (=domingo), exceto quando celebrássemos a Páscoa da Ressurrreição do Senhor, tendo sido introduzido o costume de haver muitas Páscoas ao invés de uma. Seja como for, não devemos imputar a homens piedosos as faltas e erros de jovens e mulheres inúteis que muitas vezes são encontrados por aí durante a noite. É verdade que, mesmo nas vigílias da Páscoa, alguns desses se aproximam da Luz; mas as falhas de alguns não constituem em argumento válido contra a religião em geral, de modo que tais pessoas, ainda que não participem da vigília, podem estar erradas inclusive em suas próprias casas ou na de outras pessoas. A traição de Judas não anula a lealdade dos Apóstolos. E se alguns se comportam mal durante a vigília, isso não implica que esta deva deixar de existir. Aliás, melhor seria que [esses] dormissem mesmo para que, não sendo obrigados a participar das vigílias, pudessem ao menos preservar a sua castidade. Ora, se uma coisa foi feita boa, ela não pode ser má se for feita muitas vezes. E se existe aí alguma falta a ser combatida, a censura não consiste em ser feita várias vezes, mas por ter sido feita uma única vez. Portanto, nós [também] não deveríamos realizar a vigília da Páscoa, pois poderíamos temer que adúlteros pudessem aproveitar para satisfazer seus desejos [sexuais] duramente reprimidos, ou que certa esposa pudesse encontrar a oportunidade certa para pecar sem que suscitasse desconfiança contra ela da parte de seu marido. [Na verdade,] as ocasiões em que raramente se recorre são justamente aquelas em que surgem os maiores desejos. 

Capítulo X

Eu não posso aqui percorrer todos os tópicos abordados nas cartas dos respeitáveis presbíteros. Irei, portanto, fazer referência a alguns pontos extraídos dos tratados de Vigilâncio. Ele prega contra os sinais e milagres que ocorrem nas basílicas dos mártires, afirmando que eles se dão [apenas] para os infiéis, não para os fiéis, muito embora a questão aqui seria esta: em vantagem de quem ocorrem, não sob o poder de quem. Supõe [ele] que tais sinais são para os infiéis pois como estes não obedeceriam nem a palavra nem a doutrina, acabariam por crer através dos sinais. Com efeito, até mesmo o Senhor teria apresentado sinais para os infiéis (tais sinais do Senhor não entram aqui em discussão) porque aquele povo não tinha fé; [esses sinais] eram dignos de grande admiração pois que poderosíssimos para subjugar os corações mais duros, compelindo os homens a crerem. Eu não vou pedir para que você (Vigilâncio) me diga que esses sinais são para os infiéis, mas para respoder a esta questão: como é que essas poeiras e cinzas indignas encontram-se associadas com este maravilhoso poder de sinais e milagres? Eu percebo - e como percebo -, ó mais infeliz dos mortais, o porquê de você ser tão preocupado e o que causa esse temor: é que esse espírito imundo, que força você a escrever essas coisas, foi muitas vezes torturado por essa "poeira sem valor", e continua sendo torturado neste momento. E se no seu caso em específico ele disfarça as suas feridas, em outros casos ele próprio confessa. Você é fiel seguidor dos pagãos e ímpios Porfírio e Eunômio e acha que aqueles (sinais que ocorrem nas basílicas dos mártires) são armadilhas dos demônios, sendo que estes não gritam [ao serem expulsos], somente fingem seus tormentos. Deixe-me dar um conselho a você: vá até as basílicas dos mártires; certamente um dia você será libertado; você encontrará lá vários casos como o seu e receberá o fogo - não das velas dos mártires que ora deixam você ofendido - mas das chamas invisíveis. Então você confessará aquilo que agora nega e irá pronunciar livremente o seu nome, pois esse que atualmente fala na pessoa de Vigilâncio é, na verdade, Mercúrio (o mercenário); ou Noturno (que, segundo o "Amphitryon" de Platão, dormia enquanto Júpiper, por duas noites seguidas, mantinha relações adulterinas com Alcmena, gerando assim o poderoso Hércules); ou [seu] pai Baco (famoso beberrão, portando a caneca em seus ombros, com sua face rubra, lábios cheios de espuma e brigão descabeçado). 

Capítulo XI

Qualquer dia desses, quando um terremoto repentinamente ocorrer nesta província no meio da noite, obrigando-nos a acordar, você (Vigilâncio), o mais prudente e sábio dos homens, começará a pregar pelado e nos trará à mente o relato de Adão e Eva no paraíso. Eles, então, quando se lhe abriram os olhos, ficaram envergonhados, porque viram que estavam nus, e cobriram suas vergonhas com folhas de árvores. Mas você, que parece ter sido despido das suas roupas e da sua fé, no repentino terror que o esmagou e ainda sob os efeitos da bebida da última noite, mostrou sua sabedoria expondo sua nudez de maneira tão evidente aos olhos dos irmãos. Tais são os adversários da Igreja! Estes são os líderes que lutam contra o sangue dos mártires! Eis aí um espécimen dos oradores que estrondam contra os Apóstolos! Ou melhor: eis aí os cachorros loucos que uivam para os discípulos de Cristo! 

Capítulo XII

Eu confesso o meu próprio temor, por imaginar que tudo isso provém da superstição. Quando eu ficava bravo, ou tinha maus pensamentos em mente, ou algum espírito da noite me seduzia, eu não me atrevia a entrar nas basílicas dos mártires, eu tremia completamente, tanto no corpo quanto na alma. Talvez você (Vigilâncio) ria e zombe, dizendo que isto chega ao nível das fantasias selvagens das mulheres mais frágeis. Se é assim, eu não me envergonho de ter uma fé igual daquelas [mulheres] que viram por primeiro o Senhor ressuscitado, que foram enviadas aos Apóstolos e que, na pessoa da Mãe de nosso Senhor e Salvador, foram recomendadas aos santos Apóstolos. Vomite suas indecências, se quiser, para os homens que estão no mundo; eu jejuarei ao lado destas mulheres. Sim, [vomite] para homens religiosos que testemunham sua castidade e que, com a face pálida em razão da prolongada abstinência, demonstram a própria castidade de Cristo. 

Capítulo XIII

Alguma outra coisa também parece estar incomodando você (Vigilâncio). Você está preocupado que a continência, a sobriedade e o jejum crie raízes entre os povos da Gália e as tavernas desse lugar deixem de funcionar. Então você será incapaz de manter as suas vigílias noturnas diabólicas e diversões entre as bebidas. Ademais, fiquei sabendo a partir daquelas mesmas cartas [dos presbíteros Ripário e Desidério] que, desafiando a autoridade de Paulo, ou melhor, a de Pedro, João e Tiago - que concederam o direito de apostolado a Paulo e Barnabé e ordenaram que se lembrassem dos pobres - você proíbe que qualquer socorro pecuniário seja remetido para Jerusalém, para o socorro dos santos. Agora, se eu abordo esta questão, você imediatamente solta a língua e vocifera que estou defendendo a minha própria causa. Evidentemente, você foi tão generoso para a comunidade inteira que se não viesse a Jerusalém para torrar todo o seu dinheiro ou o dos seus patrões, todos nós estaríamos à beira da fome. Eu digo o que o bem-aventurado Apóstolo Paulo disse em quase todas as suas epístolas! Ele ordenou para as igrejas dos gentios que, no primeiro dia da semana (=domingo), isto é, no dia do Senhor, as ofertas feitas por cada um fossem remetidas para Jerusalém, para socorrer os santos, e isso seria observado pelos seus seus discípulos, bem como por aqueles aprovados por estes. E se isso não devesse ser feito, ele mesmo enviaria ou levaria [para Jerusalém] o que recolheu? Também nos Atos dos Apóstolos, quando se dirigiu ao governador Félix, ele disse: "Depois de muitos anos, eu subi a Jerusalém a fim de levar esmolas e ofertas para a minha nação, e para cumprir os meus votos, tendo sido encontrado me purificando no templo". Por que ele não distribuiu em alguma outra parte do mundo, nas igrejas nascentes em que instruía na fé, aqueles dons que recebeu dos outros? Mas ele percorreu longo caminho para dar aos pobres dos lugares santos que, abandonando suas poucas posses por amor a Cristo, convertiam todo o seu coração para o serviço do Senhor. Levaria muito tempo agora se eu começasse a repetir aqui todas as passagens das suas epístolas nas quais ele advoga e defende de todo coração aquele dinheiro que seria remetido para os fiéis de Jerusalém e locais santos. Não para gratificar a avareza, mas para socorrer. Não para acumular riquezas, mas para suportar a fraqueza do pobre corpo e para repelir o frio e a fome. E este costume continua na Judéia até a presente data, não apenas entre nós, mas também entre os hebreus. Isto é o que eles observam na lei do Senhor, dia e noite. E nenhum pai sobre a terra, exceto o Senhor, pode ser protegido pelo auxílio das sinagogas e de todo o mundo; assim, a desigualdade e a angústia de outros podem ser reduzidas, pois a abundância que alguns têm pode suportar a necessidade de outros (cf. 2Coríntios 8,14). 

Capítulo XIV

Você (Vigilâncio) responderá que todos podem fazer isto em suas próprias nações, caso contrário seus pobres nunca poderão ser auxiliados com os recursos [pecuniários] da Igreja. Nós não negamos que a assistência deveria alcançar todos os pobres, inclusive judeus e samaritanos, se estes aceitassem. Mas o Apóstolo ensina que a esmola deve ser dada a todos, a começar, porém, por aqueles que compartilham da mesma fé (Gálatas 6,10). E a respeito destes, o Salvador disse no Evangelho: "Fazei-vos amigos das riquezas da injustiça, [para que quando faltarem] vos recebam em habitações eternas" (Lucas 16,9). O quê? Podem estas pobres criaturas, com seus trapos e imundícies, dominarem desse jeito, por furiosa ambição? Podem elas - que nada são, nem agora, nem depois - possuírem habitações eternas? Não há dúvida de que não é a simples pobreza, mas a pobreza em espírito, que é chamada de bem-aventurada. Destes foi escrito: "Bem-aventurado aquele que ofereceu a sua mente para o pobre e o necessitado. O Senhor o livrará naquele dia ruim". Mas o fato é que, para suportar o pobre existente entre o povo comum é necessário dinheiro e não a mente. No caso do pobre santificado, sua mente se ocupa dos santos exercícios, e, por isso, recebe [a esmola] com rubor; e quando o que recebeu é mortificado, se converte em coisas espirituais aquilo que eram coisas carnais, beneficiando aquele que deu. É seu argumento (=de Vigilâncio) que aqueles que mantêm o que têm e distribuem pouco a pouco entre os pobres, aumentam suas posses e agem muito mais profundamente que aqueles que vendem todas as suas posses e dão tudo de uma só vez. Porém é o Senhor - e não eu - quem dá a resposta: "Se você quer ser perfeito, vá, vende tudo o que tem e dá aos pobres. Depois vem e me segue" (Mateus 19,21). Ele (Cristo) fala para aqueles que desejam ser perfeitos e que, como os Apóstolos, deixaram pai, barco e redes. O homem que você aprova está sentado na segunda ou terceira fileira; mesmo assim nós o recebemos para que se compreenda que o primeiro será antecedido pelo segundo e o segundo pelo terceiro. 

Capítulo XV

Permita-me acrescentar que os nossos monges não são dissuadidos da sua firmeza por causa de sua língua de víbora e mordida feroz. Seu argumento a respeito deles funciona assim: se todos os homens se isolassem e vivessem na solidão, quem haveria para frequentar as igrejas? Quem sobraria para vencer aqueles que se ocupam dos hábitos mundanos? Quem seria capaz de incentivar os pecadores a possuir uma conduta virtuosa? De uma forma similar: se todos fossem tolos como você, quem seria sábio? E ainda seguindo o seu argumento, a virgindade não seria digna de aprovação, pois se todos fossem virgens, não existiriam casamentos; a raça [humana] pereceria; os recém-nascidos não chorariam em seus berços; parteiras perderiam os seus empregos e se tornariam indigentes; e Dormilâncio, totalmente sozinho e encolhido de frio, mentiria só para si mesmo. A verdade é esta: a virtude é coisa rara e não é perseguida por muitos. Daí o pouco que foi dito: "Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos". A prisão estaria vazia... Mas a função de um monge não é ensinar, mas sim lamentar, como uma carpideira, para si ou para o mundo, e com receio de que se antecipe a vinda do Senhor. Conhecedor das suas próprias fraquezas e fragilidades dO seu corpo, ele (o monge) se preocupa com os tropeços, para que não seja assaltado por alguma coisa e, assim, caia e se quebre. Por isso, ele evita o sorriso das mulheres, particularmente o das mais jovens, e se isola, temendo até mesmo aquilo que é seguro. 

Capítulo XVI

Perguntará você (Vigilâncio): por que se retirar para o deserto? A razão é óbvia. Para que eu não possa te escutar, nem te ver! Para que eu não possa ser perturbado pela sua loucura! Para que eu não me ocupe com você! Para que os olhos da prostituta não me tornem um cativo! Para que a beleza não me leve para abraços irregulares! Você replicará: "Isto não é uma luta, mas uma fuga. Permaneça na linha de batalha, coloque a sua armadura e resista aos seus inimigos! E então, tendo vencido, receberá a sua coroa". Pois eu confesso a minha fraqueza. Eu não lutaria na esperança de vencer, para não correr o risco de perder em algum momento a vitória. Se eu fujo, eu evito a espada. Se eu fico, ou eu venço ou eu sou derrotado. Que necessidade tenho eu de ignorar as certezas e seguir as incertezas? Quer com o meu escudo, quer com os meus pés, eu devo evitar a morte [certa]. Você que luta pode vencer, mas também pode ser vencido. Não existe segurança em dormir com uma serpente do seu lado; é possível que ela não me pique, mas também é possível que ela, após certo tempo, acabe por me picar. Nós chamamos de mães aquelas mulheres que não são mais velhas que irmãs e filhas, e não ficamos corados por encobrir nossos vícios com os nomes mais pios. O que tem para fazer um monge na cela das mulheres? Qual o significado dos olhares e conversas secretas que evitam a presença de testemunhas? Amor santo não tem desejo inquieto. Ademais, o que já dissemos a esse respeito deve ser também aplicado à avareza e todos os vícios que devemos evitar pela solidão. Assim, ficamos afastados das cidades populosas para que não sejamos compelidos a fazer o que nos pedem, não tanto pela natureza, mas pela escolha. 

Capítulo XVII

A pedido dos respeitáveis presbíteros - como já disse - eu me dediquei à redação destas poucas considerações, em uma noite de trabalho, pois meu irmão Sisínio, tem pressa de partir para o Egito, onde socorrerá os santos e, por isso, encontra-se impaciente para ir embora. É uma pena, pois a questão por si mesma é tão blasfema que leva à indignação um escritor que possui uma multidão de provas. Mas se Dormilâncio pensa que abusará de mim mais uma vez, e se pensa em disparar contra mim aquela mesma boca blasfema com a qual quebra em pedaços os Apóstolos e mártires, certamente escreverei algo mais que estas linhas. Seja como for, passarei uma noite inteira em vigília, em favor dele e das suas companhias - sejam elas discípulos ou mestres - que pensam que nenhum homem pode ser digno do ministério de Cristo, exceto se for casado e sua esposa for vista com filhos.

Fonte: New Advent (
http://www.newadvent.org/)
Tradução: Carlos Martins Nabeto

DIDAQUÊ: A Doutrina dos Apóstolos



 
Última Pagina do Manuscrito da Didaquê

           Estudiosos estimam que são escritos anteriores a destruição do templo de Jerusalém, entre os anos 60 e 70 d.C. Outros estimam que foi escrito entre os anos 70 e 90 d.C., contudo são coesos quanto a origem sendo na Palestina ou Síria. Segundo Willy Rordorf, a Didaquê é uma "compilação anônima de diversas fontes derivadas da tradição viva, de comunidades eclesiais bem definidas", portanto a questão da datação equivale à questão das datas das tradições ali registradas, que indubitavelmente remontariam ao século I d. C., derrubando as teses de datação tardia (séc. II).

       Quanto à sua autenticidade, é de senso comum que o mesmo não tenha sido escrito pelos doze apóstolos, ainda que o título do escrito lhes faça menção. Contudo, estudiosos acreditam na compilação de fontes orais tendo recebido os ensinamentos que resultaram na elaboração do texto. Também é senso comum que tenha sido escrito por mais de uma pessoa.

O texto foi mencionado por escritores antigos, inclusive por Eusébio de Cesareia que viveu no século III, em seu livro "História Eclesiástica", mas a descoberta desse manuscrito, na íntegra, em grego, num códice do século XI ( ano 1056 ) ocorreu somente em 1873 num mosteiro em Constantinopla, o chamado Codex Hierosolymitanus.

CAPÍTULO I  


1 Existem dois caminhos no mundo: o da vida e o da morte; o da luz e o das trevas. Neles foram estabelecidos dois anjos: o da justiça e o da iniquidade. Porém, grande é a diferença entre esses dois caminhos. 2 Este é o caminho da vida: em primeiro lugar, deves amar ao Deus eterno que te criou; em segundo lugar, [deves amar] o teu próximo como a ti mesmo; assim, tudo o que não quiserdes que seja feito contigo, não o farás a outro. 3 A explicação destas palavras é a que segue.

CAPÍTULO II


1[...] 2 Não cometerás adultério; não matarás; não prestarás falso testemunho; não violarás a criança; não fornicarás; não praticarás a magia; não fabricarás poções; não matarás a criança mediante aborto, nem matarás o recém-nascido; não cobiçarás nada do teu próximo. 3 Não proferirás perjúrios; não falarás mal, nem recordarás das más-ações. 4 Não darás mal conselho, nem teu linguajar terá duplo sentido, pois a língua é uma armadilha para a morte. 5 Tua palavra não será vã, nem enganosa. 6 Não serás ambicioso, nem avarento, nem voraz, nem adulador, nem parcial, nem de maus costumes; não admitirás que se crie uma armadilha para o teu próximo. 7 Não odiarás a qualquer homem, mas o amareis mais que a tua própria vida. 

CAPÍTULO III  


1 Filho: afasta-te do homem mal e do homem falso. 2 Não sejas irado porque a ira conduz ao homicídio, nem desejes a maldade e a paixão pois disto tudo nasce a ira. 3... 4Não sejas astrólogo, nem purificador, pois estas coisas conduzem à vã superstição; nem sequer desejes ver ou ouvir estas coisas. 5Não sejas mentiroso porque a mentira conduz ao roubo; nem amante do dinheiro, nem da vadiagem, pois de tudo isto nascem os roubos. 6 Não sejas murmurador porque isto conduz à difamação; não sejas temerário, nem penses mal, pois de tudo isto nascem as difamações. 7 Ao contrário, sê manso, porque os mansos possuirão a terra santa. 8 Sê também paciente em teu trabalho; sê bom e temeroso de todas as palavras que escutas. 9 Não te enaltecerás nem te gloriarás perante os homens, nem infundirás a soberba na tua alma; não te unirás em espírito com os orgulhosos, mas te juntarás aos justos e humildes. 10 Receberás como bem as coisas adversas que te ocorrerem, sabendo que nada ocorre sem Deus.

CAPÍTULO IV


1Daquele que te ensina a palavra do Senhor Deus, te recordarás dia e noite. O respeitarás como ao Senhor, pois onde se apresentam as coisas relativas ao Senhor, ali está o Senhor. 2 Assim pois, busca o rosto dos santos, para que te entretenhas nas suas palavras. 3 Não causes divisões, mas põe paz entre os que se desentendem; julga retamente sabendo que também tu serás julgado; não derrubarás ninguém em desgraça. 4 Não terás dúvidas se será ou não verdadeiro. 5 Não sejas como aqueles que estendem a mão para receber e encolhem para dar. 6 Sim, graças às tuas mãos, tens a redenção dos pecados; não terás dúvidas ao dar, sabendo quem será o remunerador dessa recompensa. 7 Não te desviarás do necessitado, mas compartilharás todas as coisas com teus irmãos e não dirás que sãos tuas. Se somos co-partícipes no imortal, quanto mais devemos iniciá-lo já, a partir daqui? Eis que o Senhor quer dar a todos os Seus dons. 9 Não afastarás as tuas mãos dos teus filhos, mas desde a juventude lhes ensinarás o temor a Deus. 10 A teu servo ou a tua serva, que esperam no mesmo Senhor, não os obrigarás, com ira, que venham a temer ao Senhor e a ti, pois Ele não veio para discriminar pessoas, mas para aqueles em quem encontrou um espírito humilde. 11 Vós, servos, permanecei submissos aos vossos senhores como a Deus, com pudor e temor. 12 Odiarás toda hipocrisia e não farás o que não agrada a Deus. 13 Assim, pois, guarda, filho, o que tens ouvido e não lhe acrescentes coisas contrárias, nem as reduza. 14 Não te cerques da oração cm maus propósitos. Este é o caminho da vida.

CAPÍTULO V


1 Por outro lado, o caminho da morte é contrário àquele. Para começar, é mau e cheio de maldições: adultérios, homicídios, falsos testemunhos, fornicações, maus desejos, atos mágicos, poções malditas, roubos, vãs superstições, furtos, hipocrisias, repugnâncias, malícia, petulância, cobiça, linguajar imoral, inveja, ousadia, soberba, orgulho, vaidade. 2 Os que não temem a Deus, os que perseguem os justos, os que odeiam a verdade, os que amam a mentira, os que não conhecem a recompensa da verdade, os que não se aplicam ao bem, os que não têm um reto juízo, os que não cuidam pelo bem mas pelo mal 3 dos quais se esgota a paciência e cerca a soberba - os que perseguem aos remuneradores, os que não se compadecem do pobre, os que não se afligem com o aflito, os que não conhecem a seu Criador, os que assassinam os seus filhos, os que cometem o aborto, os que se afastam das boas obras, os que oprimem o trabalhador, os que se esquivam do conselho dos justos: Filho, afasta-te de todos estes!

CAPÍTULO VI


1 E vigia para que ninguém te afaste desta doutrina; do contrário, serás considerado sem disciplina. 2... 3... 4 Se a cada, com cuidado, fizeres estas coisas, estarás próximo do Deus vivo; se não o fizeres, estarás longe da verdade. 5 Põe todas estas coisas em teu espírito e não perderás a tua esperança; ao invés, por estes santos combates, chegarás à coroa. 6 Por Jesus Cristo, o Senhor que reina e é Senhor com Deus Pai e o Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Amém.

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Fonte:  B. Altaner/A.Stuiber. Patrologia, ed. Paulinas, pp. 89/91

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Por que sou católico 

G. K. Chesterton

Notas do tradutor:

1. Tenho sempre me defrontado com esta pergunta, feita por alguém: “Por que você é católico?” Como somos obrigados a dar satisfação sobre a fé que nos anima (os cristãos devem estar ‘‘sempre prontos a satisfazer a quem quer que lhes peça razões da esperança que os anima’’(1 Ped 3,15)), tenho sempre algumas respostas-padrão. Resolvi, contudo, traduzir este soberbo texto de Chesterton sobre suas razões para ter sido católico, que tomo como orientação para minhas próprias respostas.

2. Quem conseguir ler em inglês, não perca tempo com minha tradução. Em muitos sentidos, é impossível traduzir Chesterton. Ele é um mestre com as palavras e este pobre tradutor não dá contra disso em nosso idioma. O link para o artigo em inglês se encontra ao final da tradução.

3. É interessante ler este artigo em conjunto com outro: Por que acredito no cristianismo, já traduzido neste blog.

4. Claro, temos um Chesterton brasileiro. Ele se chama Gustavo Coração. Não deixe de lê-lo, sobretudo, Três alqueires e uma vaca, onde Coração fala de Chesterton.

A dificuldade em explicar “Por que eu sou Católico” é que há dez mil razões para isso, todas se resumindo a uma única: o catolicismo é verdadeiro. Eu poderia preencher todo o meu espaço com sentenças separadas, todas começando com as palavras, “É a única coisa que ...” Como, por exemplo, (1) É a única coisa que previne um pecado de se tornar um segredo. (2) É a única coisa em que o superior não pode ser superior; no sentido da arrogância e do desdém. (3) É a única coisa que liberta o homem da escravidão degradante de ser sempre criança. (4) É a única coisa que fala como se fosse a verdade; como se fosse um mensageiro real se recusando a alterar a verdadeira mensagem. (5) É o único tipo de cristianismo que realmente contém todo tipo de homem; mesmo o respeitável. (6) É a única grande tentativa de mudar o mundo desde dentro; usando a vontade e não as leis; etc.

Ou posso tratar o assunto de forma pessoal e descrever minha própria conversão; acontece que tenho uma forte impressão de que esse método faz a coisa parecer muito menor do que realmente é. Homens muito melhores, em muito maior número, se converteram a religiões muito piores. Preferiria tentar dizer, aqui, coisas a respeito da Igreja Católica que não se podem dizer mesmo sobre suas mais respeitáveis rivais. Em resumo, diria apenas que a Igreja Católica é católica. Preferiria tentar sugerir que ela não é somente maior que eu, mas maior que qualquer coisa no mundo; que ela é realmente maior que o mundo. Mas, como neste pequeno espaço, disponho apenas de uma pequena seção, abordarei sua função como guardiã da verdade.

Outro dia, um conhecido escritor, muito bem informado em outros assuntos, disse que a Igreja Católica é uma eterna inimiga das novas ideias. Provavelmente não ocorreu a ele que sua própria observação não é exatamente uma nova ideia. É uma daquelas noções que os católicos têm de refutar continuamente, porque é uma ideia muito antiga. Na realidade, aqueles que reclamam que o catolicismo não diz nada novo, raramente pensam que seja necessário dizer alguma coisa nova sobre o catolicismo. De fato, o estudo real da História mostrará que isso é curiosamente contrário aos fatos. Na medida em que as ideias são realmente ideias, e na medida em que tais ideias são novas, os católicos têm sofrido continuamente por apoiarem-nas quando elas são realmente novas; quando elas eram muito novas para encontrar alguém que as apoiasse. O católico foi não só o pioneiro na área, mas o único; e até hoje não houve ninguém que compreendesse o que se tinha descoberto lá.

Assim, por exemplo, quase duzentos anos antes da Declaração de Independência e da Revolução Francesa, numa era devotada ao orgulho e ao louvor aos príncipes, o Cardeal Bellarmine e Suarez, o Espanhol, formularam lucidamente toda a teoria da democracia real. Mas naquela era do Direito Divino, eles somente produziram a impressão de serem jesuítas sofisticados e sanguinários, se insinuando com adagas para assassinarem os reis. Então, novamente, os casuístas das escolas católicas disseram tudo o que pode ser dito e que constam de nossas peças e romances atuais, duzentos anos antes de eles serem escritos. Eles disseram que há sim problemas de conduta moral, mas eles tiveram a infelicidade de dizê-lo muito cedo, cedo de dois séculos. Num tempo de extraordinário fanatismo e de uma vituperação livre e fácil, eles foram simplesmente chamados de mentirosos e trapaceiros por terem sido psicólogos antes da psicologia se tornar moda. Seria fácil dar inúmeros outros exemplos, e citar o caso de ideias que são ainda muito novas para serem compreendidas. Há passagens da Encíclica do Papa Leão sobre o trabalho [conhecida como Rerum Novarum, publicada em 1891] que somente agora estão começando a ser usadas como sugestões para movimentos sociais muito mais novos do que o socialismo. E quando o Sr. Belloc escreveu a respeito do Estado Servil, ele estava apresentando uma teoria econômica tão original que quase ninguém ainda percebeu do que se trata. E então, quando os católicos apresentam objeções, seu protesto será facilmente explicado pelo conhecido fato de que católicos nunca se preocupam com ideias novas.

Contudo, o homem que fez essa observação sobre os católicos quis dizer algo; e é justo fazê-lo compreender muito mais claramente o que ele próprio disse. O que ele quis dizer é que, no mundo moderno, a Igreja Católica é, de fato, uma inimiga de muitas modas influentes; muitas delas ainda se dizem novas, apesar de algumas delas começarem a se tornar um pouco decadentes. Em outras palavras, na medida em que diz que a Igreja frequentemente ataca o que o mundo, em cada era, apoia, ele está perfeitamente certo. A Igreja sempre se coloca contra a moda passageira do mundo; e ela tem experiência suficiente para saber quão rapidamente as modas passam. Mas para entender exatamente o que está envolvido, é necessário tomarmos um ponto de vista mais amplo e considerar a natureza última das ideias em questão, considerar, por assim dizer, a ideia da ideia.

Nove dentre dez do que chamamos novas ideias são simplesmente erros antigos. A Igreja Católica tem como uma de suas principais funções prevenir que os indivíduos comentam esses velhos erros; de cometê-los repetidamente, como eles fariam se deixados livres. A verdade sobre a atitude católica frente à heresia, ou como alguns diriam, frente à liberdade, pode ser mais bem expressa utilizando-se a metáfora de um mapa. A Igreja Católica possui uma espécie de mapa da mente que parece um labirinto, mas que é, de fato, um guia para o labirinto. Ele foi compilado a partir de um conhecimento que, mesmo se considerado humano, não tem nenhum paralelo humano.

Não há nenhum outro caso de uma instituição inteligente e contínua que tenha pensado sobre o pensamento por dois mil anos. Sua experiência cobre naturalmente quase todas as experiências; e especialmente quase todos os erros. O resultado é um mapa no qual todas as ruas sem saída e as estradas ruins estão claramente marcadas, todos os caminhos que se mostraram sem valor pela melhor de todas as evidências: a evidência daqueles que os percorreram.

Nesse mapa da mente, os erros são marcados como exceções. A maior parte dele consiste de playgrounds e alegres campos de caça, onde a mente pode ter tanta liberdade quanto queira; sem se esquecer de inúmeros campos de batalha intelectual em que a batalha está eternamente aberta e indefinida. Mas o mapa definitivamente se responsabiliza por fazer certas estradas se dirigirem ao nada ou à destruição, a um muro ou ao precipício. Assim, ele evita que os homens percam repetidamente seu tempo ou suas vidas em caminhos sabidamente fúteis ou desastrosos, e que podem atrair viajantes novamente no futuro. A Igreja se faz responsável por alertar seu povo contra eles; e disso a questão real depende. Ela dogmaticamente defende a humanidade de seus piores inimigos, daqueles grisalhos, horríveis e devoradores monstros dos velhos erros. Agora, todas essas falsas questões têm uma maneira de parecer novas em folha, especialmente para uma geração nova em folha. Suas primeiras afirmações soam inofensivas e plausíveis. Darei apenas dois exemplos. Soa inofensivo dizer, como muitos dos modernos dizem: “As ações só são erradas se são más para a sociedade.” Siga essa sugestão e, cedo ou tarde, você terá a desumanidade de uma colmeia ou de uma cidade pagã, o estabelecimento da escravidão como o meio mais barato ou mais direto de produção, a tortura dos escravos pois, afinal, o indivíduo não é nada para o Estado, a declaração de que um homem inocente deve morrer pelo povo, como fizeram os assassinos de Cristo. Então, talvez, voltaremos às definições da Igreja Católica e descobriremos que a Igreja, ao mesmo tempo que diz que é nossa tarefa trabalhar para a sociedade, também diz outras coisas que proíbem a injustiça individual. Ou novamente, soa muito piedoso dizer, “Nosso conflito moral deve terminar com a vitória do espiritual sobre o material.” Siga essa sugestão e você terminará com a loucura dos maniqueus, dizendo que um suicídio é bom porque é um sacrifício, que a perversão sexual é boa porque não produz vida, que o demônio fez o sol e a lua porque eles são materiais. Então, você pode começar a adivinhar a razão de o cristianismo insistir que há espíritos maus e bons; e que a matéria também pode ser sagrada, como na Encarnação ou na Missa, no sacramento do casamento e na ressurreição da carne.

Não há nenhuma outra mente institucional no mundo que está pronta a evitar que as mentes errem. O policial chega tarde, quando ele tentar evitar que os homens cometam erros. O médico chega tarde, pois ele apenas chega para examinar o louco, não para aconselhar o homem são a como não enlouquecer. E todas as outras seitas e escolas são inadequadas a esse propósito. E isso não é porque elas possam não conter uma verdade, mas precisamente porque cada uma delas contém uma verdade; e estão contentes por conter uma verdade. Nenhuma delas pretende conter a verdade. A Igreja não está simplesmente armada contra as heresias do passado ou mesmo do presente, mas igualmente contra aquelas do futuro, que podem estar em exata oposição com as do presente. O catolicismo não é ritualismo; ele poderá estar lutando, no futuro, contra algum tipo de exagero ritualístico supersticioso e idólatra. O catolicismo não é ascetismo; ele, repetidamente no passado, reprimiu os exageros fanáticos e cruéis do ascetismo. O catolicismo não é mero misticismo; ele está agora mesmo defendendo a razão humana contra o mero misticismo dos pragmatista. Assim, quando o mundo era puritano, no século XVII, a Igreja era acusada de exagerar a caridade a ponto da sofisticação, por fazer tudo fácil pela negligência confessional. Agora que o mundo não é puritano mas pagão, é a Igreja que está protestando contra a negligência da vestimenta e das maneiras pagãs. Ela está fazendo o que os puritanos desejariam fazer, quando isso fosse realmente desejável. Com toda a probabilidade, o melhor do protestantismo somente sobreviverá no catolicismo; e, nesse sentido, todos os católicos serão ainda puritanos quando todos os puritanos forem pagãos.

Assim, por exemplo, o catolicismo, num sentido pouco compreendido, fica fora de uma briga como aquela do darwinismo em Dayton. Ele fica fora porque permanece, em tudo, em torno dela, como uma casa que abarca duas peças de mobília que não combinam. Não é nada sectário dizer que ele está antes, depois e além de todas as coisas, em todas as direções. Ele é imparcial na briga entre fundamentalistas e a teoria da Origem das Espécies, porque ele se funda numa origem anterior àquela Origem; porque ele é mais fundamental que o Fundamentalismo. Ele sabe de onde veio a Bíblia. Ele também sabe aonde vão as teorias da Evolução. Ele sabe que houve muitos outros evangelhos além dos Quatro Evangelhos e que eles foram eliminados somente pela autoridade da Igreja Católica. Ele sabe que há muitas outras teorias da evolução além da de Darwin; e que a última será muito provavelmente eliminada pela ciência mais recente. Ele não aceita, convencionalmente, as conclusões da ciência, pela simples razão de que a ciência ainda não chegou a uma conclusão. Concluir é se calar; e o homem de ciência dificilmente se calará. Ele não acredita, convencionalmente, no que a Bíblia diz, pela simples razão de que a Bíblia não diz nada. Você não pode colocar um livro no banco das testemunhas e perguntar o que ele quer dizer. A própria controvérsia fundamentalista se destrói a si mesma. A Bíblia por si mesma não pode ser a base do acordo quando ela é a causa do desacordo; não pode ser a base comum dos cristãos quando alguns a tomam alegoricamente e outros literalmente. O católico se refere a algo que pode dizer alguma coisa, para a mente viva, consistente e contínua da qual tenho falado; a mais alta consciência do homem guiado por Deus.

Cresce a cada momento, para nós, a necessidade moral por tal mente imortal. Devemos ter alguma coisa que suportará os quatro cantos do mundo, enquanto fazemos nossos experimentos sociais ou construímos nossas Utopias. Por exemplo, devemos ter um acordo final, pelo menos em nome do truísmo da irmandade dos homens, que resista a alguma reação da brutalidade humana. Nada é mais provável, no momento presente, que a corrupção do governo representativo solte os ricos de todas as amarras e que eles pisoteiem todas as tradições com o mero orgulho pagão. Devemos ter todos os truísmos, em todos os lugares, reconhecidos como verdadeiros. Devemos evitar a mera reação e a temerosa repetição de velhos erros. Devemos fazer o mundo intelectual seguro para a democracia. Mas na condição da moderna anarquia mental, nem um nem outro ideal está seguro. Tal como os protestantes recorreram à Bíblia contra os padres e não perceberam que a Bíblia também podia ser questionada, assim também os republicanos recorreram ao povo contra os reis e não perceberam que o povo também podia ser desafiado. Não há fim para a dissolução das ideias, para a destruição de todos os testes da verdade, situação tornada possível desde que os homens abandonaram a tentativa de manter uma Verdade central e civilizada, de conter todas as verdades e identificar e refutar todos os erros. Desde então, cada grupo tem tomado uma verdade por vez e gastado tempo em torná-la uma mentira. Não temos tido nada, exceto movimentos; ou em outras palavras, monomanias. Mas a Igreja não é um movimento e sim um lugar de encontro, um lugar de encontro para todas as verdades do mundo.


Disponível em inglês em Why I am a Catholic

Razões porque eu sou Católico Apostólico Romano.

Porque a nossa Igreja é Santa!
A Igreja Católica é “Santa” porque Jesus Cristo, seu Fundador, é Deus, fonte infinita de toda a santidade. Só Ele pode lançar confiadamente este desafio a seus inimigos: Quem dentre vós, me acusa de pecado? (João 8,46).
Enquanto fundadores das outras igrejas como Lutero, Calvino, Wesley; e de outras religiões, como Maomé foram meros homens, Jesus Cristo, Deus feito homem, é a nossa pedra fundamental!
O ideal que a Igreja Católica prega ao mundo é o mesmo de Jesus Cristo: “Sedes perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito” Mateus 5,48
E para chegar à santidade, a Igreja põe a disposição de seus filhos os meios instituídos por Jesus Cristo para nos conceder a sua graça: A Missa e os 7 Sacramentos.


Porque a nossa Igreja é Apostólica?
“A Igreja é apostólica porque ela é fundada sobre os apóstolos”. Ela é Apostólica desde sua origem, pois transmite as palavras recebidas de Jesus pelos seus apóstolos ininterruptamente até os dias de hoje.
Pedro e João, depois de terem sido jogados na prisão pelas autoridades, por curarem um coxo de nascença, à porta do templo, em Nome de Jesus, foram levados a um tribunal que queria proibi-los de continuarem curando em Nome de Jesus. Apesar de todos os riscos responderam: “Julgai-o vós mesmos, se é justo diante de Deus, obedecermos a vós mais do que a Deus. Não podemos deixar de falar das coisas que temos visto e ouvido!” (Atos 4,19-20).
Isto é ser Apostólico: “Viver e agir como Pedro e João. E como Jesus ensinou”.Só a Igreja Romana é verdadeiramente “Católica”.
A igreja católica é uma só no mundo inteiro. O que significa “católica”? A palavra “católica” significa “Universal” no sentido da totalidade ou da integralidade. Ela é universal porque se dirige a todos os homens sem distinção de raça e de nacionalidade.
A nossa Igreja é é católica por que o Cristo está presente nela e é mandada em missão por Jesus a todos os homens.
“Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15).
“Onde está o Cristo Jesus, está a Igreja Católica” (Santo Inácio de Antioquia)


A nossa Igreja é infalível.
Quando Jesus delegou a Seus Apóstolos a sua divina missão perante todas as nações, até o fim do mundo (Mateus 28,20), prometeu-lhes: “Eu estarei sempre convosco”. Esta frase encontra-se na Bíblia ainda por 90 vezes; significa que a pessoa será bem sucedida na missão que Deus lhe confiou (Gênesis 39,2; Êxodo 3,12; Jeremias 1,19).
Ora, para que os Apóstolos e seus Sucessores se saíssem bem na missão divina de pregar o Evangelho a toda a criatura, até o fim do mundo, necessitava de ser infalíveis.
O divino Salvador no seu último discurso aos Apóstolos, no Cenáculo, prometeu enviar-lhes: “Espírito Santo que vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse” (João 14,26).
“Logo, a Igreja deve ser necessariamente infalível, porque o Espírito Santo está e estará “eternamente” com Ela (João 14,16).
Eu tenho um Pastor infalível, o Papa.
“Tu és Pedro e sobre ti, edificarei a minha Igreja” … “Apascenta os meus cordeiros” (João 21,15.)
Se São Pedro e seus Sucessores como supremos Pastores, ensinassem doutrina falsa, não seriam a pedra sobre a qual está fundada a Igreja; as portas do inferno prevaleceriam contra ela, desmentindo as palavras de Cristo; o Céu teria que sancionar o erro; a fé dos irmãos não seria confortada; nem o rebanho seria apascentado com o verdadeiro pábulo da fé divina (Mateus 16,18-19; Lucas 22,31-32; João 16,16-17).
Jesus Cristo se dá e se deixa encontrar nos Sacramentos.
Se a Igreja é um Corpo imenso, divinamente vivo e que anima o Espírito Santo, os Sacramentos são as artérias que vão de Jesus, Coração da Igreja, levar o precioso Sangue e a graça por toda a terra, a todas as almas, a todos os homens de todas as condições.E se a Igreja é uma comunhão divina, os sacramentos são os grandes meios escolhidos por Deus para se dar aos homens.

Quais são os sacramentos da Igreja?
O Batismo;
A Crisma;
A Penitência;
A Eucaristia;
A Unção dos enfermos;
A Ordem;
O Matrimônio.

O Sacramento dos Sacramentos: A Eucaristia.
“Podemos chamar a eucaristia de “sacramento da Igreja”, por excelência, porque na verdade é da eucaristia que brota a vida da Igreja, e é para a eucaristia que converge toda a sua ação. Assim, a Eucaristia é o centro da vida cristã e eclesial” Pe Busch.
“Isto é o Meu Corpo” (Mateus 26,26.)
“Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente.“ (João 6,51.)
… “tomou um pão, deu graças, partiu e distribuiu-o a eles dizendo: “isto é o meu corpo que é dado por vós, fazei isto em minha memória” (Lucas 22, 19-20.)
Maria é Mãe de Deus e Mãe da Igreja.
“Maria é a terra na qual foi semeada a Igreja.” Santo Ephrem. Mãe de Deus, Teotokos.
Por que chamamos à Virgem Maria, Mãe de Deus, em vez de lhe chamar Mãe de Jesus?
O Anjo Gabriel falou a Maria um dia: “conceberás no teu seio e darás À luz um filho, e tu o chamarás com o nome de Jesus… O Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sombra. Por isso o Santo que nascer será chamado Filho de Deus” Lucas 1, 31-35.
E Santa Isabel saudou Maria com estas palavras: “Donde me vem a honra que a mãe do meu Senhor me visite?” Lucas 1,43. Essas palavras bíblicas nos mostram perfeitamente que Maria foi escolhida para ser a Mãe de Deus.
Jesus e Maria estão tão estreitamente unidos que quem vê Jesus vê sua Mãe, Maria, quem ama Jesus ama Maria, quem tem devoção a Jesus tem devoção a Maria. (São João Eudes 1601 – 1680 teólogo e apostolo da devoção aos Corações de Jesus e Maria)
Lembre-se.
“Não te afastes da Igreja! Nada é mais forte que Ela. Ela é tua esperança, teu refúgio. Ela é mais alta que o céu e mais vasta que a terra. Ela nunca envelhece…” (São João Crisóstomo – bispo 350 407).
 
REFERÊNCIA DO TEXTO:
Estes são alguns trechos de algumas razões porque somos Católicos, retirado do livro: 20 razões porque eu sou Católico. Uma excelente dica de leitura á todos os Católicos que queiram encontrar subsídios e crescer espiritualmente.